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A guerra e a ausência proletária


Para compreender o papel central ucraniano na indústria de gás da URSS – tanto no desenvolvimento tecnológico, quanto no que se refere ao transporte e armazenamento – é importante mencionar que o país era um território incontornável para os gasodutos, circunstância que legou à nação uma relação especial com Moscou. Assim, a Rússia deveria recompensar os governantes ucranianos que fortalecessem os laços com o governo moscovita. Em contrapartida, a Ucrânia era beneficiada com preços significativamente mais baixos do que os do mercado internacional de gás e petróleo, sem os quais a competitividade de sua produção nacional ficava profundamente reduzida.

É perceptível que por trás das crises do gás em 2006 e 2009, que resultaram em breves interrupções no abastecimento russo à Ucrânia e à UE, estavam divergências relacionadas ao preço que a Ucrânia paga pelo gás e à forma de pagamento da dívida contraída por Kiev decorrente dessa relação. Sob essa intercâmbio, parece estar escondida a intrincada trama de um fio que nos leva do oriente ao ocidente.

A Rússia depende profundamente da produção de gás e petróleo, o carro chefe de suas exportações. Com uma baixa taxa de produtividade do trabalho em sua indústria – equivalente a 40% da taxa alemã –, o país demonstra graves problemas em inovação tecnológica, sendo os investimentos em pesquisa, dados de 2012, equivalentes a 1,2% do PIB russo – número baixo se comparado aos 2% da China. Os russos empregam uma quantidade de energia por unidade de produto duas vezes maior do que a quantidade comumente gasta em economias mais desenvolvidas. No entanto, mesmo sem dados robustos para confirmar, há que se cogitar que a baixa taxa de produtividade seria compensada, em certa medida, pelo baixo custo de produção dos combustíveis, o que explicaria a competitividade dos preços dos produtos de certos ramos da indústria russa no mercado global (1).

A hipótese ganha ainda mais relevo ao notar que cerca de 43% do gás natural consumido nos países da UE vem da Rússia. No caso específico da Alemanha, o número sobe para 55%. A conjunção entre a imensa disponibilidade de matéria-prima nas jazidas russas, a necessidade de baixa tecnologia e de pouca renovação da maquinaria para a extração e uma intensa exploração da força de trabalho – sobre a qual nos faltam dados –, proporcionaria superlucros para a indústria do ramo energético e beneficiaria – devido ao acréscimo de produtos sem um acréscimo de capital – outros ramos industriais com maior composição orgânica do capital, tanto na Rússia como na Alemanha, o que poderia explicar o aumento progressivo e consciente, ao longo de décadas, da dependência alemã em relação ao gás russo (2). Tudo isso, evidentemente, às custas de uma bárbara exploração da classe trabalhadora.

Moscou parece utilizar a abundância desses produtos a custos baixos de produção para controlar não apenas a dependência energética da indústria ucraniana, como também a necessidade que tem a UE – principalmente Alemanha e França – dos preços desses combustíveis. Nesse sentido, a Ucrânia seria um nó górdio atando Rússia e UE à espera de seu destino.

Sob essa ótica, suscitar pretensões imperialistas na ação bélica da Rússia não parece uma ideia tão absurda. Mesmo que seja difícil vislumbrar sua economia competindo com EUA, Alemanha ou China, é preciso admitir que o país possui uma produção nacional relevante, uma relativa exportação de capitais – inclusive para países da UE –, mas principalmente um poder militar imenso, com inovações tecnológicas importantes. A produção bélica não só garante posições militarmente vantajosas no mundo, como também é uma indústria que exporta para outros países – sendo essas mercadorias consumidas quanto mais conflitos militares são feitos.

A organização estatal russa também adiciona elementos a essas pretensões. Estando boa parte das jazidas energéticas em mãos privadas, o armazenamento, a distribuição e os canais de transporte concentram-se no setor público, permitindo ao Estado exercer pressão sobre os agentes envolvidos no processo de extração e comercialização. Temos como exemplo a Rosneft, Transneft e Gazprom, sendo que essa última – com maioria de ações estatais – tem monopólio sobre os dutos de exportação de gás no país.

A concertação do governo Putin – reunindo a alta burguesia pós-soviética, chamados de oligarcas, siloviks e ex-agentes da burocracia – leva em rédeas firmes o capitalismo nacional. Sob as particularidades da formação social russa, Putin parece efetivar uma das mais genuínas tarefas do Estado burguês. É um comitê de negócios comuns dos capitalistas com significativa eficiência, priorizando a manutenção dos interesses mais gerais do capital nacional – olhando não só para árvore, mas para a floresta inteira –, indo até às últimas consequências para efetivá-los, mesmo que para isso seja necessário atropelar interesses individuais de alguns capitalistas (3).

Por outro lado, a presença das potências capitalistas ocidentais no problema ucraniano também é evidente. Como já mencionamos, os Estados Unidos não apenas miram na Rússia – por sua influência regional, seu poder sobre os preços da energia europeia e seu arsenal militar – como também mira os países da União Europeia, os quais têm sido mantidos sob suas asas na OTAN.

Entre às ações ocidentais, principalmente a estadunidense, tem-se destacado até agora as chamadas revoluções coloridas – e fomento a governos pró-ocidente – na Geórgia, Quirguistão e Ucrânia, a adesão de países do leste europeu à OTAN e à UE, além da interferência no Oriente Médio, como fatores de pressão sobre a Rússia. Nos últimos meses antes da atual guerra, viu-se o governo russo pedir por negociações em relação à sua própria segurança – reclamos reconhecidos como pertinentes até por um Thomas Friedman. Qualquer um sabe o resultado de chegar até a fronteira de seu inimigo – um gigante nuclear.

Os EUA atingiram em 2021 seu maior orçamento militar desde a Segunda Guerra. A ingerência na política interna ucraniana também ficou patente desde 2004. As relações diretas – e financeiras – de Bush com a campanha presidencial de Yushchenko, de Zelensky com Trump – na tentativa de conseguir recursos para ir adiante com a guerra civil no Donbass – são públicas. Esses muitos elementos jogaram pólvora na situação e o governo norte-americano tinha plena dimensão disso. Não por outra razão, semanas antes da guerra os EUA diziam que a Rússia estava prestes a invadir, enquanto Putin chamava de “histeria ocidental”. É evidente que sempre há pontos a serem explorados numa guerra fora de seu território, sem sacrifício de seu próprio exército e provando que seu inimigo foi quem começou a agressão.

A Ucrânia dos anos 2000 tornou-se um barril de pólvora. O país mais pobre da Europa era um caldeirão de insatisfações populares somadas à insatisfação da burguesia. Dos três grupos de oligarcas industriais, um no cinturão de Kiev – com a maior renda per capita do país –; um no Donbass, a leste; e um em Dnipro, a sudeste, esses dois últimos – que juntos têm o dobro da renda média das cidades do oeste – estavam insatisfeitos. A Ucrânia oriental é a região mais industrializada do país, concentrando-se nas cidades do leste mais da metade do potencial industrial nacional, além de fornecer pelo menos três quartos da renda do Estado.

A insatisfação com a distribuição desigual do orçamento nacional somou-se à revolta com a deposição de Yanukovich, líder do Partido das Regiões – bastião da burguesia oriental ucraniana. O evidente intervencionismo ocidental – insuflando ainda mais o chauvinismo ucraniano contra os russos – parece ter desequilibrado de vez a balança entre UE e Rússia, da qual os partidos e lideranças ucranianas sempre buscaram tirar melhor proveito sem rompimentos bruscos (4). EUA, UE e Rússia antes negociavam no varejo com o governo de plantão em Kiev. Agora parece ser possível apenas comprar no atacado, tendo a Ucrânia que escolher um lado definitivamente.

Na parte oeste do país, o adesionismo europeu hegemonizou as mobilizações massivas anti-corrupção – de caráter pequeno burguês, chamado Maidan – com o discurso salvacionista de que a entrada na UE livraria o país das garras da corrupção. O pânico moral anti-soviético dos anos 1990 e o anticomunismo bárbaro encontraram no chauvinismo ucraninano um sentimento anti-russo potente. A vanguarda política desse movimento só poderiam ser os grupos neonazistas com seu saudosismo do colaboracionismo com o exército hitlerista dos anos 1930.

A insatisfação da burguesia oriental – que no sudeste produz mercadorias de relevância tecnológica como motores, satélites, aviões e equipamentos industriais, os quais não entram na UE, só podendo ser exportados para a Rússia e mercados asiáticos – e o fortalecimento da pressão cultural e linguística feita contra os russos étnicos do leste do país tomou forma ideológica no grosso da população como defesa étnica. O desdobrar disso vimos na guerra civil do Donbass, com o massacre feito pelo governo de Kiev, na formação das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk, com suas milícias de tendências populares, pequeno burguesas independentistas e até de direitistas nacionalistas russos, os quais defendem a anexação ao governo de Moscou. Este último, evidentemente, não deixou de tirar proveito disso. Mesmo não reconhecendo a independência de início, subterraneamente forneceu algum armamento, negociou com as tendências direitistas do Donbass, enviando também seu grupo de guarda costas neonazistas – os mercenários do Grupo Wagner –, além de insuflar o chauvinismo russo, um arremedo do reacionário pan-eslavismo, fiel à Igreja – Ortodoxa russa –, família e pátria.

Engana-se, portanto, aqueles que pensam que a Rússia tem algum sopro progressista para oferecer ao proletariado mundial. As tentativas de expansão de seus domínios, mesmo que em raros instantes tenha nos fornecido posições táticas favoráveis – como em algum momento aconteceu no Donbass –, ao fim, esmagam qualquer resquício de resistência proletária ou popular que se oponha a ela. Por toda a Europa, circulam notícias da ligação de Putin com o Aurora Dourada grego e a Frente Nacional Francesa. A bem da verdade, os choques entre Rússia e EUA poderiam gerar alguma oportunidade histórica revolucionária se estivéssemos diante de um proletariado pujante, reerguido após a derrota acachapante do fim do século XX.

A atual quadra histórica põe a nós, marxistas, numa situação crítica. As posições assumidas – por intelectuais, quadros e organizações – quando não histriônicas, têm sido protocolares, vazias, óbvias ou, pior ainda, distorcem os fatos para que a realidade se adeque às formulações teóricas previamente concebidas.

A situação da Ucrânia é a prova disso. Há um conflito aberto no país desde 2004, e, mesmo havendo veículos jornalísticos independentes comprometidos com a cobertura dos eventos, muito pouco se sabe sobre o que realmente ocorre por lá. Permanecemos apenas tateando no escuro, não só em relação à Ucrânia ou à Rússia, como em relação ao próprio solo concreto dos interesses concretos das classes sociais e de suas frações, da grande produção de mercadorias, seja nos EUA, na Europa, na Rússia ou na China.

Falamos em ausência proletária não sob a perspectiva teórica de uma pretensa extinção da classe trabalhadora, mas sim da debilidade das lutas dessa classe contemporaneamente, o que é retroalimentado pela inexistência de uma posição teórica consistente – o que não significa que ela não exista esparsa e pontualmente – que sustente uma posição política de fato proletária, isso é, um posição que tenha, como fundamento, unicamente os interesses de classe do proletariado.


NOTAS

  1. As exportações russas representam cerca de 20% do mercado bélico mundial, com grande destaque para aviões de combate, equipamentos antiaéreos, munição, além de helicópteros, equipamentos navais, veículos blindados leves e armas de fogo. A Rosoboronexport (empresa russa de exportação de armas) abastece Venezuela, Índia, alguns países vizinhos da Rússia, além de diversos países da África e Oriente Médio envolvidos em conflitos, bem como fornece munições aos EUA. Além disso, algo em torno de 7% das exportações russas são representadas por equipamentos e máquinas, como motores, reatores nucleares e automóveis.

  2. Com o início da atual guerra, o chanceler alemão Scholz admitiu que sem o abastecimento russo, “o suprimento de energia para geração de calor, mobilidade, abastecimento de eletricidade e a indústria não pode ser assegurado de outra forma". Nesse sentido, é notável o incômodo dos capitais norte-americanos, que sob o presidente Kennedy, nos anos 1960, impuseram através da OTAN um embargo às exportações de tubulações de gás feitas pela Alemanha Ocidental e com Reagan, na década de 1980, tentaram convencer diversas vezes os alemães a reduzirem o volume de importações russas. Atualmente, a construção do gasoduto Nord Stream 2 – o segundo que ligará a Rússia diretamente à Alemanha pelo mar Báltico – sofreu uma feroz oposição dos EUA, Inglaterra e Ucrânia. Mesmo reticente, o governo alemão suspendeu a inauguração do gasoduto como retaliação à Rússia pela guerra, mas só depois de forte pressão dos EUA. Biden busca agora novos fornecedores de gás e petróleo para a Europa.

  3. Durante o governo Putin, viu-se uma restrição ao ingresso de capitais estrangeiros no setor energético. Umas das famosas operações “moralizantes” de Putin contra alguns oligarcas foi a perseguição judicial e o confisco à fortuna de Khodorkovsky, ação que, segundo algumas fontes, teve um forte componente de combate à presença de capitais estrangeiros no setor, o que beneficiou também outros oligarcas ligados ao grupo de Putin – tributários de sua política de soberania nacional. Em 2012, o presidente prometeu que obrigaria a devolução daquilo que essa burguesia roubou durante o desmonte soviético – o que, obviamente, foi feito só em alguns casos. Nesse mesmo ano, também foram aplicadas políticas destinadas a pressionar os oligarcas a repatriar parte de seu capital depositado no exterior.

  4. Os rótulos de pró-ocidente e pró-Rússia na política ucraniana eram, até então, uma simplificação rasteira. Um exemplo disso é que, em princípio, laranjas (partidários de Yushchenko) e azuis (partidários de Yanukovich) se declaravam favoráveis ​​à incorporação na UE. Embora os laranjas tenham afirmado posições mais próximas do ocidente, talvez forçados pelo ambiente, eles sempre tentaram não prejudicar as relações com Moscou. Enquanto isso, os azuis, apesar de rejeitarem o ingresso na OTAN, também não romperam claramente os laços com essa Aliança. Assim, o projeto de Yanukovich, em suma, não era simplesmente pró-Rússia. Entre 2010 e o início de 2014 houveram as reaproximações com a UE, a manutenção da Ucrânia na associação – bastante hostil a Moscou – entre Geórgia, Azerbaijão e Moldávia (GUAM), além da não incorporação da Ucrânia na união aduaneira constituída pela Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão.

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