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Breve Coletânea de Fatos: EUA, Neonazismo e Bolsonarismo

por Rafael Jácome de Sousa Matos

Imagem: Leo Orestes/ Estadão Conteúdo


Uma das características comuns de grandes movimentos em ascensão, como foi – e é – o caso do nacionalismo adotado pela direita ao redor do mundo, logo após a derrocada da onda de governos reformistas, é que em meio a aglutinação massiva que esses movimentos constroem para ganhar força temos a presença de movimentos das mais variadas orientações.

No combate aos movimentos de esquerda que esses movimentos têm por objetivo confrontar, grupos neonazistas têm sido recorrentemente incorporados nas conjunturas nacionais em que as tensões vêm se desenvolvendo. É preciso atentar que o crescimento do neonazismo nesse meio (apesar de não ter força para hegemonizar a disputa para além de casos esporádicos), mesmo diante da impossibilidade de reprodução do que foi o nazismo décadas atrás, possui uma rede de atuação que busca explorar as contradições conjunturais e se inserir nas tensões de maneira articulada.

Sem cair em alarmismos, tal fenômeno deve ser objeto de pesquisa e atuação das forças de esquerda a fim de classificar e se munir da capacidade de reconhecimento dos obstáculos cotidianos para seu trabalho junto aos trabalhadores (ainda muito aquém do que necessitamos). Também para despir toda fraseologia sobre “democracia” (burguesa) da atuação real dos liberais e reformistas que disseminam essa demagogia.

Ademais, gostaria de frisar que esse texto não pretende traçar grandes reflexões acerca do nazifascismo, as imbricações que o determinam no cenário histórico e na conjuntura atual. Este texto se trata tão somente de um primeiro movimento de organizar algumas informações (já bem conhecidas para o leitor minimamente atento), um exercício primordial para a tão necessária análise de conjuntura; análise de fatos aparentemente caóticos e bem conhecidos da grande maioria, traçando de maneira bem breve seu fio condutor. A profundidade do fio condutor que ligam esses fatos, fica a critério de uma compreensão geral dos movimentos de esquerda que tem por tarefa sempre urgente se debruçar sobre o tema. Portanto, vejamos uma breve coletânea de fatos a partir do Batalhão Azov que chegou a compor instâncias estatais na conjuntura ucraniana, bem como indícios da complacência estadunidense com tais grupos.


Votos na ONU; “liberdade de expressão”.

Em 2021 a ONU aprovou uma resolução para combater o que ela chamou de aumento da “glorificação nazista em alguns países”, destacando como ponto de partida a conjuntura do golpe que aconteceu na Ucrânia em 2014. Lembremos que o país que faz fronteira com a Rússia e passou por uma intensa onda de protestos e conflitos civis, é o mesmo país que foi palco do episódio macabro nomeado de “O Massacre de Odessa”. (1) Nesse massacre, sindicalistas e militantes de esquerda ucranianos, muitos ligados culturalmente à herança cultural da URSS, foram perseguidos, linchados e queimados vivos dentro do sindicato no qual buscaram se esconder da horda de supremacistas brancos que marchavam pelas ruas destruindo os símbolos que remetiam ao período soviético. Aqueles que, numa última tentativa para saírem da situação desesperadora em que estavam, tentaram pular as janelas para fugir das chamas no interior do prédio foram rapidamente alvejados pelos supremacistas, que esperavam medonhamente extasiados ao lado de fora.

O massacre teve bastante repercussão, ainda que não tanto quanto deveria. O curioso é que na votação da medida proposta pela ONU para combater ideologicamente tais hordas fascistas, tanto Ucrânia (solo onde ocorreu o episódio), quanto EUA (país proeminente na OTAN), se destacaram por se contraporem sozinhos a tal proposta. Na totalidade, foram 130 votos a favor, 2 contra e 49 abstenções, sendo essas abstenções de países com vínculos econômicos com os EUA. (2)

Os EUA, se valendo da desgastada justificativa da “liberdade de expressão” (argumento adorado pelos supremacistas brancos em todo mundo), se justificou por meio de um documento oficial. Vejamos:

Hoje, no entanto, os Estados Unidos devem expressar oposição a esta resolução, um documento mais notável por suas tentativas veladas de legitimar narrativas de desinformação russas de longa data denegrindo nações vizinhas sob o pretexto cínico de impedir a glorificação nazista. A Suprema Corte dos Estados Unidos tem afirmado consistentemente o direito constitucional à liberdade de expressão e os direitos de reunião e associação pacíficas, inclusive por nazistas declarados, cujo ódio e xenofobia são amplamente desprezados pelo povo americano. Ao mesmo tempo, defendemos firmemente os direitos constitucionais daqueles que exercem seus direitos de combater a intolerância e expressam forte oposição ao odioso credo nazista e outros que defendem ódios semelhantes. (3)

Como defendido pelos “monarkicos” liberais brasileiros, (4) a liberdade de expressão nos EUA permite a manifestação irrestrita de opinião até mesmo de supremacistas brancos, grupos racistas e outras orientações ideológicas de mesmo nicho. Podemos notar pelo seu posicionamento internacional e corresponde, juridicamente, à primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos. Essa concepção se torna um tanto quanto preocupante ao analisarmos o cenário mundial e as movimentações dos grupos supremacistas protegidos por essa noção de “liberdade” que marejam os olhos dos liberais e ancaps pelo mundo. Afinal, nenhum discurso sobre liberdade é descolado de movimentações no campo das disputas reais e possuem efetivações práticas nesse solo, destacadamente, nas relações geopolíticas.

Aprofundando sobre a “liberdade” americana, em 2015 o congresso americano retirou as restrições orçamentárias referentes ao financiamento de grupos neonazistas, preocupando inclusive alguns setores da política norte-americana. Soma-se a isso que alguns integrantes do B-Azov fazem elogios às contribuições norte-americanas para a especialização do agrupamento neonazista. Em entrevista a Will Cathcart e Joseph Epstein, um membro recorda “a experiência de seu batalhão com treinadores e voluntários americanos com muito carinho, mencionando até mesmo engenheiros e médicos voluntários americanos que ainda estão atualmente os auxiliando”. (5)


O batalhão de Azov; a livre expressão dos neonazi ucranianos.

O “Batalhão de Azov” se trata de uma milícia supremacista branca com orientações nazistas. Tal milícia teve participação direta no golpe que ocorreu na Ucrânia em 2014, bem como no massacre (Odessa) apontado no tópico anterior. (6) Além disso, estão a frente de diversos casos de violência extrema relatados em solo Ucraniano, como também de uma atuação bárbara no que tange a manutenção dos constantes ataques que ocorreram contra a população de Lugansk e Donetsk.

O Batalhão de Azov tem suas origens na aglutinação de forças anti-Rússia que aconteceu em 2014, sendo posteriormente introduzido às forças armadas ucranianas que se organizaram para combater os separatistas pró-Rússia no leste do país e para dar respaldo militar ao novo governo que possui relações estreitas com OTAN. O B-Azov é composto basicamente pelos membros da “Assembleia Nacional-Social” e pelos “Patriotas da Ucrânia", dois grupos de supremacistas brancos ucranianos. (7)

Hoje o B-Azov conta com mais de mil soldados e já teve até mesmo condecoração oficial de honra, dada pelo Estado Ucraniano, para um dos primeiros coronéis do batalhão, o nacionalista ucraniano Bietsky que, em 2015, foi convidado pelo parlamentar Jaromir Stetina a fazer discurso no parlamento, sem nenhum tipo de constrangimento legal. (8) Posteriormente Biletsky chegou a exercer mandato como deputado, mostrando claramente – no mínimo – a legitimidade que tal batalhão tem para o Estado Ucraniano. Soma-se a isso que o espaço político-militar dos supremacistas dado pelo governo ucraniano é tanto que o B-Azov foi incorporado à guarda nacional ucraniana (9) e sua atuação indica ser mais articulada do que parece, se estendendo para outras nações.

Alguns episódios internacionais dão conta de que B-Azov fez recrutamentos em solo estrangeiro, gerando indisposição entre Ucrânia e Croácia. Cerca de 20 croatas, segundo algumas informações, foram integrados ao B-Azov. A ministra croata Vesna Pusić (Relações Internacionais) confirmou que existiam voluntários na Ucrânia, levando o governo russo a chamar a Croácia para dar explicações e retirar seus cidadãos do conflito. Dada a pressão russa, finalmente a Croácia se opôs a qualquer participação de cidadãos croatas no conflito e em resposta, o governo ucraniano alegou que os croatas recrutados estavam do lado "legítimo" da luta. (10) Tais episódios, porém, não se restringem à Europa.


Azov em Hong-Kong; a livre expansão neonazi.

A China é a principal oposição aos EUA dentro das relações do capitalismo, no cenário econômico global. Interessante que nos processos políticos de Hong-Kong (2019-2020), ainda com Trump na presidência, os EUA manifestaram irrestrito apoio aos manifestantes pró “liberdade de expressão”, “democracia” e afins, que se colocavam contra o governo chines. Biden deu sequência ao apoio, como era de se esperar (11), mas rostos europeus no meio desses românticos jovens idealistas destoavam dos rostos em sua maioria asiática.

Para a surpresa (será?) dos jovens liberais anti-China dos protestos de Hong-Kong, alguns rapazes estrangeiros se solidarizaram com a causa e buscaram se inserir nas movimentações. Muitas lideranças estranharam aqueles rapazes europeus, tatuados com símbolos nórdicos e vestidos com o uniforme hooligan do “Honor”, grupo hooligan de extrema direita (12). Fato é que se tratavam de nomes que compuseram as fileiras do B-Azov em diversos momentos. Tal fato chegou a ser repudiado por uma página oficial de uma das lideranças dos movimentos (13), mas é interessante notar que tal aproximação não parece ter se dado de maneira aleatória.

Logo o fato ganhou repercussão perante alguns canais e olhos mais atentos de indivíduos que acompanhavam e/ou estavam inseridos na conjuntura dos protestos, (14) se descobrindo que os ucranianos estavam em solo estrangeiro num processo de giro político possivelmente articulado por uma organização ucraniana. A página da organização, intitulada de “Free Hong Kong Center”, sediada na Ucrânia, logo saiu em defesa dos jovens, alegando que eles se desvincularam do B-Azov e de que queriam participar dos protestos para “ver de perto a verdade do que acontecia”, chamando-os de “simples ativistas jovens” (15). Numa pesquisa rápida nota-se que a página faz sucessivos posts, sendo o último datado de 8 de junho de 2020, traçando nexos entre a conjuntura de Hong Kong e os processos anti-Rússia que ocorreram na Ucrânia.

Se os manifestantes e suas lideranças, inspirados em sonhos americanos de liberdade, sabiam de tal inserção, não fica evidente. Mas fato é que os membros do B-Azov presentes nos protestos, que manifestavam afinidade com a política norte americana como os manifestantes de Hong Kong, viam com bons olhos o movimento e estavam dispostos a “aprender” com os manifestantes que buscavam enfraquecer o rival do governo estadunidense; a China.(16)


Nazistas verde e amarelo; os neonazi botam ovos no Brasil.

Nos últimos anos, de acordo com Adriana Dias, pesquisadora da UNICAMP, em fala para uma reportagem para a Revista Época em outubro de 2021, indicou que segundo seus dados advindos de um acompanhamento permanente, tivemos desde de 2019 no Brasil um crescimento de 56% de células nazistas. Ainda na reportagem o fundador da SaferNet, associação privada que aglutina especialistas de diversas áreas, sob o pretexto de defender os direitos humanos de pessoas envolvidas em crimes virtuais e outras mazelas que encontramos no meio virtual, houve um crescimento significativo de denúncias referentes a conteúdos ligados ao nazifascismo. Se em 2019 foram recebidas 1.071 denúncias, esse número mais que quadruplicou em 2021, chegando ao total de 9.004 registros.(17)

Não estranhamente, tal crescimento é notificado num período pós eleição de Bolsonaro, candidato que ascendeu ao poder como resultado de um longo processo que teve seus marcos eleitorais em 2016 (golpe em Dilma) e em 2018 (eleição de Bolsonaro). Fato é que hoje existem vários indícios de que os EUA tinham fortes articulações com as esferas judiciais brasileiras (18) que, ao impulsionar as articulações palacianas do golpe, desencadearam o crescimento de grupos nacionalistas de extrema direita.

Ainda em 2016 a Polícia Federal desarticulou um grupo de estrangeiros que visava recrutar jovens para o conflito na região leste da Ucrânia. O curioso desta prisão é que ela indicou não somente uma tentativa isolada, mas sim indícios de uma atuação muito bem articulada e que visava o crescimento de uma rede de núcleos no estado do Rio Grande do Sul. Segundo a imprensa geral, tal grupo já existia há mais de 10 anos, mas naquela época começou um processo de articulação com o B-Azov para fortalecer as forças paramilitares que atuavam na Ucrânia (19). Esses casos não se restringem somente ao Rio Grande do Sul e poderíamos citar vários como este, incluindo os mais conhecidos em que lideranças da direita bolsonarista gritavam aos quatros ventos que iam “Ucranizar o Brasil”. Mas vamos aos números.

A mesma pesquisadora Adriana Dias, mas agora em entrevista para o Fantástico, aponta que as células nazistas tiveram um crescimento de 270% de janeiro de 2019 a janeiro a maio de 2021. Tais células se concentram em maior parte na região Sul do país, mas chegam a estar presentes nas cinco regiões do Brasil. Além disso, um levantamento em 2021 apurou que o número de denúncias aumentaram consideravelmente, saltando de no máximo 20 até 2018, para 69 investigações do crime de apologia em 2019. Em 2020 a média saltou para um inquérito a cada 3 dias, sendo que 110 casos já vinham sendo investigados. (20)

Notadamente o crescimento chama mais a atenção que a quantidade, mas, ao contrário dos que desdenham de um movimento pela quantidade de adeptos, podemos interpretar que estes não mais se constituem simplesmente como uma força que figura nos quadros de um antiquário. É preciso pensar que, mais do que se somarem às vozes do conservadorismo que cresce com o nacionalismo, tais posições estão presentes no cotidiano da classe trabalhadora e, de alguma maneira, ainda imprecisa, tem relativa atuação na disputa ideológica e nos entraves para um fortalecimento dos comunistas no Brasil e no mundo.


Notas:

1. "Dois anos do massacre de Odessa: Ucrânia submersa pelas trevas": https://vermelho.org.br/2016/04/29/dois-anos-do-massacre-de-odessa-ucrania-submersa-pelas-trevas/

2. “Somente EUA e Ucrânia votaram contra resolução da ONU de combate ao nazismo”: https://revistaforum.com.br/global/2022/2/25/somente-eua-ucrnia-votaram-contra-resoluo-da-onu-de-combate-ao-nazismo-110706.html

3. “Explicação da votação sobre uma resolução sobre a glorificação do nazismo”(em inglês): https://usun.usmission.gov/explanation-of-vote-on-a-resolution-on-the-glorification-of-nazism/

4. "Para que serve a liberdade de expressão - e quais os seus limites":https://www.mises.org.br/article/3214/para-que-serve-a-liberdade-de-expressao--e-quais-os-seus-limites

5. “Congresso removeu a proibição de financiar neonazistas de sua conta de gastos de fim de ano (em inglês)”:https://www.thenation.com/article/archive/congress-has-removed-a-ban-on-funding-neo-nazis-from-its-year-end-spending-bill/

7. Patriotas da Ucrânia: https://stringfixer.com/pt/Patriot_of_Ukraine //Assembleia Nacional Social:https://hmn.wiki/pt/Social-National_Assembly

8. "O eurodeputado tcheco Jaromir Stetina, incluído na "lista negra" na Rússia, convidou o comandante do batalhão voluntário ucraniano Azov, Andrei Biletsky, a fazer um discurso no Parlamento Europeu.”:https://br.sputniknews.com/20150729/1702721.html

9. "Os neonazistas e a extrema direita estão em marcha na Ucrânia"(em inglês):https://www.thenation.com/article/archive/neo-nazis-far-right-ukraine/

10. "Pusic confirma: 'Há croatas lutando no exército ucraniano'" (em croata):https://www.rtl.hr/vijesti-hr/novosti/1509453/pusic-potvrdila-ima-hrvata-koji-se-bore-u-ukrajinskoj-vojsci/

12. Hooligans de extrema direita da Ucrânia nos protestos de Hong Kong"(em inglês):https://medium.com/dfrlab/far-right-hooligans-from-ukraine-at-the-hong-kong-protests-baab52023580

16. "O que fascistas ucranianos estão fazendo nos protestos de Hong Kong?":https://www.vice.com/pt/article/zmjjey/o-que-fascistas-ucranianos-estao-fazendo-nos-protestos-de-hong-kong

17. Reportagem completa: https://outline.com/U6stGN

18. "’República de Curitiba’ pode responder por crime de traição à pátria":https://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/12/republica-curitiba-crime-traicao-patria.html

19. "Polícia do RS desarticula grupo neonazista que atuaria em guerra civil no leste europeu":https://www.youtube.com/watch?v=J15Ssa-YI8w

20. "Há uma onda neonazista no Brasil? Entenda o que dizem os números e especialistas no tema": https://www.brasildefato.com.br/2022/01/27/ha-uma-onda-neonazista-no-brasil-entenda-o-que-dizem-os-numeros-e-especialistas-no-tema





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