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Do gerenciamento da crise à implantação da catástrofe: o colapso climático de nossa era e as “saídas” do reformismo


Imagem: Reuters/Amanda Perobelli


De novo. Mais um desastre ambiental; mais uma tragédia anunciada, desta vez no Rio Grande do Sul. Mais uma vez viemos abordar o tema do colapso climático, que, no andar da caminhada, parece apontar para uma maior recorrência. Mais uma vez a mãe natureza é apontada como uma figura mística, incontrolável, que se volta contra a humanidade como uma figura revoltosa diante da forma como é tratada, mas conforme a recorrência das crises climáticas aumenta, mais difícil é sustentar uma narrativa de acaso, ou de má sorte, ou de qualquer sorte de argumento que exime a forma como o modo de produção capitalista guia a humanidade, em escala global, à sua própria destruição. Já vivemos o colapso, incontornável; o aquecimento global não mais é discurso científico que anuncia a iminência da convulsão climática, mas uma realidade que alcança, hoje, o cotidiano das pessoas.


Ora, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram 478 dos 497 municípios do estado, ao menos até o momento. Mais de 2,3 milhões de pessoas sofrem as consequências da tragédia climática, com 420 mil desalojadas, além das 173 mortes e 38 pessoas desaparecidas, tornando-se um fenômeno sem precedentes na história do país. Não é mais possível negar a verdade inconveniente; em razão dos moldes como estruturamos nossa sociedade, incompatível com um planejamento a longo prazo, próprio da anarquia produtiva, as denúncias dos riscos climáticos ligados ao aquecimento global se concretizam, uma a uma – e se não é possível falar de um retorno aos padrões registrados no início do século XX, sequer se percebe uma freio no avanço do aumento da temperatura média global, que afeta severamente as dinâmicas climáticas terrestre, como o El Niño, que teve papel no aumento das chuvas no sul do país. Se por um lado, os eventos climáticos assumem contornos violentos, trazendo ao Rio Grande do Sul um índice de chuva que ultrapassou, em três dias, a média esperada para todo o mês, por outro, houve uma total negligência do Estado na manutenção de mecanismos de controle de enchentes. Ao mesmo tempo que se nega a realidade de colapso climático mundial, nega-se também, como consequência necessária, a demanda de criar estruturas para lidar com ele. O que se percebeu foi que o orçamento para combater desastres naturais no estado foi muito aquém daquele a ser destinado devidamente. Dos R$ 117 milhões anunciados, nem 10% foi devidamente destinado de fato, tendo sido gastos apenas R$ 640 mil. Esse é o gerenciamento da crise próprio do Estado que, ao assumir o papel mediador do processo de produção ampliada do capital, especialmente num momento de crise econômica e dificuldade de retomada das taxas de lucro, negligencia as necessidades da própria sociedade em defesa de um plano de austeridade que, no Rio Grande do Sul, refletiu na negligência quanto à demanda de manutenção dos diques que controlavam as cheias dos Guaíba. 


Perceba-se que há, aqui, dois aspectos a serem apontados: 1) a iminência do colapso climático em escala mundial que, com mais frequência e intensidade, violenta diversas comunidades ao redor do planeta, sendo o Rio Grande do Sul o exemplo mais próximo de nosso cotidiano; e 2) o papel do Estado enquanto garantidor do pleno funcionamento das leis do capital, mesmo que se voltem contra as próprias necessidades mais basilares da sociedade, assumindo a tarefa de gerenciar, e não solucionar, as crises sociais. Se as necessidades de produção ampliada do capital de mais curto prazo se sobrepõem às necessidades sociais de longo prazo, o que motiva a negligência em relação ao controle de crises, a conjuntura demonstrou que tanto as necessidades de retomada da taxa de lucro quanto a emergência climática são necessidades de curto prazo, diante da iminência do colapso ambiental. Todavia, o Estado prioriza a tentativa de retomada da taxa de lucro em detrimento da vida social, reforçando a emergência climática, ao invés de combatê-la. 


escrevemos aqui sobre como a ideologia do capital abraça um discurso falso de incontrolabilidade da natureza como forma de abdicar de se pensar na possibilidade – e necessidade – de construção de uma forma de produção social que seja capaz de antever crises e atuar em sua prevenção. Falso, mas um falso socialmente necessário. A ideologia opera mistificando, invertendo e ocultando as determinações da realidade social. Nesse caso, o desastre ambiental enquanto expressão de um sociometabolismo do capital que na sua incontrolabilidade faz com que o planeta terra seja dilapidado a ritmo voraz – ainda que cientistas bem intencionados advirtam as catastróficas consequências desse tipo de relação com a natureza – é visto a partir de duas costumeiras e encobridoras posições: A primeira posição, costumeira entre ambientalistas reformistas, atribuem o desastre climático à consciência dos indivíduos, que por ganância, ou por outro atributo moral, não se dão conta, ou ignoram voluntariamente os sinais e continuam em uma relação de devastação sem limites dos recursos naturais. Partindo dessa primeira posição, seria necessário conscientizar os indivíduos e, simultaneamente, remediar os estragos já feitos pela ação humana, normalmente pensada em abstrato, com medidas específicas para ecossistemas ou regiões específicas, enquanto o trabalho de conscientização não termina de ser feito. Resultando assim em uma postura consciencionista diante dos problemas ambientais.


A segunda posição, que está no polo oposto da primeira mas é igualmente ideológica, assume a impossibilidade de reverter a catástrofe climática geral que se encontra a relação do ser humano com a natureza, restando apenas a resignação ao fim do mundo, no sentido de fim da humanidade ou da civilização, sendo o único refúgio possível, aquele da satisfação individual, puramente pessoal, “enquanto o mundo não acaba”. Essa é, portanto, uma posição catastrofista.


Ambas as posições são ideológicas porque elas ocultam: 

1) Os nexos reais e necessários entre a degradação ambiental e a acumulação de capital, sendo somente possível interromper o primeiro rompendo com o segundo, o que explica a inocuidade a médio-longo prazo de ações isoladas, pontuais e específicas.

2) A possibilidade ainda posta de modificarmos o futuro tendencial de destruição das bases ambientais que permitiram a vida humana na terra tal como a conhecemos, e trocarmos a distopia real, provavelmente mais brutal e desumana que qualquer ficção distópica, por um futuro de comunismo real, onde a relação do ser humano com a natureza seja mediada por outras necessidades – as necessidades autenticamente humanas – que não a necessidade do Capital de se auto reproduzir.


Consciencionismo e catastrofismo são dois lados de uma mesma moeda: São dois polos que qualquer grupo político reformista oscila[1], seja o grupo autointitulado de esquerda ou de direita, diante do impasse que a catástrofe climática nos coloca: Ou mudamos radicalmente nossa forma de organização social, rompendo com a forma social capitalista e organizando a produção para a satisfação das necessidades humanas, ou impossibilitaremos a existência da vida humana na terra. Por isso, discutir desastres como o ocorrido no Rio Grande do Sul  é discutir, ao fim e ao cabo, os impactos sociais da dinâmica produtiva e destrutiva capitalista, e o papel social do Estado que, como um capitalista coletivo, assume o papel de garantir a acumulação de capital contra qualquer crise. E daí dá-lhe o Plano Marshall brasileiro, que enriquecerá os bolsos de uma parcela da burguesia às custas dos milhares de gaúchos desabrigados e dos milhões de afetados, mostrando como o Capital não cessa seu processo de acumulação nem mesmo diante de uma cidade debaixo d'água. Somente a classe trabalhadora organizada, em um processo que salte do momento em si da classe, rumo ao para si, pode evitar um futuro diferente ao fim da humanidade.

 

Notas:

[1] Sequer vamos citar as ideologias negacionistas aqui, pois consideramos que usar estas linhas para refutar ideologias que negam os fatos mais óbvios que confirmam a existência do colapso ambiental, é já entrar derrotado em uma batalha. Nossa preocupação maior é em relação aqueles que afirmativamente admitem a imanência do colapso, mas não conseguem ver seus nexos causais constitutivos com o modo de produção capitalista, e portanto, não enxergam a possibilidade objetiva de superação do estado de colapso atual através da superação do modo de produção capitalista.

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