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Entre passado e presente, a classe trabalhadora

Por Igor Dias Domingues de Souza


O presente texto sintetiza os aspectos teóricos e análises centrais do trabalho de pesquisa “A História é o Agora: o tempo presente e a classe trabalhadora entre Engels e Thompson”.


Greve operária no Brasil, 1917

1. HISTORIOGRAFIA E TEMPORALIDADE

1.1 Cientificidade Historiográfica

Hoje, dos departamentos aos menores grupos de estudantes de História, passando pelas revistas e pelos docentes de História na escola básica, se discute acerca do caráter científico da História e sua capacidade de apreender objetivamente a realidade. Por um lado se defende uma particularidade interpretativa textual que assemelha o trabalho de escrita da História com o da escrita literária, com a ressalva da necessidade textual das fontes, o que a caracterizaria, grosso modo, como apenas mais um gênero textual (JABLONKA, 2016); por outro, há concepções diversas acerca da formulação científica da disciplina que datam principalmente da segunda metade do século XIX com o advento do historicismo ou positivismo de Ranke (2010), mas que hão de se estender por toda a história da historiografia, tendo como expoentes no século XX a primeira geração dos Annales (BLOCH, 2001) e parcela da historiografia marxista britânica (HOBSBAWN, 2013).

Iniciamos, portanto, tomando lado nesta discussão. Para fins do presente trabalho, trataremos a disciplina da História como ciência por compreendê-la como tal, muito embora devamos deixar clara a nossa rejeição ao historicismo alemão como parâmetro teórico e epistemológico para a historiografia. Assim, lançaremos mão da compreensão da ciência histórica como a “história dos homens” tal qual nos demonstram Marx e Engels:


Conhecemos uma única ciência, a ciência da história. A história pode ser examinada de dois lados, dividida em história da natureza e história dos homens. Os dois lados não podem, no entanto, ser separados; enquanto existirem homens, história da natureza e história dos homens se condicionarão reciprocamente. A história da natureza, a assim chamada ciência natural, não nos diz respeito aqui; mas, quanto à história dos homens, será preciso examiná-la, pois quase toda a ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela. A ideologia, ela mesma, é apenas um dos lados dessa história. (ENGELS; MARX, 2007, p. 86-87)


Por certo, não podemos equiparar os métodos científicos da História a demais disciplinas como a Química e a Física, haja vista a particularidade de que nas chamadas ciências humanas (e sociais) “[...]não podemos nos servir de microscópio nem de reagentes químicos. A força da abstração [Abstraktionscraft] deve substituir-se a ambos.” (MARX, 2017, p. 77-78)

Coloca-se para nós um dilema, no entanto. A temporalidade tem sua forma ideológica (ENGELS; MARX, 2007, p. 87) consumada na memória, de modo que, à medida que se aproxima do historiador o espaço de experiência onde se circunscreve seu objeto de estudo, mais presente se faz a memória, impondo conflitos à operação histórica. Como aponta Delacroix, esse problema ocorre justamente no “grau de autonomia da história em relação à memória” (DELACROIX, 2018a, p. 24), o que, consequentemente, coloca em questão o estatuto de ciência da História, levando em consideração ser a memória a contraparte viva do tempo e que, portanto, compõe o espaço de experiência analisado (DELACROIX, 2018b, p. 24).

O choque entre memória e História somente pode ocorrer no tempo presente ou no passado próximo. Desse modo, apresenta-se, sobremaneira, sob a forma do testemunho e do relato. Há, porém, que identificar outro elemento que compõe a análise no processo de aproximação do espaço de experiência em adição ao relato: a observação mesma do historiador. Dessa maneira, devemos pousar brevemente nossos olhos sobre a Antiguidade.


Se mergulharmos nos momentos de emergência da disciplina histórica, na Antiguidade, constatamos que esta abordagem já tem o peso de uma longa tradição. Assim, segundo Tucídides, que ouvia o relato das guerras do Peloponeso, não há outra história que a do tempo presente e é em seu nome e suas exigências que ele critica com veemência Heródoto, chamado de logógrafo e de mitólogo. O contrato de verdade, próprio ao discurso do historiador, pressupõe, segundo Tucídides, a testemunha ocular. (DOSSE, 2012, p. 7)


É necessário ressaltar, por outro lado, que o paradigma da História se altera a partir do século XVIII (KOSELLECK, 2006) e a própria História como ciência parcelar surge apenas no decorrer do século XIX, no processo de fragmentação que acometeu tanto a “história da natureza” quanto a “história dos homens” (ENGELS; MARX, 2007, p. 86), de modo que:

Quando a história se profissionalizou no século XIX com a escola metódica, os historiadores privilegiaram, ao contrário, as fontes escritas e insistiram na necessidade de uma objetivação que passou pelo estabelecimento de uma ruptura entre o passado e o presente. As fontes documentais disponíveis nos arquivos foram produzidas há mais de cinquenta anos, em função dos prazos de guarda da documentação permanente. Isso resulta em uma desqualificação da história imediata. (DOSSE, 2012, p. 8)


Devemos ressaltar que este paradigma, embora venha cada vez mais desaparecendo dos trabalhos desenvolvidos, ainda sustenta-se no meio profissional:

Em 1992, em um simpósio realizado em Paris, organizado pela IHTP com o tema “Escrever a história do tempo presente” (IHTP, 1993), René Rémond afirmava: “a batalha está ganha”. Mas se tratava ainda de uma afirmação de caráter performativo, pois a prática ainda permanece suspeita e ilegítima; ainda não considerada científica; confinada como um domínio separado, muito marcada por uma relação incestuosa com o jornalismo. (DOSSE, 2012, p. 6)


Portanto, uma vez que nos cabe no presente trabalho desenvolver acerca do tempo presente, devemos primeiro compreender o fazer historiográfico sob as rédeas do tempo, ou seja, aquele que, dotado de visão retrospectiva, relaciona-se com a temporalidade de forma passiva, para em seguida analisarmos a operação historiográfica circunstrita no seu próprio tempo, seja esta a História do Tempo Presente (HTP).


1.2 A História do Tempo

A concepção de História como disciplina responsável pelo estudo exclusivo do passado é, como demonstra Ferreira, mais contemporânea do que se afirma e nasce de um embate político entre a III República francesa e os eruditos e arquivistas hostis ao regime (FERREIRA, 2000, p. 112-113). Assim:

De 1870 à 1914 ocorreu uma brutal institucionalização da universidade literária e científica, o que ilustrava a vontade dos governantes republicanos de reforçar o controle do Estado sobre o ensino superior, num momento em que os projetos universitários católicos se multiplicavam. (FERREIRA, 2000, p. 112)


De modo a restringir a atividade política destes intelectuais, a institucionalização da História ocorreu, a nível aparente, no sentido de solucionar a heterogeneidade normativa para a prática científica por meio da criação de um tronco comum formativo para a pesquisa histórica, o que, até 1880, podemos afirmar, inexistia para o ofício (FERREIRA, 2000, p. 112). Esse movimento permitiu uma autonomia para a disciplina, no entanto, a nova geração de historiadores foi acometida pela necessidade de afirmar-se o campo em sua particularidade num processo de desmembramento científico. Dessa maneira:

A afirmação da concepção da história como uma disciplina que possuía um método de estudo de textos que lhe era próprio, que tinha uma prática regular de decifrar documentos, implicou a concepção da objetividade como uma tomada de distância em relação aos problemas do presente. Assim, só o recuo no tempo poderia garantir uma distância crítica. Se se acreditava que a competência do historiador devia-se ao fato de que somente ele podia interpretar os traços materiais do passado, seu trabalho não podia começar verdadeiramente senão quando não mais existissem testemunhos vivos dos mundos estudados. Para que os traços pudessem ser interpretados, era necessário que tivessem sido arquivados. Desde que um evento era produzido ele pertencia a história, mas, para que se tornasse um elemento do conhecimento histórico erudito, era necessário esperar vários anos, para que os traços do passado pudessem ser arquivados e catalogados (Noiriel, 1998). (FERREIRA, 2000, p. 113)


Somente algumas decadas após a consolidação deste método acadêmico que a crítica historiográfica passa a questionar o caráter determinante do tempo para a conformação da História como campo científico. Embora não possamos negar que “os homens fazem a sua própria história; contudo não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhe foram transmitidas assim como se encontram” (MARX, 2011, p.25), a visão retrospectiva tal qual foi imposta neste período inicial de institucionalização, levado às suas últimas instâncias pelo historicismo, transformou a “história dos homens” na “história do tempo”, sob o qual o homem não se torna nem mesmo carcaça do tempo. Desse modo, basta evidenciarmos o problema da definição de passado, por meio do questionamento de suas fronteiras na divisa com o presente.

Acredita-se poder colocar à parte uma fase de pouca extensão no vasto escoamento do tempo. Relativamente pouco distante para nós, em seu ponto de partida, ela abarca, em seu desfecho, os próprios dias em que vivemos. Nela, nada nem as características mais marcantes do estado social ou político, nem o aparato material, nem a tonalidade genérica da civilização, nela nada apresenta, ao que parece, diferenças profundas com o mundo onde temos nossos hábitos. Ela parece, em suma, afetada, em relação a nós, por um coeficiente muito forte de “contemporaneidade”. Daí a honra ou a tara de não ser confundida com o restante do passado. “A partir de 1830, já não é mais história”, dizia-nos um de nossos professores de liceu que era [muito] velho quando eu era muito jovem: “é política”. Não diríamos mais hoje “a partir de 1830” – as Três Gloriosas, por sua vez envelheceram – nem “é política”. Antes, num tom respeitoso: “é sociologia”; ou, com menos consideração, “jornalismo”. Muitos porém repetiriam de bom grado: a partir de 1914 ou 1940, não é mais história. Sem, aliás, entenderem-se muito bem sobre os motivos desse ostracismo. (BLOCH, 2001, p. 61)


Devemos nos atentar, portanto, que esta epistemologia advém de um processo particularizante danoso à compreensão geral dos possíveis objetos de estudo. Na conformação particular das ciências sociais (considerando a História como tal) em seu caráter ideológico sob o domínio de classe burguês, a incapacidade de compreender não mais que alguns fenômenos individualizados é a lei que rege o esquartejamento de uma análise que é inexoravelmente complexa. Dessa maneira, são tanto engendradas quanto são sintomáticas do que Lukács (1968) compreende como decadência ideológica da burguesia. Portanto:

O fato de que as ciências sociais burguesas não consigam superar uma mesquinha especialização é uma verdade, mas as razões não são as apontadas. Não residem na vastidão da amplitude do saber humano, mas no modo e na direção de desenvolvimento das ciências sociais modernas. A decadência da ideologia burguesa operou nelas uma tão intensa modificação, que não se podem mais relacionar entre si, e o estudo de uma não serve mais para promover a compreensão da outra. A especialização mesquinha tornou-se o método das ciências sociais. Isto pode ser visto claramente através do exemplo de um sábio de nosso tempo, o qual, mesmo sendo um cientista escrupuloso, dispunha de um vasto e multiforme saber e, não obstante, jamais superou uma especialização estreita: refiro-me a Max Weber. Weber era economista, sociólogo, historiador, filósofo e político. Em todos estes campos, tinha à sua disposição profundos conhecimentos, muito superiores à média e, além disso, sentia-se à vontade em todos os campos da arte e de sua história. Não obstante, inexiste nele qualquer sombra de um verdadeiro universalismo. (LUKÁCS, 1968, p. 64)


Este universalismo de que Weber se encontrava ontologicamente despojado, não poderia ser senão o que nos interessa em criticar as limitações da História com relação ao tempo legitimado pela academia. Com a finalidade de apreender este alargamento do espaço de experiência, sob o pretexto de maior capacidade de aproximar a ciência parcelar do universal, devemos reservar-mo-nos à análise do Tempo Presente.


1.3 O Tempo da História

Ao tratarmos do tempo presente, nos deparamos com uma tradição recente já consolidada – cujo debate extenso devemos levar em conta para evitarmos confusões. Esta tradição tem origem com a fundação do Institut d’Histoire du Temps Présent, ligado ao Centre National de la Recherche Scientifique em 1978 (DELACROIX, 2018b, p. 5). No entanto, atenderemos às somadas divergências, que vão desde a nomenclatura quanto o método e os aportes teóricos, no sentido de não nos restringirmos ao cânone, adotando uma acepção ampliada acerca do que é a HTP. Portanto, ainda que façamos um breve interlúdio para apresentar o debate historiográfico, trataremos a temporalidade em nossos próprios termos.

Como nos demonstra Dosse: “A história do tempo presente está na intersecção do presente e da longa duração. Esta coloca o problema de se saber como o presente é construído no tempo.” (DOSSE, 2012, p.6). Esta simplificada definição acerca da HTP dá o tom de algumas fragmentações entre concepções historiográficas acerca do presente. Além da dita história do tempo presente, temos também a história imediata e a história do muito contemporâneo. Não vemos necessidade de expandir o debate em torno dessas concepções, principalmente porque entendemos tratarem do mesmo período temporal e porque nos inclinamos à posição de Antoine Prost de que a história do tempo presente é a História em si (DOSSE, 2012, p.6).

Apesar de tendermos à posição de que a HTP é História tanto como as demais, devemos observar que é um campo singular por ter a capacidade de dialogar com a memória e utilizar-se de relatos e testemunhos como fonte. Embates tais não são possíveis por meio da visão retrospectiva, posto que fundamentalmente estão mortos todos aqueles presentes nos processos analisados, e reduzem a capacidade de crítica à mesma, tornando-a por vezes intocável e inacessível – inclusive entre os pares.

De acordo com o historiador François Bédarida (em Ferreira, 2012, p.109) sua característica básica é a presença de testemunhos vivos, que podem vigiar e contestar o pesquisador, afirmando sua vantagem de ter estado presente no momento do desenrolar dos fatos. O desdobramento desse argumento é que a história do tempo presente possui balizas móveis, que se deslocam conforme o desaparecimento progressivo de testemunhas. Assim, que cronologia, que evento-chave, reconhecido, deve ser adotado como marco inicial da história do tempo presente? Para alguns, trata-se do período que remonta a uma última grande ruptura; para outros, trata-se da época em que vivemos e de que temos lembranças ou da época cujas testemunhas são vivas e podem supervisionar o historiador e colocá-lo em xeque (Voldman, 1993). Ou ainda, como afirma Hobsbawm (1993; 1998), o tempo presente é o período durante o qual se produzem eventos que pressionam o historiador a revisar a significação que ele dá ao passado, a rever as perspectivas, a redefinir as periodizações, isto é, olhar, em função do resultado de hoje, para um passado que somente sob essa luz adquire significação. Outra questão que mereceu destaque foi a noção de ‘tempo presente’ e suas relações com os contemporâneos, os testemunhos, os atores, a demanda social e as outras disciplinas. Desse debate, uma questão relevante que emergiu foi a afirmação de que o ‘tempo presente’ constitui um campo científico singular, pela sua própria definição. (DELGADO; FERREIRA, 2013, p. 22-23)


A HTP, no sentido de sua delimitação temporal, é história como qualquer outra. No entanto, ao desenvolver estudos que lidam com processos cuja conclusão ainda não ocorreu, seja na realidade primeira do mundo concreto, seja na memória coletiva, associa-se à idéia de um conhecimento provisório, que está sujeito a sucessivas alterações e reconstruções à medida que surgem novos elementos e que se distancia temporalmente dos processos. Isso implica afirmar que o próprio tempo dita o fazer histórico no presente de modo distinto à operação de longa duração temporal, portanto, tem suas características definidoras advindas da matriz nuclear da dimensão presencial do tempo (DELGADO; FERREIRA, 2013, p. 24). As relações do historiador com o objeto no próprio momento se estabelece como o tempo de fazer a História. Assim:

Outra singularidade do tempo presente é a valorização do evento, da contingência e da aceleração da história. O trabalho do historiador enfrenta também aí dificuldades, porque ele mesmo é também testemunha e ator de seu tempo e, muitas vezes, está envolvido nesse movimento de aceleração que o faz supervalorizar os eventos do tempo presente, especialmente porque os séculos XX e XXI têm sido mais ricos em grandes mudanças do que nos fenômenos de longa duração que necessitam de maior recuo. (DELGADO; FERREIRA, 2013, p. 23)


A dificuldade de delimitação temporal, muitas vezes definida pelos historiadores do IHTP como balizada pelo último marco socialmente traumático e, portanto, por uma ingerência da memória sobre a História (mais especificamente da memória traumática), é um problema sobre o qual devemos estabelecer consensos – mais imediatamente para o presente trabalho, mas, em caráter igualmente urgente, para todo o campo de estudo. Compreendemos que a memória traumática é uma baliza demasiado móvel para nos coordenar em nossos trabalhos, porque suscita problemáticas irresolúveis no sentido de poderem, à medida que se desvelam os tempos, ocorrer em distâncias temporais variáveis e sobreporem-se umas às outras, em locais distintos, que nos levam, portanto a priorizar uma sobre as demais como parâmetro temporal. Ainda que seja possível em determinadas condições sócio-históricas, as variáveis apontam esta saída epistemológica como demasiadamente complexa e igualmente inefetiva. Há também o ponto de sujeição da História à memória que se encontra imediatamente abaixo da superfície desta concepção metodológica. Compreendendo a História como ciência, deixá-la nas mãos de algo subjetivo e volátil como a memória nos parece uma opção suicida.

É por tais motivos que optamos por determinar as “balizas móveis” ((DELGADO; FERREIRA, 2013, p. 22) pela possibilidade mesma de recolher testemunhos como fonte – muito embora não sejam obrigatórios para o procedimento – ou de presenciar o período histórico sobre o qual se debruça, ou seja, desde que hajam sujeitos vivos capazes de rememorar, estamos sob o regime do tempo presente. Esta solução pode parecer demasiado simples, mas é suficiente para que possa haver verificabilidade da fonte oral (portanto, do indivíduo do qual se extraiu o relato) e submeter esta produção científica em constante alteração à apreciação de um público capaz de contestá-la o conferir a ela ainda maior legitimidade.

Embora ainda não seja completamente assimilada pela comunidade de historiadores e seja mesmo desprezada e desqualificada junto com a utilização de fontes singulares como os testemunhos diretos – em parte pelas limitações erigidas pela criação das ciências parcelares (DELGADO; FERREIRA, 2013, p. 21), em parte por não necessitar fundamentalmente de farta erudição cultural ou epistêmica (FERREIRA, 2000, p. 114) - , a HTP possibilitou uma série de inovações teórico-metodológicos à História como ciência parcelar. A crítica da fonte, que a torna capaz de ser utilizada, independente de seu suporte ou de sua temporalidade, é um fundamento metodológico que serve para a antiguidade do mesmo modo que para a atualidade, de modo que a erudição torna-se problema para a compreensão somente à medida em que o objeto torna-se incompreensível sem a mesma. Apreende-se assim, que, mesmo sob a constante vigilância da memória e do conjunto dos historiadores:

A história se reescreve permanentemente, mas não aleatoriamente. A operação histórica envolve a “combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita” (CERTEAU, 1982, p. 66), e oferece procedimentos de análise próprios capazes de propor uma elaboração específica do passado. O historiador pode ser um intérprete dos equívocos políticos do passado e dos mecanismos de construção das memórias, não se deixando levar pelos rótulos fáceis da banalização ou da sacralização da memória e, inclusive, questionando a função desse passado rememorado. O compromisso do historiador com o presente no exercício do seu ofício não deveria estar associado a uma militância em prol de uma memória social específica. Com os instrumentos da história, poder‐se‐ia propor uma mudança de perspectiva do dever de memória para o trabalho com a memória. O historiador não tem o monopólio sobre a memória, mas ele detém os instrumentos para lidar com a sua pluralidade e fragmentação. É certo que a análise sobre os fatos ocorridos, a identificação dos episódios e a reflexão sobre esse passado recente serão resultado de um esforço de escrita da história. Um trabalho sobre o terreno da memória, mas próprio à história. (FERREIRA, 2018, p. 100-101)


2 ENTRE PASSADO E PRESENTE, A CLASSE TRABALHADORA

Tendo estabelecido noções gerais acerca da História procederemos, então, à análise comparativa de dois estudos particulares sobre o mesmo objeto – o proletariado inglês do século XIX (e sua gestação no século XVI). Devemos mais uma vez justificar a escolha categórica das obras: a fim de que possamos estudar a temporalidade de maneira isolada, nos é necessário a capacidade singular que o corpo bibliográfico composto pela Situação da classe trabalhadora na Inglaterra (ENGELS, 2010) e A Formação da Classe Operária Inglesa (THOMPSON, 2020a; 2020b; 2012) nos possibilitam. Deste modo, contrapondo um trabalho contemporâneo e outro extemporâneo, portanto dotado de visão retrospectiva, na sua análise do objeto, resta-nos o tempo mesmo como síntese.


2.1 Engels e a situação da Classe em sua origem

Em sua obra A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, Engels, que havia sido enviado por seu pai a Manchester para administrar parte de suas indústrias, escreve para os alemães sobre uma nova classe produzida pela indústria. Este fator primeiro nos é caro para compreendermos duas questões essenciais da obra: Engels a escreve de modo a examinar como a indústria engendrou a miséria na Inglaterra buscando expor tal situação a uma Alemanha parcamente industrializada, que, portanto, poderia padecer do mesmo fenômeno; além disso, Engels escreve contemporaneamente ao desvelar dos fatos, de modo que nos serve, ainda que seja uma obra anterior à conformação acadêmica da História, como pleno exemplo de História do Tempo Presente.

O caráter testemunhal que a obra adquire não é negado em momento algum pelo autor, pelo contrário. Engels inicia sua obra por demarcar que não a escreve meramente por fontes terceiras, mas que é, ele mesmo, relator. Dessa maneira, faz questão de confundir-se com seu objeto de estudo no momento da pesquisa (da vivência ou do colhimento do relato), distanciando-se dele no momento de escrita e checagem de fatos:

Durante vinte e um meses, tive a oportunidade de conhecer de perto, por observações e relações pessoais, o proletariado inglês, suas aspirações, seus sofrimentos e suas alegrias - ao mesmo tempo em que completava minhas observações recorrendo as necessárias fontes originais. Tudo que vi, ouvi e li está reelaborado neste livro. (ENGELS, 2010, p. 41)


Embora possa se argumentar que o interesse do autor no objeto possa ser expresso por uma preocupação única com a miséria, esta se esvai na explicação mesma da motivação do estudo. Engels nos demonstra que, embora hajam na Inglaterra diversas associações filantrópicas burguesas e associadas ao Estado (estas por via das leis de assistência social), não há uma compreensão real da situação da classe trabalhadora, senão considerações ideológicas acerca da mesma (ENGELS, 2010, p. 42). Há portanto, uma preocupação com a análise científica da realidade, preocupada, porém com problemas engendrados pela própria realidade que visa dissecar. De modo a superar o caráter ideológico e parcelar dos estudos contemporâneos sobre a classe trabalhadora e compreender a mesma de forma global e científica, o autor, portanto, se preocupa na elaboração de uma metodologia autêntica que acompanhe a particularidade do objeto de estudo. Assim, define meios para contrapor sua experiência individual com fontes, submetendo sua própria observação à crítica, mas simultaneamente, criticando as fontes por meio de seu testemunho. Valendo-se, da mesma maneira, da compreensão de ausência de neutralidade nas fontes, Engels seleciona frente um mar de possibilidades, com quais realizará os debates na efetivação do estudo pela capacidade das mesmas de explicitarem e elucidarem o tema. Assim:

[...] na maior parte das citações, indiquei o partido a que pertencem os autores mencionados, porque quase sempre os liberais procuram sublinhar a miséria das áreas agrícolas e negar a das áreas industriais, ao passo que os conservadores, ao contrário, reconhecem a indigência nas zonas industriais, mas tratam de ignorá-la nas agrícolas. Por essa razão, quando me faltaram documentos oficiais acerca dos trabalhadores industriais, preferi sempre a opinião de um liberal, de modo a oferecer a própria palavra da burguesia liberal, e só recorri a conservadores ou cartistas quando minha observação pessoal assegurava a exatidão dos fatos ou quando a veracidade da afirmação vinha garantida pela personalidade moral ou intelectual do autor citado. (ENGELS, 2010, p. 43)


Tendo em vista a capacidade científica estabelecida pelo distanciamento epistemológico proporcionado por meio da utilização combinada de fontes diversas e pela crítica das mesmas, Engels estabelece, assim, o limite do espaço de experiência a de que se valerá na obra:

A história da classe operária na Inglaterra inicia-se na segunda metade do século passado, com a invenção da máquina a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão. Tais invenções, como se sabe, desencadearam uma revolução industrial que, simultaneamente, transformou a sociedade burguesa em seu conjunto - revolução cujo significado histórico só agora começa a ser reconhecido. (ENGELS, 2010, p. 45)


Embora estabeleça este espaço ampliado de quase um século, o autor compreende uma urgência em deter-se no estudo do proletariado e não de todos os processos históricos subjacentes que o circundam (ENGELS, 2010, p. 45). Assim, visa conferir maior objetividade ao trabalho, por estabelecer diálogo contínuo entre observação e fontes, garantindo a capacidade probante da argumentação. Não é possível, no entanto, que se faça essa análise, sem que se realize um prelúdio acerca da formação do sistema fabril inglês, que, segundo Engels, engendra a classe (ENGELS, 2010, p. 45-46), que ainda sob a organização do trabalho manufatureira expressava em germe as relações sociais que viriam a conformá-la. Assim, estabelece as condições gerais que implicam a emergência histórica do proletariado:

De fato, não eram verdadeiramente seres humanos: eram máquinas de trabalho a serviço dos poucos aristocratas que até então haviam dirigido a história; a revolução industrial apenas levou tudo isso às suas últimas consequências extremas, completando a transformação dos trabalhadores em puras e simples máquinas e arrancando-lhes das mãos os últimos restos de atividade autônoma - mas, precisamente por isso, incitando-os a pensar e a exigir uma condição humana. (ENGELS, 2010, p. 47)


A situação da classe, para Engels, se expressa nestas tais relações sociais de produção que extrapolam o ambiente de trabalho e se conformam historicamente. Desta feita, por exemplo, a saúde precária observada entre operários (sobretudo doenças pulmonares) advém, sobretudo da má condição habitacional causada pelo retorno mais imediato dos lucros na contrução e ocupação destas moradias pelos industriais que as financiavam e os empregavam simultaneamente (ENGELS, 2010, p. 138). Da mesma forma, as relações de trabalho e a exploração do trabalho incidem sobre a escolaridade e a religiosidade (aspecto fundamental da vida moral vitoriana) tanto pelo tempo necessário, quanto pela própria distinção sustentada no âmbito material à qual, por vezes, não havia correspondência ideária que apetecesse aos trabalhadores. Desse modo:

É claro que a instrução moral, em todas as escolas inglesas vinculada à educação religiosa, não pode ser mais eficiente que esta. [...] Todas as fontes admitem expressamente - sobretudo aquelas ouvidas pelo Children's Employment Comission - que as escolas praticamente não contribuem para a moralidade da classe operária. (ENGELS, 2010, p. 153)


Consequentemente:

As debilidades de sua educação preservam-no dos preconceitos religiosos - não os compreende e não se preocupa com eles e, assim, desconhece o fanatismo de que a burguesia é prisioneira; se professa alguma religião, fá-lo formalmente, sem qualquer base teórica; na prática, vive só para este mundo, no qual procura uma existência segura. (ENGELS, 2010, p. 163)


É notável, portanto, que se conformam, numa mesma realidade, dois mundos distintos: o mundo burguês e o mundo do trabalho. De tal modo que tornam-se as relações de produção, assim como no engendramento geral desta dicotomia, o meio pelo qual se expressam ambas as esferas sociais. Engels, no entanto, demonstra como esta classe trabalhadora britânica do século XIX, tem menos para si que não o trabalho. Em vista disso, os lucros garantidos pelo surgimento da indústria e constantemente potencializados pelo avanço tecnológico a pressionam para uma miséria crescente e, concomitantemente, a uma consciência geral própria – esta que extrapola a consciência individual, sendo senão uma expressão comum à maioria dos trabalhadores à época. Portanto, o autor nos explica:

Nas condições sociais vigentes, as consequências de todos os aperfeiçoamentos mecânicos são desfavoráveis aos operários, e o são em alto grau, qualquer máquina nova provoca desemprego, miséria e infortúnio e, num país como a Inglaterra onde já se encontra permanentemente uma "população excedente", a perda do trabalho é, na maioria dos casos, o que de pior pode acontecer a um operário. Ademais, é brutal o efeito esgotador e enervante que causa nos operários, cuja situação é sempre precária, a insegurança sobre sua condição, acarretada pelo incessante progresso mecânico e pela ameaça do desemprego. Para escapar ao desespero, o operário tem dois caminhos: a revolta interior e exterior contra a burguesia ou então o alcoolismo, a degradação. E os operários ingleses valem-se de ambos: a história do proletariado inglês inclui centenas de revoltas contra as máquinas e a burguesia, e inclui também a dissolução moral da qual já falamos. Esse é sem dúvida, um outro aspecto do desespero. (ENGELS, 2010, p. 178)


Conforme dito, o autor nos afirma que a vida do trabalhador médio tende a restringir-se ao trabalho. Isto ocorre sobremaneira pela extensão das jornadas de trabalho e a insalubridade do ambiente fabril, que além de ocuparem absoluta maioria do tempo, também, assim como a situação das moradia, determinam condições precárias de saúde, sobretudo, como demonstra, sobre as crianças:

A alta taxa de mortalidade que se verifica entre os filhos dos operários, especialmente dos operários fabris, é uma prova suficiente da insalubridade do ambiente em que transcorrem os primeiros anos de vida de sua vida. Esse ambiente influi sobre as crianças que sobrevivem, evidentemente com menor efeito que o exercido sobre suas vítimas fatais. Nos casos mais benignos, determina uma predisposição às doenças ou um atraso no desenvolvimento, donde um vigor físico inferior ao normal. O filho de um operário de fábrica, que cresce na miséria, entre privações e necessidades, exposto à umidade, ao frio, aos nove anos está muito menos apto ao trabalho que uma criança que se desenvolveu em condições mais sadias. Aos nove anos, vai para a fábrica, trabalhando diariamente seis hora e meia (antes, oito horas e, outrora, de doze a catorze e, às vezes, mesmo dezesseis) até a idade de treze anos; a partir de então, e até os dezoito anos, trabalhará doze horas por dia. Aos fatores de enfraquecimento físico junta-se, pois, o trabalho. [...] (ENGELS, 2010, p. 187-188)


A inserção do maquinário na produção teria o caráter de subverter para esta parcela da população, a organização social inglesa. Deste modo:

Em todas as partes se utilizam máquinas e, assim, destroem-se os últimos vestígios da autonomia do operário. Em todas as partes, a família desagrega-se por causa do trabalho feminino e infantil ou vê-se subvertida pelo desemprego do homem. Em todas as partes, o advento inelutável das máquinas subordina a indústria e, com ela, o operário ao grande capitalista. (ENGELS, 2010, p. 241)


Segundo Engels, a coexistência de estruturas tradicionais com o avanço da indústria tende à dissolução da primeira, não sem que, com isso, gere problemas neste embate. Anteriormente nos elucidou claramente sobre o papel da mulher sob as estruturas patriarcais por meio da não dissolução destas relações tradicionais ao passo que adentram a produção em um movimento engendrado pela própria indústria. No entanto, não é somente nessa relação que a industrialização opera uma destruição transformadora, no próprio âmbito do mundo do trabalho, dissolve as relações de tipo antigo e as modifica para melhor servir ao modo de produção capitalista, de tal modo que “[...] dissolvida a tradicional vinculação entre trabalho industrial e trabalho agrícola, os campos inexplorados foram concentrados em grandes propriedades e os pequenos camponeses foram deslocados pela concorrência esmagadora das grandes explorações agrícolas”. (ENGELS, 2010, p. 293. Nesse movimento, por outro lado, engendrando nova categoria da classe, seja esta o proletariado agrícola, realiza o movimento dialético de reintroduzir na dinâmica da produção relações que aparentemente haviam sido superadas:

No período imediatamente posterior ao nascimento do proletariado agrícola, desenvolveram-se nas regiões rurais aquelas relações patriarcais que no mesmo período foram destruídas no âmbito da indústria - relações entre camponeses e seus trabalhadores que ainda hoje subsistem em quase toda a Alemanha. (ENGELS, 2010, p. 294)


O surgimento do proletariado agrícola por meio da centralização das terras, porém, implica na formação de um exército de reserva, de forma que, tendo em vista o compromisso do burguês com o lucro, resulta em um malthusianismo prosaico, mas fundamentalmente trágico para os trabalhadores. Na ausência de regulação da exploração da força de trabalho e da posse de terras:

A "superpopulação", que se revelou bruscamente, não podia ser absorvida, como nos distritos industriais, pelo aumento da produção. Se era possível criar novas fábricas - desde que houvesse compradores para os produtos -, não era possível criar novas terras [...] Por consequência, a concorrência entre os trabalhadores foi levada ao extremo e o salário desceu ao seu limite mínimo. Enquanto esteve em vigor a velha lei dos pobres, os trabalhadores recebiam alguma ajuda - o que fez, naturalmente, com que os salários caíssem ainda mais, reduzidos pelos proprietários rurais, que trataram de transferir para a Caixa dos Pobres o grosso da manutenção dos trabalhadores. (ENGELS, 2010, p. 295)


A esta soma de fatores, não podemos deixar de lado a relação do proletariado e dos burgueses com as leis. Embora não seja este um aspecto central da formação da classe e do estudo de Engels, percebemo-no como um divisor de águas no sentido serem a legislação, sua ausência, seu cumprimento e descumprimento marcadores que delimitam historicamente o comportamento antagônico das classes, seja no enfrentamento, seja no condicionamento de suas próprias existências por meio das normas sociais consolidadas.

Engels manifesta, assim, como os trabalhadores alternam seu modus operandi frente ao tempo que se desvela diante de seus olhos. De tal modo, evidencia que tanto a classe como seu comportamento e consciência são frutos de uma relação social histórica:

Antigamente, tais questões eram resolvidas com a mediação de um árbitro, mas como na maior parte das vezes os operários eram despedidos quando apelavam para ele, o costume foi abandonado e hoje o industrial age arbitrariamente: é, ao mesmo tempo, acusador, testemunha, juiz, legislador e executor. E se o operário recorre ao juiz de paz, dizem-lhe: Ao aceitar a carta, você fez um contrato e deve honrá-lo - exatamente o mesmo argumento usado com os operários fabris. De resto, o fabricante sempre obriga o operário a assinar um documento no qual este declara "estar de acordo com os descontos efetuados"; se o operário resiste a esse procedimento, todos os fabricantes da cidade logo ficam sabendo, como diz Leach:

[que ele é um homem] que se revolta contra a ordem e a legalidade convalidadas nas cartas, que tem a imprudência de duvidar da sabedoria dos que, como ele deveria saber, são seus superiores na sociedade (Stubborn Facts..., p. 37-40) (ENGELS, 2010, p. 231)


Este caráter de corrosão das leis a mando do domínio burguês é de alta valia para a demarcação da classe operária. Enquanto são submetidos ao jugo do legislador, legisla em causa própria o patrão, num movimento que somente pode ser explicado pelo caráter igualmente burguês do Estado moderno – particularmente do Estado inglês – em que são proprietários dos meios de produção, das terras e também das instituições que a tudo normatizam. É desta feita que o autor nos escancara a contradição legal:

O burguês encontra-se a si mesmo na lei, como se encontra em seu próprio deus - por isso, ele a considera sagrada e, também por isso, a borduna policial, que no fundo é a sua borduna, exerce sobre ele um efeito tranquilizador de admirável eficácia. Para o operário, as coisas se apresentam completamente diversas. O operário sabe muitíssimo bem - porque aprendeu várias vezes, por experiência direta e própria - que a lei é um látego produzido pelo burguês; por isso, se não for obrigado, não a cumpre. (ENGELS, 2010, p. 261)


A consciência de que as leis não são campo próprio de luta do proletariado, anteriormente já exemplificada (ENGELS, 2010, p. 231) e agora evidenciada pela contraposição entre o valor destas para estes e para a burguesia, não demonstra, no entanto, um abandono completo da disputa política legal. Este é um dado fundamental para a situação da classe no que tange à sua organização política, pois, compreendendo o caráter ilegal – e muitas vezes secreto – das associações de trabalhadores desde a formação do operariado até a primeira metade do século XIX, a disputa legal permitiu que, por meio do compromisso político com representantes na câmara dos comuns, fosse aprovada uma lei que alteraria a capacidade de luta.

A lei em questão, aprovada em 1824, anulava todas as disposições precedentes que, até então, proibiam aos operários associar-se para a defesa de seus interesses. Os operários conquistaram assim um direito que, até esta data era um privilégio reservado à aristocracia e à burguesia: a liberdade de associação. (ENGELS, 2010, p. 249)


Desse modo, ainda que de forma limitada, a possibilidade de organizar setores inteiros e mobilizar greves estruturadas estava dada como uma realidade possível. Assim, culminamos novamente com a assumpção do testemunho do autor. É fundamental ressaltarmos esta nova aparição em reforço do relato próprio, posto que, nesse momento, Engels compromete-se também com um caráter social do trabalho, ou seja, assume um compromisso com a própria realidade que estuda. Seja ele um dever de memória ou dever de história como já discutido, é fundamentalmente um dever que parte da própria compreensão geral do movimento do real. Dessa feita, escreve:

É essa a situação da classe operária inglesa, tal como a verifiquei pessoalmente ao longo de 21 meses, com a ajuda de relatórios oficiais e de publicações dignas de confiança. E se considero - como expressei inúmeras vezes nas páginas precedentes - uma situação perfeitamente insustentável, devo dizer que não sou o único a julgá-lo assim. (ENGELS, 2010, p. 324)


2.2 Thompson e a origem da classe em particularização

Tendo analisado a obra de Engels, devemos nos deter agora na obra de Thompson. A Formação da Classe Operária na Inglaterra foi primeiro publicada no ano de 1963 e surge como polêmica contra a historiografia derivada do “marxismo estruturalista althusseriano” que se apresentava como moda intelectual entre os acadêmicos marxistas. Dessa maneira, somos inicialmente apresentados ao texto numa declaração aparentemente óbvia, mas com peso decisivo para o cenário intelectual no qual a obra está circunscrita:

Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. [...] algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. (THOMPSON, 2020a, p. 9)


Afirmando, portanto, o caráter histórico da realidade histórica e, consequentemente, das relações sociais, Thompson necessita prescrever como compreende as determinações materiais frente ao ideário na constituição do sujeito e, sobretudo, da classe. Esta posição, balizará toda a obra sobre a qual nos debruçamos e torna-se um pressuposto teórico imprescindível.

A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram - ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. Podemos ver uma lógica nas reações de grupos profissionais semelhantes que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma. (THOMPSON, 2020a, p. 9)


Havendo, assim, formulado os parâmetros mínimos de sua análise, o autor pode, então, demarcar o problema que se propõe responder com o trabalho:

Evidentemente, a questão é como o indivíduo veio a ocupar esse "papel social" e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Essas são questões históricas. Se detemos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas ideias e instituições. A classe é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história e, ao final, essa é sua única definição. (THOMPSON, 2020a, p. 12)


Estabelecido o conjunto metodológico que haveria de nortear sua obra, Thompson parte para a definição do marco inicial do estudo, mas sobretudo por meio de um questionamento ao cânone teórico. Optando por uma abordagem mais ligada às formas sociais de organização política e social da classe trabalhadora, não inicia sua escrita pela Revolução Industrial. Questiona:

É muito frequente, visto que toda narrativa tem de começar de algum ponto, que vejamos apenas as coisas novas. Começamos em 1789, e o jacobinismo inglês aparece como subproduto da Revolução Francesa. Ou começamos em 1819, com Peterloo, e o radicalismo inglês aparece como geração espontânea da Revolução Industrial. (THOMPSON, 2020a, p. 27)


Assim, toma de partida para sua análise não a ação dos indivíduos durante o próprio século XIX, mas ainda durante o século XVIII, por meio da organização pequeno-burguesa com adesão de elementos das classes trabalhadoras (THOMPSON, 2020a, p. 24) e da religião (THOMPSON, 2020a, p. 40). Utiliza-se destes parâmetros para demonstrar já existir neste momento uma oposição de classe conformada pela cultura, de tal modo que – mesmo não havendo plenamente se desenvolvido tanto burguesia quanto proletariado, devido à ausência da introdução do maquinário na produção – se conformavam organizações políticas e uma teologia, “do povo” em oposição às suas contrapartes para as elites. Desse modo, depreende também que este movimento da classe – que ainda se encontra em germe – em ambos os aspectos resulta em um saldo organizativo fundamental para o surgimento do movimento operário:

[...] o metodismo proporcionou não só as formas de reunião, coleta regular de subscrições em dinheiro e "cédulas", tantas vezes adotadas por organizações sindicais e radicais, como também uma experiência de organização centralizada eficiente - a nível tanto distrital como nacional - que faltara à Dissidência. (THOMPSON, 2020a, p. 53)


A crítica ao caráter diretamente causal estabelecido pela literatura, ilustrada por Thompson por meio de Engels (in THOMPSON, 2020b, p. 12) expressa-se como uma generalização à qual busca se contrapor o autor. Isto porque, como já demonstramos, para Thompson “Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe.” (THOMPSON, 2020a, p. 9). Elucida-nos portanto que “Independentemente das diferenças entre seus julgamentos de valor, observadores conservadores, radicais e socialistas sugeriram a mesma equação: energia do vapor e indústria algodoeira = nova classe operária.” (THOMPSON, 2020b, p. 12)

Se por um lado, o autor não defende a correspondência direta entre Revolução Industrial e formação da classe operária, por outro, apresenta-se um interessante movimento histórico seja de conformação da classe seja também de formação deste constructo abstrativo de compreensão causal. Portanto, ao apresentar a forma de desencadeamento dos processos de radicalização dos operários e formação do “movimento trabalhista”, Thompson desvela como a literatura abandona a Revolução Industrial como ponto de partida para tomá-la como meio.

Quase todo acontecimento radical na década de 1790 se reproduziu com força dez vezes maior após 1815. Um punhado de folhetos jacobinos deu origem a uma série de periódicos ultrarradicais e owenistas. [...] Enquanto as Sociedades de Correspondência mantiveram uma existência precária numa série de cidades, os clubes Hampden do pós-guerra ou as uniões políticas criaram raízes mesmo em pequenas vilas Industriais. Quando se recorda toda a agitação popular no decorrer da dramática evolução da indústria algodoeira, é natural assumir uma relação casual direta. A tecelagem é vista tanto como agente de uma Revolução industrial quanto também social, produzindo não apenas maior quantidade de mercadorias, mas o próprio "Movimento Trabalhista". A Revolução industrial, que começou como uma descrição, é agora invocada como uma explicação. (THOMPSON, 2020b, p. 13)


A cognição destas questões, no entanto, não implica uma recusa instantânea de formulações e compreensões já apontadas pela massa bibliográfica do tema. Se por um lado recusa parte fundamental para chegar a esta, temos que, alguns pontos centrais são mantidos, principalmente no que tange à política, como demonstra o autor na sua análise do sentido do movimento operário na interseção dos setores da classe com o processo de radicalização das lutas. Assim, nos aponta:

A história do período 1815-1840 corresponde, em parte, à narrativa da confluência das duas primeiras comunidades numa agitação política em comum (o radicalismo, a Reforma de 1832, o owenismo, a Campanha pelas dez horas e o cartismo), enquanto o último estágio do cartismo pode ser visto como a história da difícil convivência entre elas e da sua dissociação final (THOMPSON, 2020b, p. 211)


De modo análogo, o faz no concernente aos aspectos sociais degradados pela produção. A organização social familiar merece sua atenção nesse aspecto:

Em muitas Fábricas, os filhos dos fiandeiros ou dos outros empregados tinham prioridade para contratação. Quando não havia esta restrição, o tecelão via-se diante de uma nova humilhação: a dependência em relação à esposa ou aos filhos, que representava uma inversão dos papéis tradicionais. (THOMPSON. 2020b, p. 213)


No entanto, se compreende como os demais autores as limitações às quais estava submetida a classe durante seu processo de formação, o autor aprofunda no caráter político da classe. Por meio do estudo da condição de escolaridade com relação à capacidade de desenvolvimento político-organizativo é possível compreender o impacto da disseminação de informação radical por meio da oralidade para o desenvolvimento da consciência de classe que se fundou na mesma. Assim:

De forma nenhuma o analfabetismo (devemos lembrar) excluía os indivíduos do discurso político. [...] O trabalhador analfabeto podia andar quilômetros para ouvir um orador radical, da mesma forma como ele (ou um outro) andaria para escutar um sermão. Em períodos de fermentação política, os analfabetos pediriam aos companheiros de trabalho que lessem os periódicos em voz alta; lia-se o jornal nas pensões dos artífices, e nas reuniões políticas gastava-se um tempo imenso com a leitura de discursos e a aprovação de longas séries de resoluções. (THOMPSON, 2012, p. 415)


Na consolidação da consciência de classe, torna a pesar o trabalho infantil por via do lento avanço da alfabetização (THOMPSON, 2012, p. 416), mas não somente este demarcador é necessário para compreender a própria consciência que emanou da classe. Como o autor nos apresenta, mesmo entre os letrados pouco escreviam, mas podemos inferir que principalmente uma minoria ligada à imprensa radical (THOMPSON, 2012, p. 421-422). A leitura coletiva então como meio da consolidação desta consciência foi fundamental para os embates que foram sustentados por anos a fio, não só no século XIX, mas adiante, na história da inglaterra.

Dessa forma, tal como visava inicialmente compreender esta particularidade histórica da formação operária inglesa, Thompson conclui, ressaltando, ironicamente, o ponto de partida que compreende para a classe – a herança do jacobinismo – e a especificidade da própria obra. Então:

A classe também adquiriu uma ressonância singular na vida inglesa: tudo, das suas escolas às suas lojas, das suas capelas aos seus divertimentos, converteu-se num campo de batalha de classe. Essas marcas subsistem, mas nem sempre são entendidas por quem vem de fora. Se em nossa vida social pouco temos de égalité, a consciência de classe do trabalhador pouco tem de submissão. (THOMPSON, 2012, p. 600)



2.3 Preâmbulos e complementos de uma mesma realidade

Ao efetivarmos a análise destas duas obras da tradição marxista, podemos inicialmente afirmar a mesma enquanto similitude que nos possibilita a análise. Tanto para Engels quanto para Thompson, como fica evidente ao longo dos escritos, a classe não é senão uma compreensão histórica, tendo em vista que é de modo histórico que se conforma, não sendo, portanto, um conceito apriorístico. Devemos, porém, iniciar nosso diagnóstico sobre o tempo presente por meio da afirmação da incapacidade que temos no presente trabalho de levar a cabo uma pormenorização ponto a ponto das obras. Esta limitação se dá principalmente pelo recorte adotado neste estudo, o qual, frente à grandiosidade das obras, torna-se ínfimo e nos impulsiona a realizar esta análise de modo mais geral para captarmos, assim, as congruências e divergências capazes de nos elucidar sobre o problema da temporalidade.

Desta forma, devemos nos deter, para início desta análise comparativa, nas balizas temporais que demarcam cada obra. Podemos avaliar, com isso, que Engels, por não ter ciência do desfecho da situação histórica da classe trabalhadora tal qual analisou, senão a situação mesma que presenciou, também prescinde de uma análise de maior duração. Assim, determina-se o início do espaço de experiência em relativa proximidade ao seu objeto principal de estudo. Esse fenômeno de encurtamento do espaço de experiência não é, no entanto, determinado exclusivamente pela existência de testemunhas, porque, embora haja a memória viva e sujeitos históricos contemporâneos à análise (sendo o próprio engels contemporâneo), o processo pode ser contemporaneamente compreendido como mais alargado, mas ainda assim, não dispõe da mesma elasticidade do que caso seu distanciamento não fosse apenas epistemológico.

Thompson por outro lado, devido ao distanciamento temporal em relação ao objeto, está livre das amarras que impedem o conhecimento do início e do desfecho dos processos. Isto não significa afirmar, de modo algum, que a possibilidade de conhecimento desses marcos é diretamente proporcional em identificá-los corretamente. É necessário compreender que se há maior capacidade de ampliação da duração do tempo histórico como delimitação do estudo, há também um caráter fragmentário nas fontes que jamais poderá ser complementado pelo relato, testemunho ou observação e que, portanto, limita por outras vias a capacidade de apreender o processo em questão.

Evidencia-se a capacidade das obras de tratarem cientificamente maior ou menor quantidade de dados e informações em determinada duração temporal ainda no primeiro contato com os textos. Isto implica afirmar que o tamanho das obras é distinto e esta distinção é diretamente causada pela capacidade de destrinchar o objeto de estudo em maior duração. Portanto, não nos estranha observar as pouco menos de 400 páginas que formam A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (ENGELS, 2010) em comparação aos três tomos de cerca de mesmo tamanho médio que compõe A Formação da Classe Operária Inglesa (THOMPSON, 2020a; 2020b; 2012), sem que esta discrepância represente uma perda de qualidade de qualquer dos trabalhos.

De tal maneira, podemos compreender os tipos de fontes utilizadas pelos autores como forma de medir a capacidade historiográfica de comprovação da veracidade das afirmações. Notamos em Engels a já mencionada fonte ocular (seu próprio testemunho), bem como o relato, mas o autor utiliza-se, em maior escala, de relatórios oficiais (como os da vigilância sanitária, da câmara dos comuns e alguns processos em varas distintas), livros, principalmente ligados à burguesia liberal, e jornais – de diversas inclinações políticas, mas com destaque para o jornal cartista The Northern Star. Em geral, no que tange à tipologia das fontes, Thompson lançará mão, em sua obra, das mesmas fontes excetuando-se o testemunho e o relato (restritos pela distância temporal) – bem como da literatura, mas terá acesso a um tipo de fonte que no tempo de Engels estava restrita ao âmbito privado dos sujeitos históricos e que, portanto, seria de acesso improvável: as correspondências. Se o autor de A Formação da Classe Operária Inglesa não pode colher os relatos dos trabalhadores que estuda, pode ter acesso a reflexões e diálogos a que Engels não teve acesso, possibilitando uma dimensão própria ao seu estudo. Mas excetuando-se esta distinção, que é marca própria da relação do historiador com o tempo, em geral podemos ver os mesmos autores, os mesmos livros, mesmos jornais e mesmos documentos oficiais serem utilizados como fonte pelos autores. Devemos mais uma vez levantar, aqui, a questão do tamanho das obras; ao tomar maior espaço para efetivação da operação historiográfica, Thompson não está restrito às mesmas fontes de Engels, posto que, principalmente para períodos iniciais, possui um estudo mais robusto, utilizando assim maior número de fontes.

Frente a esta sobreposição dos aspectos das obras, nos resta concluir possuírem ambas a mesma capacidade de apreensão científica da realidade. Embora Engels não seja um historiador no sentido estrito do termo, ou seja, havendo escrito fora da academia e principalmente antes da consolidação da disciplina por meio da especialização das ciências no último quarto do século XIX, predispõe-se a analisar num paradigma de totalidade que antecipa o que viria a se afirmar como caráter da história do tempo presente, seja este a interdisciplinaridade (DOSSE, 2012, p. 14-15). Em muitos pontos as conclusões dos autores são exatamente as mesmas, ainda que tracem processos abstrativos distintos para depurar as fontes. Um bom exemplo nesse sentido é o da decomposição da unidade social tradicional da família pela inserção da mulher no mundo do trabalho. Isto ocorre devido ao compromisso epistemológico de distanciar-se do objeto o suficiente para poder vê-lo, mas sem perder de vista o compromisso com a verdade dos fatos – ainda que haja interesse na escolha do objeto. Da mesma maneira, podemos ver clara influência de Engels em Thompson não apenas como objeto a ser criticado, mas como fundador de uma tradição que, para o autor, não está ultrapassada, por vezes, inclusive, recorrendo de forma detida a caminhos particulares traçados por Engels em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra.

Assim, parece que Thompson nos confirma a obra de Engels como uma obra historiográfica ao passo que Engels nos confirma a cientificidade e validade da HTP. Esta portanto, possui seu caráter provisório, que pode ser notado nas notas de rodapé provenientes de edições posteriores à original, nas quais Engels demonstra a efetivação histórica ou não de diversas tendências e previsões apontadas. A História muda com o tempo e, portanto, cabe retornar a cada objeto estudado mais vezes, para somarmos os aportes analíticos e teóricos e apreendermos a totalidade do objeto. Compreendemos que a HTP, dessa maneira, é, simultaneamente, uma ferramenta de seus contemporâneos para compreender o próprio tempo e, tão importante quanto, um rastro para que seus herdeiros possam lidar com menores lacunas na compreensão de seu passado.


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