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Fundamentos econômicos e políticos do pós-modernismo:pós-modernismo e capitalismo tardio

por Mavi Rodrigues


O texto que agora apresentamos é parte da tese de doutoramento de Mavi Rodrigues intitulada Michel Foucault sem espelhos: um pensador proto pós-moderno de 2006. Aqui publicamos um trecho do capítulo I, mais precisamente o tópico 1.2 Fundamentos econômicos e políticos do pós-modernismo e o subtópico 1.2.1 Pós-modernismo e capitalismo tardio. Nosso objetivo é contribuir para a divulgação desse trabalho científico seminal para a crítica do irracionalismo contemporâneo, que campeia livremente no atual estágio de desenvolvimento do modo de produção capitalista.

Agradecemos, mais uma vez, à Mavi Rodrigues pela permissão que nos deu para publicar parte de sua obra na Barravento. Sua tese completa – que merece leitura atenta – encontra-se disponível no link <http://objdig.ufrj.br/30/teses/MaviRodrigues.pdf>.





Fundamentos econômicos e políticos do pós-modernismo


A emergência do pós-modernismo – adverte Harvey (1996: 65) - não se deu num vazio social, econômico e político. Embora esta premissa seja condição fundamental para processar a análise da cultura pós-moderna numa perspectiva teórico-metodológica que privilegia a totalidade, as abordagens marxistas sobre este tema se dividem entre uma tendência a considerar apenas os fundamentos econômicos e uma avaliação restrita aos seus fundamentos políticos (1). Se as análises de Jameson (1997) e as de Harvey (1996) estão mais próximas da primeira, as reflexões de Callinicos (1995) e Eagleton (1998) se identificam com a segunda.

Entender a emergência do que se convencionou chamar de pós-modernismo requer empreender uma investigação da cultura contemporânea que permita superar esta cisão presente nas análises marxistas entre as abordagens econômicas e políticas. Em hipótese alguma esta proposição autoriza a refutação integral das teses sustentadas por Jameson, Harvey, Callinicos e também Eagleton. Ao contrário, superar a unilateralidade do estudo destes autores exige levar às últimas conseqüências os veios heurísticos que descortinaram, isto é, requer demonstrar que o pós-modernismo é tanto um produto da mercantilização da cultura na fase tardia do capital quanto do impacto do fracasso das lutas políticas empreendidas no período de 1968–76 sobre o projeto socialista revolucionário.


Pós-modernismo e capitalismo tardio


Embora a tese central de O Pós-modernismo: lógica cultural do capitalismo tardio busque situar as bases propriamente objetivas da constituição da cultura pósmoderna na economia política mandeliana, uma leitura mais atenta da obra de Jameson permite evidenciar o quão frágil é a sua compreensão acerca da fase tardia do capital.

A princípio, a assertiva de Jameson (1997) sobre a integração da cultura à lógica mercantil parece se apoiar mais nas teses que o velho Lukács desenvolveu pouco tempo antes de falecer (2) do que em Mandel. O que, em última instância, não traria grandes problemas à investigação de Jameson, já que, a despeito de portarem concepções políticas distintas, as elaborações teóricas destes dois grandes pensadores marxistas - voltadas para dimensões particulares da fase tardia do capitalismo: em Mandel, confesso trotskysta, a economia política e em Lukács, leninista apaixonado, a cultura - não são colidentes entre si.

Contudo, uma análise mais atenta das argumentações presentes em O Pósmodernismo: lógica cultural do capitalismo tardio permite evidenciar um problema de outra ordem. De sua tese central – o pós-modernismo como a lógica cultural dominante do capitalismo tardio – Jameson extrai uma assertiva inteiramente correta: a de que a fase tardia do capital correspondeu à dissolução da condição de relativa autonomia que a cultura gozava nas fases anteriores do capitalismo. No entanto, o equívoco parece residir na conclusão que o referido autor arranca deste fenômeno. Jameson sinaliza que a perda da autonomia relativa do domínio cultural não deve ser interpretada como extinção ou destruição da cultura. Ao contrário, “a dissolução da esfera autônoma da cultura deve ser antes pensada em termos de uma explosão: uma prodigiosa expansão da cultura por todo o domínio do social, até o ponto em que tudo em nossa vida social – do valor econômico e do poder do Estado às práticas e à própria estrutura da psique – pode ser considerado como cultural, em um sentido original que não foi, até agora, teorizado” (JAMESON, 1997: 74).

Fica evidente que neste ponto Jameson está muito mais próximo de Baudrillard - autor pós-moderno que condenou a teoria marxiana ao obsoletismo ao sustentar que na atualidade o capitalismo tem se preocupado mais com a produção de signos do que com a produção de mercadorias – do que da reflexão mandeliana (3). Em Mandel, o capitalismo tardio é representado como o período no qual, pela primeira vez na história da humanidade, a industrialização se tornou generalizada e universal. Momento em que a padronização, a superespecialização e a fragmentação do trabalho - que antes determinavam apenas o âmbito da produção mercantil na indústria - abarcam agora desde a agricultura à esfera da circulação e o lazer. A industrialização da esfera da reprodução social é, segundo a análise mandeliana, o ápice deste processo (MANDEL, 1982: 271 e 272).

A teoria mandeliana, portanto, permite afirmar que, na fase tardia do capital, a industrialização, envolvendo o todo da vida social, invade, inclusive, a esfera da produção e do consumo de bens culturais; mas nunca o contrário, como o fez Jameson. Ao sustentar que o capitalismo tardio corresponde à generalização e universalização da cultura, que passa a penetrar tudo, desde a produção e circulação de mercadorias até o cotidiano dos indivíduos sociais, Jameson, na verdade, inverteu a tese de Mandel e acabou, inconscientemente, fortalecendo os argumentos pós-modernos que insistem em identificar na expansão do setor de serviços os sinais do nascimento de uma sociedade pós-industrial. Afinal de contas, afirmar que capitalismo tardio corresponde a uma expansão generalizada da cultura não é o mesmo que sustentar que a produção material não tem mais centralidade na sociedade contemporânea?(4).

Levar às últimas conseqüências a tese central de O Pós-modernismo: lógica cultural do capitalismo tardio, isto é, situar o pós-modernismo enquanto resultado da integração comercial da produção estética no terceiro estágio do capital, requer enfatizar a relação da arte e da cultura com o fenômeno da supercapitalização, o que Jameson não o fez nem indiretamente.

O fenômeno de supercapitalização não é lateral na análise do terceiro estágio do capital, pois é ele que dinamiza o desenvolvimento da industrialização e da capitalização intensiva na esfera de reprodução social. Tal fenômeno – lógica básica do capitalismo tardio – consiste “em converter, necessariamente, o capital ocioso (que não consegue mais se valorizar na indústria) em capital de serviços e ao mesmo tempo em substituir o capital de serviços por capital produtivo (mercadorias)” (MANDEL, 1982: 285). A substituição do trabalho da faxineira, da cozinheira e do alfaiate - que não produzem mais-valia - pelos aspiradores de pó, as refeições précozidas e as roupas prontas são exemplos da supercapitalização. São também expressões deste fenômeno a substituição dos serviços de transporte por automóveis particulares; serviços de teatro e cinema por aparelhos privados de televisão e programas de TV e instrumento educacional por videocassete (5).

A análise mandeliana demonstra, ainda, o quanto a lógica do capital tardio está associada à constituição de uma sociedade do consumo. Se uma grande diferenciação do consumo - especialmente do consumo dos assalariados e da classe operária - é um pré-requisito para a supercapitalização; é no capitalismo tardio que, embora não sendo o cenário originário deste processo (6), são intensificadas as fontes de diferenciação da demanda monetária efetiva do proletariado.

A categoria de supercapitalização é uma fonte rica para a investigação dos fundamentos econômicos do pós-modernismo. É por meio dela que a mercantilização crescente da cultura é explicitamente tratada por Mandel. Ele aponta que as realizações culturais do proletariado (jornais, livros, esportes, educação, etc.) – genuinamente voluntárias e autônomas no período do imperialismo clássico – tendem, na fase atual do capital, a ser cada vez mais absorvidas pela produção e circulação capitalista. Reprivatizando a esfera do lazer das classes operárias, o capitalismo tardio põe, no lugar da imprensa socialista, a imprensa e a televisão burguesas; substitui as atividades recreativas organizadas, até então, pelas associações juvenis dos trabalhadores, por férias, excursões e esportes comercializados; troca os alfarrábios, antes publicados por cooperativas dos trabalhadores, por livros publicados por editoras comerciais (MANDEL, 1982: 275 e 276).

A reflexão mandeliana também trata, embora de forma menos direta, de outros aspectos fundamentais à compreensão da virada da cultura para o pós-modernismo. Ao indicar que uma das tendências do capitalismo contemporâneo é expandir ou diferenciar o consumo de mercadorias inúteis e cafonas (o kitsch) e até mesmo prejudiciais à saúde, como resultado da pressão da publicidade e do conformismo, Mandel aponta três aspectos, comumente, relacionados ao fenômeno do pós-modernismo. O primeiro diz respeito à tendência apontada pela análise mandeliana da conversão dos bens de luxo para os bens de massa. Não por acaso, no âmbito da arte do pós-60 vai se afirmando como dominante o apagamento da fronteira entre a alta cultura e a cultura de massa ou comercial (7).

O segundo aspecto apontado por Mandel é que a diferenciação e expansão do consumo no capitalismo, a transformação de bens de luxo em bens de massa, geralmente vem acompanhada de uma tendência crescente dos monopólios de alterar perpetuamente a forma das mercadorias e de baixar de forma sistemática a qualidade dos produtos. Aqui identificamos as principais características – a volatilidade, a obsolescência, a efemeridade, a promoção incessante de novidades - da lógica cultural que se torna dominante no capitalismo tardio e que são descritas por muitos autores (GULLAR, 1997; JAMESON, 1997; HARVEY, 1996; SANTOS, 2001; NETTO, 2004a e c e CONNOR, 1993).

O terceiro aspecto diz respeito a indução para a expansão do consumo de mercadorias e serviços que, embora opere com um significativo peso no terceiro estágio do capital, é pouco ressaltado nas reflexões teóricas sobre o pósmodernismo. De acordo com Mandel, a compulsão para a compra de mercadorias e serviços adicionais não é produto apenas da ação manipulatória da publicidade e da mídia. Há também elementos de coerção econômica direta que devem ser levados em conta.

Dentre estes, a reflexão mandeliana aponta a atomização da família proletária (sua desorganização enquanto unidade de produção e mesmo como unidade de consumo) como resultado do desenvolvimento do capital. No capitalismo tardio, o crescimento do ingresso das mulheres no mercado de trabalho e a escolarização cada vez maior da classe operária funcionam como coerções econômicas para substituir o que antes era uma atividade desenvolvida pela mulher – pela esposa, mãe ou filha do trabalhador - no âmbito do lar por mercadorias capitalisticamente produzidas ou por serviços capitalisticamente organizados. Aí estaria a razão para o crescente mercado de refeições prontas, alimentos enlatados, roupas feitas e toda a variedade de eletrodomésticos correspondentes ao declínio da produção de valores de uso imediatos no seio da família.

Outro elemento indutor à expansão do consumo na fase tardia do capitalismo diz respeito à compulsão econômica direta para consumo de mercadorias e serviços adicionais, sem os quais seria impossível a reprodução material da força de trabalho. De acordo com Mandel, tal imposição social é produzida na fase tardia do capital por duas maneiras. Por um lado, o aumento substancial da intensidade do trabalho tornando necessário que o trabalhador, para repor a energia de sua força de trabalho, consuma mais mercadorias e mercadorias de melhor qualidade. Por outro, o crescimento das metrópoles que, aumentando exponencialmente o tempo de circulação entre a casa e o trabalho, gera uma demanda objetiva por bens de consumo que poupem tempo. É, sobretudo, este elemento que permite explicar o crescimento do uso de máquinas de lavar, de fornos elétricos, micro-ondas e até mesmo do automóvel particular em regiões onde a rede de transporte público é inexistente ou insuficiente.

Uma leitura rigorosa da reflexão mandeliana não só permite corrigir os desvios da análise de Jameson (1997); também permite ratificar a tese de Harvey (1996) que relaciona o surgimento de uma condição pós-moderna com a ascensão, em fins do século XX, de um novo regime de acumulação de capital, denominado de acumulação flexível.Veremos a seguir que a compressão tempo-espaço produzida pela acumulação flexível e seus impactos na psicologia humana, investigados em Condição Pós-moderna, são perfeitamente compatíveis com as análises mandelianas presentes em O Capitalismo Tardio.

Aliás, Bhering (1998) demonstra como, partindo de categorias fundantes da teoria social marxiana, Mandel antecipou as contradições internas e históricas que levaram à onda longa com tonalidade recessiva que o mundo passou a viver nas três últimas décadas do século XX. Além disso, a autora revela como a passagem do padrão de acumulação flexível, analisado por Harvey, pode ser interpretada como uma reação burguesa à crise que o capitalismo tardio experimenta a partir de 1974/75, quando se esgota o boom do pós-guerra e tem início um novo ciclo da onda longa recessiva, previsto por Mandel já na década de 60.

Harvey teve muito mais sucesso que Jameson na investigação da relação entre a economia e a cultura pós-moderna. Atento às alterações processadas na produção capitalista nas três últimas décadas do século XX, ele pôde explorar com maior precisão e substância os fundamentos econômicos que tornaram possível a aparição de uma produção estética e de um discurso pós-modernos, no mundo ocidental dos anos 70. Além do mais, isso lhe permitiu romper com o véu da representação imediatista e pseudoconcreta da condição pós-moderna. Em Harvey, tal condição histórica não deve ser tomada como a constituição de uma situação social inteiramente nova com relação à modernidade. Ao contrário, ela é tratada como a reificação de alterações processadas dentro da moderna produção do capital no final do século XX.

De acordo com Harvey, a virada cultural para o pós-modernismo está estreitamente articulada à constituição de um regime de acumulação flexível que - embora distinto daquele que vigorou entre os anos de 45 a 73: o regime de acumulação fordista-keynesiano - não altera as regras básicas do modo de produção capitalista, posto que a produção em função de lucros permanece sendo o princípio organizador básico da vida econômica.

Marcada por um confronto com a rigidez do fordismo, a acumulação flexível produziu mudanças radicais em processos de trabalho e hábitos de consumo, nas práticas e poderes do Estado (8) e, sobretudo, a passagem para um novo ciclo de compressão tempo-espaço (9) na economia política do capitalismo do final do século XX. É justamente a análise deste último elemento – a compressão tempo-espaço – que, segundo Harvey, permite evidenciar como se tornou possível a construção de uma forma de ser, pensar e agir pós-modernas. Ao modificar as formas materiais de reprodução social, a acumulação flexível conduziu os usos e significados do tempo e do espaço (10) em direção à uma experiência do tempo e do espaço pós-modernista.

As bases objetivas de tal experiência dizem respeito à aceleração do tempo de giro do capital na produção - obtida através da implantação de novas tecnologias produtivas (automação, robôs, etc.) e de novas formas organizacionais (subcontratação, just in time, etc.) – bem como a acelerações paralelas na troca e no consumo – possível graças a sistemas aperfeiçoados de comunicação e fluxos de informações acoplados à racionalização nas técnicas de distribuição de mercadorias (empacotamento, conteinerização, controle dos estoques, etc.) e ao aumento da rapidez do fluxo do dinheiro (bancos eletrônicos e cartões de crédito).

Duas alterações no consumo, promovidas pela redução dos tempos de giro nas três últimas décadas do século XX, são destacadas por Harvey - ambas dizem respeito a tendências apontadas por Mandel de diferenciação do consumo no capitalismo tardio. A mobilização da moda em mercados de massa que propiciou a aceleração do ritmo do consumo não só de roupas, ornamentos e decoração, mas também de uma ampla gama de estilos de vida e atividades de recreação - estilos de música pop, hábitos de lazer, videogames, etc. E a passagem do consumo de bens para o consumo de serviços - pessoais, comerciais, educacionais e de saúde, bem como de entretenimento, espetáculos e eventos. A tendência em substituir o consumo de bens físicos por serviços, cujo tempo de vida é muito mais curto é, de acordo com o autor, o que estaria na raiz da rápida penetração capitalista ocorrida na metade dos anos 60 em diversos setores da cultura.

Os ajustes espaciais, provocados pela transição do fordismo para a acumulação flexível, não foram menos dramáticos. A implantação dos sistemas de comunicação por satélite tornou o custo unitário e o tempo da comunicação invariantes com relação à distância. Associada à comunicação via satélite, a televisão de massa - possibilitando o acesso quase simultâneo a imagens de experiências reais ou simuladas a milhões de pessoas em distintos espaços do planeta - encolheu os espaços do mundo em sua tela. O barateamento do frete aéreo e a conteinerização reduziu o custo do transporte marítimo e rodoviário.

Tudo isto possibilitou, segundo Harvey, a queda de barreiras espaciais e, principalmente, as condições para que os capitalistas pudessem explorar com maior proveito as minúsculas diferenças espaciais, quer seja em termos de oferta de trabalho ou de recursos e infra-estrutura. A aniquilação do espaço pelo tempo deu ao capital um domínio superior do espaço. Permitindo aos capitalistas utilizar a mobilidade geográfica e a descentralização como armas poderosas de luta contra a resistência dos trabalhadores, a acumulação flexível produziu a “fragmentação, (a) insegurança e (o) desenvolvimento desigual e efêmero no interior de uma economia de fluxos de capital de espaço global unificado” (HARVEY, 1996: 267).

Na vida cotidiana, a aniquilação do espaço por meio do tempo alterou radicalmente o conjunto de mercadorias que compõem a reprodução diária. Incorporando inúmeros sistemas locais de alimentação à troca global de mercadorias, a acumulação flexível transformou significativamente o mercado de alimentos. Ao possibilitar a venda, a preços relativamente baixos, nos supermercados das grandes metrópoles, de comidas e bebidas das mais variadas regiões (maçãs canadenses, uvas chilenas, feijões do Quênia, etc.) – antes ofertadas apenas em lojas especializadas – a compressão tempo-espaço fez com que a cozinha do mundo inteiro estivesse presente num único lugar “de maneira quase exatamente igual à da redução da complexidade geográfica do mundo a uma série de imagens numa estática tela de televisão” (HARVEY, 1996: 270).

A implicação geral desta nova experiência espacial, de acordo com Harvey, foi o de possibilitar a vivência vicária da geografia do mundo, como um simulacro. Reunindo no mesmo espaço e no mesmo tempo diferentes mundos (de mercadorias), o entrelaçamento de simulacros da vida diária “oculta de maneira quase perfeita quaisquer vestígios de origem, dos processos de trabalho que os produziram ou das relações implicadas em sua produção” (HARVEY, 1996: 271).

A conseqüência mais expressiva da alteração da qualidade objetiva do tempo e do espaço na sociedade como um todo se deu, segundo Harvey, no âmbito da psicologia humana. Golpeando a vida cotidiana, a compressão tempo-espaço acentuou não só a volatilidade e a efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção e processos de trabalho. Forçou as pessoas a lidar com a descartabilidade, a novidade e a perspectiva da obsolescência instantânea também de lugares, pessoas, valores e formas de agir e pensar.

A dinâmica de uma “sociedade do descarte” – que tende a jogar fora não apenas bens produzidos, mas também "estilos de vida, relacionamento estáveis, apego a coisas" - descrita por Harvey (1996: 258), corresponde a passagem da destruição produtiva para produção destrutiva no desenvolvimento do capitalismo avançado, expressão da lei tendencial da taxa de utilização decrescente, analisada por Mészáros (2002), cujos traços essenciais e seus vínculos com o pósmodernismo serão apontados no capítulo seguinte desta tese.

Um aspecto importante desta experiência pós-moderna do tempo e do espaço é a presença de um sistema de manipulação de gostos e opiniões, um sistema de signos e imagens (11) capaz de adaptar a volatilidade a fins particulares. Claro que, aqui, o autor se refere a um dos elementos centrais do capitalismo tardio apontado por Mandel nos anos 60 – a publicidade -, que, no entanto, teve seu papel exacerbado nas últimas décadas do século XX. Harvey revela que na acumulação flexível, a publicidade e as imagens da mídia jogam um papel muito mais integrador nas práticas culturais do que no passado. Estas não têm mais a função de informar ou promover os produtos, mas a de manipular desejos e gostos mediantes imagens que podem ou não ter relação com a mercadoria a ser vendida (12). Além de ter se tornado um elemento fundamental para concorrência na venda de mercadorias, a imagem passou a ser também “parte integrante da busca de identidade individual, auto-realização e significado da vida” (HARVEY, 1996: 260).

São dois, segundo Harvey, os possíveis efeitos sociológicos disto tudo no pensamento e na ação diários. O primeiro condiz com uma postura em tirar proveito de todas as possibilidades divergentes, cultivando-se toda uma série de simulacros como espaços de escape, de fantasia e de distração. A ênfase na fragmentação, na dispersão, na colagem no pensamento social e filosófico mimetiza essa condição pós-moderna da alteração espacial e temporal. A outra postura, claramente oposta à primeira, diz respeito à procura de uma identidade coletiva ou individual, ou seja, à busca de comportamentos seguros num mundo cambiante, o que, em grande parte, explicaria o crescimento, desde fins dos anos 60, do revivalismo religioso, ou, ainda, do retorno dos interesses por instituições básicas, como a família e a comunidade.

Contudo, tal como Jameson (1997), Harvey deu muito pouca atenção à conjuntura política do final do século XX. A referência que faz a 1968 e ao declínio do movimento operário nos anos 70 é extremamente episódica (13). Talvez isso explique porque em Harvey simplesmente não haja qualquer indício de alternativas concretas de enfrentamento da condição pós-moderna (14).


NOTAS


  1. Dentre as análises marxistas sobre o pós-modernismo, consideraremos aqui em maior medida os estudos de Jameson (1997) e Harvey (1996). Mas, em menor medida, também as formulações de Callinicos (1995), Eagleton (1998) e Anderson (1999). A diferenciação da atenção dispensada a cada um desses autores não é arbitrária; ela corresponde, em grande medida, ao próprio grau de investimento intelectual que os mesmos, até o presente momento, dispensaram ao tema.

  2. Nos anos 60, o filósofo marxista já havia acentuado como uma das principais características do capitalismo contemporâneo a penetração em todas as expressões da vida social - desde as vendas de gravatas e cigarros até as eleições presidenciais - de um sistema de manipulação indutor a um consumo de massa (Cf. entrevista concedida, em 1966, a Leo Kofler in ABENDROTH, 1972).

  3. É no mínimo inquietante a forma pela qual Jameson aborda a teoria do valor em Marx, da qual a construção teórica de Mandel é legatária. Contrariando a orientação ontológica que acompanhou toda a obra marxiana, o autor não só comete o absurdo de dizer que este é o trabalho epistemológico mais interessante de Marx, como também afirma que a forma geral do valor corresponde a “uma idéia geral ou propriedade universal que então se materializa em um único objeto designado para servir de ‘standard’ para todo o resto” (JAMESON, 1997: 244 e 245). Tais imprecisões inquestionavelmente indicam uma leitura insuficiente da produção teórica mandeliana. Porém, talvez possam sinalizar também que a influência da leitura antropológica de Baudrillard acerca do valor de uso e do valor de troca sobre Jameson, não tenha sido tão circunscrita como supôs Anderson (1999: 63).

  4. Vale a pena reproduzir aqui os argumentos de Mandel que infirmam qualquer hipótese de associar a expansão de serviços ocorrida logo após a Segunda Guerra Mundial com a superação do capitalismo ou com o nascimento de uma sociedade pós-industrial: “Uma sociedade constituída apenas de serviços, onde o proletariado inteiro se transformou em trabalho social improdutivo (que já não produz mercadorias) também acabaria por confrontar-se com o problema de que os trabalhadores assalariados não poderiam usar seus salários apenas para comprar ‘serviços capitalistas’, pois primeiro teriam de comer, beber, vestir, conseguir moradia e garantir fontes de energia, antes de poder ir ao médico, consertar os sapatos ou fazer uma viagem de férias. O capital investido nas ‘empresas de serviços’ dificilmente conseguiria atingir a ‘valorização’. Se os bens que fossem inteiramente produzidos por processos automáticos já não fossem vendidos, mas distribuídos gratuitamente, então é difícil imaginar um motivo que levasse as massas, que dessa maneira teriam assegurado o seu padrão de vida, a alugar sua força de trabalho para as ‘empresas de serviço’. Em outras palavras, esses cenário não teria mais nada a ver com o capitalismo” (MANDEL, 1982: 285).

  5. Mandel (1982: 272) demonstra como esta tendência é triplamente útil ao capital monopolista. Em primeiro lugar, a supercapitalização por meio de quatro vias - a assunção parcial de funções produtivas do capital industrial propriamente dito, como no caso do setor de transporte; a aceleração do tempo de rotação do capital produtivo circulante, como no caso do comércio e do serviço de crédito; a redução dos custos indiretos da produção, como o que ocorre na infra-estrutura e a ampliação dos limites da produção de mercadorias por meio da substituição da troca de serviços individuais pela venda de mercadorias que contém mais-valia - acrescenta à massa de capital social investido uma quantidade maior de mais-valia. Além disso, o desvio de uma massa de capital ocioso e em expansão evita que estes, ingressando nos setores monopolizados, venham aumentar a concorrência ou ameaçar os superlucros dos monopólios. Por fim, se houver garantia de lucratividade, o capital monopolista pode participar ativamente deste processo. Nesta condição, os conglomerados de capital tendem a combinar a produção (de aço, de margarina, de cerveja, etc.) com a posse de unidades de distribuição (hotéis dominados por fábricas de cerveja, postos de gasolina dirigidos por trustes de petróleo, etc.) e, ainda, iniciativas em grande escala na esfera das lojas de departamento ou dos sistemas de transportes (companhias de aviação, de navegação marítima, lazer, férias, etc.).

  6. Mandel demonstra que a diferenciação do consumo se desenvolveu gradualmente a partir da segunda metade do século XIX, quando no Ocidente o Exército Industrial de Reserva experimentou uma baixa secular.

  7. Assim sendo, em contraposição ao alto modernismo, “os pós-modernismos têm revelado um enorme fascínio pela paisagem ‘degradada’ do brega e do kitsch, dos seriados de TV e da cultura do Reader’s Digest, dos anúncios e dos motéis, dos late shows e dos filmes B hollywoodianos” (JAMESON, 1997: 28).

  8. Em contraposição ao padrão de acumulação fordista-keynesiano, o regime de acumulação flexível se apóia na flexibilidade dos processos e mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se, ainda, pelo surgimento de novos setores de produção, de novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e taxas altamente intensificadas de inovações tecnológicas, comercial e organizacional. Envolve também rápidas mudanças nos padrões de desenvolvimento desigual tanto entre setores como entre regiões geográficas.

  9. Segundo Harvey, o que ocorreu no último quartel do século XX foi uma outra rodada da aniquilação do espaço por meio do tempo, que sempre esteve no centro da dinâmica capitalista. Neste sentido, o pós-modernismo não difere da natureza do modernismo que também fora, segundo o autor, uma reação às alterações processadas no espaço e no tempo pela crise de 1846-47, considerada por ele como a primeira crise patente de superacumulação capitalista.

  10. De acordo com Harvey, a teoria sobre a compressão tempo-espaço possibilita expressar não somente as qualidades objetivas do tempo e do espaço, mas também a maneira pela qual os homens são forçados a alterar radicalmente suas representações sobre o mundo (HARVEY, 1996: 219). É, portanto, por um viés claramente materialista – que em nada concede a uma interpretação antropológica e subjetivista do tempo e do espaço - que o autor em tela afirma que as qualidades objetivas de espaço e de tempo e suas representações são produtos, variáveis histórica e geograficamente, de práticas e processos materiais que servem à reprodução da vida social (HARVEY, 1996: 189).

  11. Ao buscar demonstrar o quão importante tem sido para a acumulação flexível de capital o investimento na construção da imagem, Harvey (1996: 259-263) se empenhou em depurar toda a influência de Baudrillard da discussão de Jameson sobre o simulacro e sobre a relação da produção estética com a tecnologia da fase tardia do capital - que se assenta em máquinas mais de reprodução do que de produção, como o computador e a televisão (JAMESON, 1997: 63). Embora seja extremamente louvável o esforço de Harvey, há no conjunto de suas argumentações afirmações que acabam por supervalorizar a importância da imagem na produção capitalista, chegando até mesmo a afirmar que “é factível que a acumulação se processe, ao menos em parte, com base na pura produção e venda da imagem" (HARVEY, 1996: 261).

  12. A manipulação é de tal ordem que diz Harvey (1996: 260): “se privássemos a propaganda moderna da referência direta ao dinheiro, ao sexo e ao poder, pouco restaria”. Poderíamos estender esta crítica do autor a grande parte dos produtos culturais da TV e do rádio do final do século XX e começo do XXI. Sem o apelo sexual explícito o que seria do “É o Tcham” e a moda atual do funk carioca? Não ficam de fora também desta tendência o próprio teatro povoado nos últimos tempos com peças do gênero “Monólogos da Vagina”.

  13. Ao longo de trezentos e vinte e seis páginas, Harvey dedica apenas breves linhas ao Movimento de Maio de 1968. Ele simplesmente sustenta que tal movimento pode ser considerado como "um arauto cultural e político da virada para o pós-modernismo" (HARVEY, 1996: 44). O mesmo ocorre quanto à relação entre a cultura pós-moderna e as organizações da esquerda, tema das quinze últimas páginas de sua obra (Idem, ibid., p. 311 a 326).

  14. A análise de Jameson sobre a cultura pós-moderna deixa a desejar não somente quanto à avaliação propriamente econômica do capitalismo tardio, ela desconsidera também um outro determinante fundamental da nova dominante cultural dessa etapa do capital: a esfera da política, em especial, as lutas de classes no último quartel do século XX. Falta-lhe, sobretudo, uma avaliação mais conseqüente do significado do Movimento de Maio de 1968 e da crise internacional do socialismo real, temas muito pouco explorados em sua grande obra sobre o pós-modernismo. Tal fragilidade se explicita quando Jameson busca elucidar a defasagem histórica entre o surgimento dos governos pelo mundo à fora acabou por provocar a evolução de manifestações e insurreições estudantis em diversos países da Europa (Cf. HOLZMANN & PADRÓS, 2003: 23 e 24). Cabe ressaltar, no entanto, que 1968 emergiu não só como uma postura de solidariedade aos vietcongues e ao Vietnã do Norte, mas também como contestação a todas as formas de intervenções conservadoras, antidemocráticas ou beligerantes das potências capitalistas contra aqueles países que eram considerados como pertencentes ao Terceiro Mundo. Em grande parte o antinorteamericanismo dos anos 60 foi determinado também pelo crescimento do terceiro-mundismo. Isto explica, afinal, o peso que a guerra contra a Argélia exerceu na radicalização da juventude francesa nos primeiros anos da década de 60.

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