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L. N. Tolstói e o contemporâneo movimento de trabalhadores

por V. I. Lênin


Imagem: Nikolai Ge, Retrato de Leo Tolstói.


Este terceiro texto da série de escritos de Lênin sobre Tolstói teve, ao que tudo indica, uma única tradução para a língua portuguesa, feita pela brasileira Eneida de Morais (Trechos escolhidos sobre literatura e arte: Marx, Engels, Lenin e Stalin. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1945).

Aqui, da mesma forma que nos textos anteriores, nossa revisão de tradução se baseia nessa versão em português, na versão em espanhol (Lenin, V. I. Obras completas. Tomo XX, Moscou: Progreso, 1983, p. 39-42) e na versão em inglês (Lenin, V. I. Collected Works. Vol. 16, Moscow: Progress Publishers, 1973, p. 330-332), consultando também o texto no original russo nas Obras Completas. As palavras em destaque no texto de Lênin foram mantidas como no original.


Revisão de tradução por Pedro Badô.

Revisão textual por Wesley Sousa.

Os trabalhadores russos, em quase todas as grandes cidades da Rússia, já reagiram à morte de L. N. Tolstói e expressaram, de uma forma ou de outra, sua atitude em relação ao escritor que forneceu uma série das mais admiráveis obras de arte, colocando-o entre os grandes escritores de todo o mundo, – ao pensador, que com enorme força, confiança e sinceridade, colocou toda uma série de questões relativas aos traços fundamentais do ordenamento político e social contemporâneo. De modo geral, essa atitude foi expressa num telegrama publicado nos jornais [1], enviado pelos deputados trabalhadores da III Duma [2].

L. Tolstói começou sua atividade literária durante a existência do regime de servidão, mas já num tempo em que esse vivia, evidentemente, seus últimos dias. A atividade principal de Tolstói compreende um período situado entre dois pontos de viragem da história russa, entre os anos 1861 e 1905 [3]. Durante esse período, os vestígios do regime de servidão [4], suas imediatas experiências vivenciadas [переживания, perezhivaniya], impregnaram-se por toda a vida econômica (especialmente nas áreas rurais) e política do país. E, ao mesmo tempo, precisamente esse período, foi um período de intenso crescimento do capitalismo a partir de baixo e sua implantação a partir de cima.

Em que impactavam as experiências vivenciadas da servidão? Mais do que tudo e mais claramente que tudo, na Rússia, país preeminentemente agrícola, a agricultura, durante esse tempo, estava nas mãos de camponeses arruinados e empobrecidos, que geriam os meios produtivos [хозяйство, khozyaystvo] arcaicos e primitivos nos velhos nadiels [5] dos servos, retalhados em 1861 em benefício dos senhores proprietários. E, por outro lado, a agricultura que estava nas mãos dos senhores proprietários, que na Rússia central cultivavam as terras com o trabalho do camponês, com o arado de madeira camponês, com o cavalo camponês, em troca de “terras cortadas” [6], do local de ceifa, dos bebedouros, etc. Na realidade, estes eram os velhos meios de produzir do sistema de servidão. O regime político da Rússia, durante esse tempo, também estava completamente encharcado de servidão. Isso era visível tanto no arranjo estatal, antes dos primeiros ataques para modificá-lo em 1905, quanto na influência predominante dos nobres proprietários de terra nos assuntos estatais, e do poder ilimitado dos funcionários públicos, os quais eram a principal representação – especialmente os mais alto cargo – dos nobres proprietário de terra.

Esta velha Rússia patriarcal, após 1861, começou a desmoronar-se rapidamente sob a influência do capitalismo mundial. Os camponeses morriam de fome, extinguiam-se, arruinavam-se, como nunca antes, e fugiram para as cidades, abandonando a terra. Estradas de ferro, fábricas e usinas eram rapidamente construídas graças ao “trabalho barato” dos camponeses arruinados. O grande capital financeiro, o grande comércio e a indústria desenvolveram-se na Rússia.

É essa rápida, penosa e aguda quebra de todos os velhos “fundamentos” da velha Rússia que se refletiu nas obras do artista Tolstói e no modo de ver do pensador Tolstói.

Tolstói conhecia magnificamente a Rússia rural, a vida do senhor proprietário de terras e do camponês. Em suas obras de arte ele deu tal representação desta vida, que se incluem entre as melhores obras da literatura mundial. A quebra aguda de todos os “velhos fundamentos” da Rússia rural aguçou sua atenção, aprofundou seu interesse pelo o que acontecia à sua volta, levou a uma virada em toda sua visão de mundo. Por seu nascimento e sua educação, Tolstói pertencia à mais alta fidalguia proprietária de terras da Rússia, – ele rompeu com todas as visões habituais desse ambiente e, em suas últimas obras, lançou uma crítica apaixonada contra a contemporânea ordem estatal, eclesiástica, social e econômica, fundadas na escravização das massas, na sua miséria, na ruína dos camponeses e dos pequenos patrões em geral, na violência e hipocrisia, que impregna de cima a baixo toda a vida contemporânea.

A crítica de Tolstói não é nova. Ele nada disse que já não tivesse sido dito muito antes dele, tanto na literatura européia quanto russa, por quem que estava do lado dos trabalhadores. Mas a originalidade da crítica de Tolstói e sua importância histórica consiste em que ela expressa com uma tal força, que é peculiar apenas aos artistas geniais, a quebra do modo de ver das mais amplas massas populares da Rússia durante o período referido, e precisamente da Rússia rural, camponesa. Pois a crítica de Tolstói à ordem contemporânea difere-se da crítica a essa mesma ordem feita pelos representantes do contemporâneo movimento de trabalhadores, precisamente porque Tolstói situa-se do ponto de vista do camponês patriarcal, ingênuo, Tolstói transpõe essa psicologia para sua crítica, para seus ensinamentos. A crítica de Tolstói distingue-se, por isso, por uma tal força de sentimento, por uma tal paixão, uma persuasão, um frescor, uma sinceridade, um destemor no anseio de “chegar até à raízes”, de encontrar a presente causa da desgraça das massas, é que essa crítica reflete de fato uma quebra na visão de milhões de camponeses que acabavam de sair em liberdade do regime de servidão, e que viram que essa liberdade significa novos horrores da ruína, da morte pela fome, da vida sem abrigo entre os “khitrovstas” [7] da cidade, etc. Tolstói reflete esse estado de espírito deles tão fielmente que, ele mesmo, introduz em seus próprios ensinamentos a ingenuidade deles, a alienação política, o misticismo, o desejo de fugir do mundo, a “não resistência ao mal”, o impotente praguejar contra o capitalismo e o “poder do dinheiro”. O protesto de milhões de camponeses e seu desespero – eis o que se amalgamou nos ensinamentos de Tolstói.

Os representantes do contemporâneo movimento de trabalhadores consideram que têm contra o que protestar, mas não porque se desesperarem. O desespero é próprio das classes que perecem, e a classe dos trabalhadores assalariados cresce, se desenvolve, se fortalece em toda a sociedade capitalista, inclusive na Rússia. O desespero é próprio de quem não compreendem os motivos dos males, que não vêem uma saída, que não são capazes de lutar. O proletariado industrial contemporâneo não pertence a tais classes.

Nach Pout, nº 7, 28 de novembro (11 de dezembro, no calendário gregoriano) de 1910.

 

Notas:

[1] Estamos a falar de um telegrama enviado por deputados social-democratas da III Duma em Astapovo dirigido a V. G. Chertkov, amigo próximo e seguidor de L. N. Tolstói. Dizia: “A facção social-democrata da Duma de Estado, expressando os sentimentos do proletariado russo e de todo o proletariado internacional, lamenta profundamente a perda de um artista brilhante, um lutador irreconciliável e invicto contra o eclesismo oficial, um inimigo da arbitrariedade e da escravidão, que levantou ruidosamente a voz contra a pena de morte, um amigo perseguido.” (edição russa).

[2] A Duma Estatal do Império da Rússia era um instituição legislativa convocada pelo tsar. A III Duma existiu entre 1907 e 1911.

[3] Lênin refere-se aqui ao período entre o fim do regime de servidão (1861) e a revolução democrática de 1905.

[4] Aqui a tradutora lusófona optou pela palavra “escravidão”, no entanto, no texto Lênin usou a palavra “крепостного права” (krepostnogo prava). Como já referimos em nota no texto anterior, servidão e escravidão, muitas vezes, são textos intercambiáveis no que se refere à realidade russa e tem um motivo histórico (Conferir nota 8 em L. N. Tolstói). No entanto, aqui estamos falando especificamente do regime de servidão, do direito/lei (права, prava) de servidão.

[5] O nadiel [надел, nadel] era uma forma específica de loteamento da terra e de exploração da força de trabalho dos camponeses.

[6] A expressão “terras cortadas” [отрезные земли] designava uma forma específica de expropriação feita pelos senhores proprietários de terra e pelo Estado russo após o fim da servidão em 1861, tornando recursos naturais importantes para a vida dos camponeses propriedade privada do senhor. “Quando da emancipação, cortaram dos camponeses terras que lhes eram necessárias, cortaram prados, pastagens, cortaram bosques, cortaram bebedouros para o gado”, explica Lênin em Aos pobres do campo.

[7] O termo em russo, “хитровцев” (“khitrovtsev”), faz referência à Praça Khitrovskaia de Moscou, onde havia um mercado de carnes e verduras, chamado Khitrov, frequentado pelas classes populares. Na década de 1860, Khitrovka, como ficou conhecida a região moscovita, tornou-se um grande centro mercantil de força de trabalho não qualificada, atraindo camponeses desempregados que procuravam ganhar a vida na cidade grande. Os relatos dão conta de multidões de desempregados à espera de patrões que vinham de toda a Rússia para recrutá-los. Muitos deles não conseguiam encontrar trabalho, estabelecendo-se permanentemente naquela região degradada. A praça tornou-se um abrigo para condenados fugidos, indivíduos arruinados e outras pessoas em dificuldades. No entorno da praça surgiram pensões, bordéis e bares que, de alguma forma, abrigavam essa população. Há menções de uma ou duas gerações de pessoas que nasceram e cresceram na Praça Khitrovskaia. São esses camponeses pobres em busca de trabalho e habitantes dessa região que o termo pejorativo “khitrovstas” passou a designar.


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