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L. N. Tolstói e sua época

por V. I. Lênin


Imagem: Prokudin-Gorski


Com o presente texto, chegamos ao fim da série em que buscamos revisar e divulgar as traduções dos escritos de Lênin sobre Tolstói. Tal como todos os textos anteriores, sua primeira tradução para a língua portuguesa, também de Eneida de Morais, foi feita com base na tradução francesa de Jean Fréville (Trechos escolhidos sobre literatura e arte: Marx, Engels, Lenin e Stalin. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1945). Partindo de tal versão em português, e comparando com as versões em espanhol (Lenin, V. I. Obras completas. Tomo XX, Moscou: Progreso, 1983, p. 106-110) e em inglês (Lenin, V. I. Collected Works. Vol. 17, Moscou: Progress Publishers, 1974, p. 49-53), realizamos consultas ao original russo, através das Obras Completas de Lênin, sempre buscando restabelecer o sentido de alguns elementos como termos, palavras e ideias que o texto prece ter perdido pela tradução indireta feita para o português.


Revisão de tradução por Pedro Badô.

Revisão textual por Wesley Sousa.


A época a qual pertence L. Tolstói, que está refletida com tanto relevo em suas geniais obras literárias e em seus ensinamentos, é aquela compreendida entre 1861 e 1905. É verdade que a atividade literária de Tolstói começou antes e terminou depois desse intervalo de tempo, mas L. Tolstói se formou definitivamente como escritor e como pensador precisamente nesse período, cujo caráter transitório deu origem a todos os traços distintivos das obras de Tolstói e do “tolstoísmo”.


Através de K. Liévin [1], L. Tolstói expressou em “Anna Kariênina [2], com muita vivacidade, a natureza da transformação ocorrida na história da Rússia durante aquele meio século.

“(...) conversas sobre agricultura, colheitas, trabalhadores assalariados e tudo o mais que, Liévin sabia, era de bom-tom considerar como algo muito rasteiro, mas que agora lhe parecia o único assunto importante. ‘Talvez não fosse o mais importante no tempo da servidão, nem seria importante na Inglaterra. Em ambos os casos, as condições estavam perfeitamente estabelecidas; mas entre nós, na Rússia, agora, quando tudo se pôs em desordem e apenas se esboça uma organização, a única questão importante é como essas condições irão se configurar’, pensava Liévin.” (Obras, v. X, p. 137)


“Na Rússia, agora, quando tudo se pôs em desordem e apenas se esboça uma organização”. É difícil imaginar uma caracterização mais adequada do período de 1861-1905. O que “se pôs em desordem” é familiar ou, pelo menos, bem conhecido de todos os russos. O que “se pôs em desordem” foi a servidão e toda a “velha ordem” que a ele correspondia. Aquilo que apenas “esboça uma organização” é completamente desconhecido, alheio e incompreensível para amplas massas da população. Tolstói concebeu essa ordem burguesa, que apenas “esboça uma organização”, de maneira vaga, na forma de um espantalho: a Inglaterra. Precisamente um espantalho porque Tolstói rejeita, por princípio, por assim dizer, todo intento de explicitação das características fundamentais do regime social dessa “Inglaterra”, a vinculação entre esse regime e a dominação do capital, com o papel desempenhado pelo dinheiro, com o surgimento e o desenvolvimento das trocas. Assim como os naródniki [3], ele se recusa a ver, fechava os olhos, rejeitava a ideia de que o regime do qual “apenas se esboça uma organização” na Rússia é, precisamente, o regime burguês e nenhum outro.


É verdade que, se não a “única questão importante”, certamente era uma das mais importantes do ponto de vista das tarefas imediatas de toda a atividade social e política na Rússia do período de 1861-1905 (e também de nossa época), a de “que organização” esse regime assumirá, esse regime burguês que tomava formas muitos diferentes na “Inglaterra”, na Alemanha, na América, na França, etc. Porém, essa abordagem tão clara e historicamente concreta da questão é algo absolutamente estranho para Tolstói. Ele pensa em abstrato, reconhece apenas o ponto de vista dos princípios “eternos” da moral, das verdades eternas da religião, sem compreender que esse ponto de vista é apenas um reflexo ideológico do velho regime (posto “em desordem”), do regime de servidão, do modo de vida dos povos orientais.


Em Lucerne (obra escrita em 1857), Tolstói afirma que considerar a “civilização” como um bem é uma “concepção imaginária”, que “destrói a necessidade instintiva, a mais bem-aventurada necessidade primitiva de praticar o bem que sente a natureza humana”. “Temos um único guia infalível” – exclama Tolstói – “o Espírito Universal, do qual somos impregnados” (Obras, II, 125).


Em A escravidão dos nossos tempos (obra escrita em 1900), repetindo com mais entusiasmo esses apelos ao Espírito Universal, afirma que a economia política é uma “falsa ciência” porque toma como “modelo” a “pequena Inglaterra, onde as condições são as mais excepcionais”, em vez de tomar como modelo “a condição dos homens do mundo inteiro em todas as épocas históricas”. O “mundo inteiro” nos é revelado no artigo O progresso e a definição de educação (1862). A concepção dos “historiadores”, de que o progresso é uma “lei geral para a humanidade”, é refutada por Tolstói ao fazer referência a “tudo o que se conhece como Oriente” (IV, 162). “Não existe uma lei geral do progresso da humanidade” – afirma Tolstói – “e isso se comprova pela imobilidade dos povos do Oriente”.


O tolstoismo, em seu real conteúdo histórico, é uma ideologia de um regime oriental, um regime asiático. Daí o ascetismo, a não resistência ao mal por meio da violência, as profundas notas de pessimismo, a convicção de que “tudo é nada, tudo é… nada material” (Do sentido da vida, p. 52) e a fé no “Espírito”, “princípio de tudo”, em relação ao qual o homem é apenas um “trabalhador” “aplicado à tarefa de salvar sua alma”, etc. Tolstói é fiel a essa ideologia em A sonata de Kreutzer, quando diz que “a emancipação da mulher não está nas escolas, nem nos parlamentos, mas sim no quarto de dormir” [4], e em um artigo escrito em 1862, em que declara que as universidades preparam unicamente “liberais enfezados e doentes”, que “não têm nenhuma utilidade ao povo”, os quais, “inutilmente arrancados de seu contexto em que se formaram”, “não encontram um lugar na vida”, etc. (IV, 136-137).


O pessimismo, a não resistência, o apelo ao “Espírito”, constituem uma ideologia que surge, inevitavelmente, em uma época em que todo o velho regime “se pôs em desordem” e em que a massa, criada sob esse velho regime, que sorveu, junto do leite materno, os princípios, os costumes, as tradições e as crenças desse regime, não vê e nem pode ver qual é o novo regime que “esboça uma organização”, quais forças sociais o fazem se “organizar” e como o fazem, quais forças sociais podem trazer a libertação dos sofrimentos inumeráveis e extraordinariamente graves, próprios das épocas de “agitações”.


O período de 1862-1904 foi, precisamente, um período de agitações na Rússia, um período em que o velho regime colapsava, definitivamente, a olhos vistos e em que o novo regime apenas esboçava uma organização; as forças sociais que faziam esse novo regime se organizar manifestaram-se pela primeira vez, em nível nacional, por meio de uma ação aberta de massas, em diversos campos, apenas em 1905. E os acontecimentos de 1905 na Rússia foram sucedidos por acontecimentos análogos em vários países desse mesmo “Oriente”, o qual Tolstói havia atribuído certa “imobilidade” em 1862. O ano de 1905 marcou o começo do fim do imobilismo “oriental”. Precisamente por isso, esse ano marca o fim histórico do tolstoismo, o fim daquela época que possibilitou e tornou inevitável o surgimento dos ensinamentos de Tolstói, não como algo individual, não como um capricho ou um modismo, mas sim como ideologia que emerge das condições de vida sob as quais se encontravam, efetivamente, milhões e milhões de viventes durante o decorrer de certo tempo.


As ideias de Tolstói são, sem dúvida alguma, utópicas e, em seu conteúdo, reacionárias, no sentido mais preciso e mais profundo da palavra. Mas isso, certamente, não significa que essas ideias não sejam socialistas ou que elas não contenham elementos críticos capazes de fornecer um valioso material para instruir as classes avançadas.


Há vários tipos de socialismo. Em todos os países onde predomina o modo de produção capitalista, há um socialismo que expressa a ideologia da classe que deve ocupar o lugar da burguesia e há um socialismo que expressa a ideologia das classes que deverão ser substituídas pela burguesia. O socialismo feudal, por exemplo, corresponde a esse último tipo, o qual teve suas características, junto de outros tipos de socialismo, analisadas há algum tempo, há mais de setenta anos, por Marx [5].


Além disso, há elementos críticos intrínsecos aos pensamento utópico de Tolstói, assim como em muitos sistemas teóricos utópicos. Porém, não se deve esquecer da constatação fundamental de Marx de que a importância dos elementos críticos do socialismo utópico “está em razão inversa com o desenvolvimento histórico”. Quanto mais a atividade do conjunto de forças sociais, que “esboça [a] organização” da nova Rússia e que traz a eliminação dos atuais males sociais, se desenvolve e assume um carácter mais concreto, mais rapidamente o socialismo crítico-utópico “perde todo o valor prático e toda a justificação teórica”.


Há um quarto de século, os elementos críticos do pensamento de Tolstói podiam ter, por vezes, utilidade prática para certas camadas da população, apesar dos traços reacionários e utópicos do tolstoismo. No decorrer dos últimos anos, por volta da última década, não ocorreu o mesmo, pois o desenvolvimento histórico demonstrou considerável progresso entre a década de 1880 e o fim do século passado. Nos dias de hoje, depois que muitos dos acontecimentos mencionados anteriormente puseram fim ao imobilismo “oriental”; nos dias de hoje, quando as ideias conscientemente reacionárias dos Viekhi [6] – reacionárias no sentido da estreiteza de classe, de uma classe egoísta – foram amplamente difundidas entre a burguesia liberal e contaminaram também parte dos pretensos marxistas, criando a tendência “liquidacionista”; nos dias de hoje, toda a tentativa de idealizar o pensamento de Tolstói, de justificar ou suavizar sua “não resistência”, seus apelos ao “Espírito”, suas incitações ao "autoaperfeiçoamento moral”, suas teorias da “consciência” e o “amor” universal, sua pregação do ascetismo e do quietismo, etc., é um dano muito direto e muito profundo.


Zvezdá, nº 6, 22 de janeiro (4 de fevereiro, no calendário gregoriano) de 1911.

 

Notas:

[1] Konstantin Dmítritch Liévin, personagem de Anna Kariênina notadamente inspirado no próprio autor, não apenas expressa características pessoais, como também dá voz a questões teóricas – como o problema da terra e da produção rural russa – do próprio Tolstói.

[2] Tradução de Rubens Figueiredo. Cf. Tolstói, L. Anna Kariênina. São Paulo: Cosac & Naify, 2009

[3] O narodnismo [narodnichestvo] é conhecido nas traduções para o português como a corrente política dos “populistas” russos

[4] Ao se referir ao ascetismo, ao pessimismo e à não resistência de Tolstói, Lênin cita aqui um trecho do romance A sonata de Kreutzer que, tanto no texto em inglês como no texto em espanhol, tem um sentido muito próximo de “a emancipação da mulher não está nas escolas, nem nos parlamentos, mas sim no quarto de dormir” [“the emancipation of woman lies not in colleges and not in parliaments, but in the bedroom”]. No entanto, na mais recente edição brasileira de A sonata de Kreutzer – traduzida por Boris Schnaiderman –, encontramos o trecho vertido da seguinte maneira: “Libertam a mulher nas escolas e nos parlamentos, mas olham-na como um objeto de prazer”. Assim, é preciso esclarecer que, conhecendo um pouco tanto do “tolstoísmo”, como do pensamento leniniano, nos parece que o que Lênin destaca nesse trecho é o ceticismo de Tolstói em relação à luta política. Neste mesmo romance encontramos a afirmação de que “libertam a mulher, concedem-lhe toda espécie de direitos, iguais aos do homem, mas continuam a ver nela um instrumento de prazer, e assim a educam na infância e, depois, por meio da opinião pública. E eis que ela continua sendo a mesma escrava humilhada e pervertida, e o homem o mesmo senhor pervertido de escravos”. Segundo Tolstói, a libertação da mulher se dá através do celibato, e se inicia no âmbito estrito da conduta individual. “Ginásios e escolas superiores não podem alterar isso. Pode mudá-lo unicamente a modificação do modo pelo qual o homem olha a mulher, e pelo qual ela mesma se olha. Isto se modificará unicamente quando a mulher passar a considerar a condição de virgem como a mais elevada, e não como agora, quando a condição mais alta de uma pessoa considera-se uma vergonha, um opróbrio” (Tolstói, L. A sonata de Kreutzer. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 50-51).

[5] Daqui em diante, Lênin se refere ao Manifesto do Partido Comunista. Marx, K.; Engels. F. Selected Works, Vol. I, Moscou, 1958, p.21-64. (Nota dos tradutores de língua espanhola e inglesa).

[6] Os Viekhi – também conhecidos pelo título em inglês Landmarks ou Signposts – é uma coleção de ensaios publicada pela primeira vez em Moscou na primavera de 1909. Segundo o próprio Lênin, os Viekhi são uma “conhecida compilação feita pelos mais influentes ensaístas kadetes [constitucional-democratas]” – como Berdiaev, Bulgakov, Gershenzon, Izgoev, Kistiakovski, Struve e Frank –, que “foi recebida com entusiasmo por toda a imprensa reacionária e constitui um autêntico símbolo da época”. Os artigos tentavam colocar em questão as tradições democráticas revolucionárias do movimento popular russo, os pensadores como Belinski, Dobroliubov, Tchernishevski e Pisarev e o movimento revolucionário de 1905. Uma análise de Lênin sobre os Viekhi pode ser encontrada em Acerca de Veji, in: Obras completas. Tomo XVI, Madrid: Akal, 1977, p. 119-127.

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