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Má-sorte: Ideologia das catástrofes


Imagem: DÜRER, Albrecht. Apocalipse: adoração do cordeiro e hino dos eleitos. 1496-1498. Xilogravura.


Mais um ano se inicia com catástrofes naturais estampando os jornais. Este recém-chegado 2022 já conta com milhares de famílias desabrigadas em razão das chuvas; suas casas tomadas pelas enchentes ou soterradas por deslizamentos nas encostas. A moderna meteorologia de institutos como o Climatempo, e até da Defesa Civil, permite uma previsibilidade de catástrofes como essas com até quinze dias de antecedência (1). Os gestores do capital, porém, se adiantam ideologicamente em sua apologia velada: ora, que podem fazer frente às forças caóticas e incontroláveis da natureza quando, em todos os anos, são enfrentados problemas obscuramente semelhantes em períodos misteriosamente iguais? Enxugar as ruas com mortalhas e aos sobreviventes deixar que sejam livres como mandam seus deuses, assim terão a capacidade de se recompor em meio à ascensão dos preços das necessidades básicas de consumo, podem, inclusive, trilhar grande carreira militar no exército de famélicos que recruta com avidez singular em nossa história recente.

A palavra de ordem do momento é má-sorte. Ora, parece injusto tratar o discurso adversário com tamanha simplicidade; mas se trata precisamente do termo utilizado pelo Sr. Schymura na primeira coluna da primeira edição do Valor Econômico deste mês. O renomado pesquisador do FGV Ibre externaliza suas exímias reflexões em meio tão relevante acerca dos últimos anos de caos, ou “[nova] década perdida” como consentiram os ideólogos do capital em meados de 2020 (cláusula esta que assina o colunista). O Sr. Schymura se preocupa com a má-sorte da economia brasileira de enfrentar, em momento de “fim do superciclo das commodities” um extenso período de estiagem, seguido da pandemia de Covid-19, acrescentando, no ápice de sua brilhanteza, a dificuldade de neutralizar uma onda de má-sorte no Brasil que, em meio à tamanha má-sorte, ainda se dá ao luxo de tomar decisões políticas questionáveis. Inauguremos, pois, extensas monoculturas de trevos-de-quatro-folhas e decepemos os pés de todos os coelhos!

Os Ilustríssimos Porta-Vozes do Capital parecem encarar com tamanha tranquilidade seus “adversários”, de fato. Sequer parece ser necessário justificar tamanha deterioração nas condições de vida dos brasileiros; não enxergam ameaça ou obstáculo em seu horizonte, caminhando a passos largos para o abismo. Se a humanidade coloca em xeque sua própria condição de existência ao transformar o planeta de forma tão caótica e destrutiva, há de se falar que esta é a única forma de desenvolvimento social possível. Daí segue toda forma de apriorismo dos apologetas da burguesia: seja a inconciliabilidade das contradições sociais e suas respectivas tensões, afinal, chegamos na forma mais acabada de sociedade, onde sua atenuação se coloca no máximo do alcançável – pregando desesperadamente o desenvolvimento capitalista sustentável™ como última carta na manga; seja o reconhecimento da contradição externa, em conjunto à resignação frente à “inescapável essência humana”.

Em qualquer das opções, os ideólogos do capital, ou, como são popularmente conhecidos, os especialistas, necessitam de negar todo o desenvolvimento histórico humano. Ora, a história humana é precisamente a progressiva superação de barreiras naturais. Em potência, a humanidade já criou formas possíveis de, ao invés de ser dominada pelas forças da natureza, tê-las como aliadas no desenvolvimento. O homem não existe senão objetivamente, a natureza não pode ser vista como uma inimiga com a qual é preciso travar batalhas perdidas, mas sim como uma condição de existência, podendo, ou não, ser aproveitada se bem investigada em suas próprias determinações.

O Sr. Schymura, como os demais especialistas, necessita, no entanto, que toda a capacidade humana de antever, intervir e remediar os problemas vivenciados seja apagada face à conjuntura, de modo que reste não mais que seu cínico fatalismo como resolução. Se, a ferro e fogo, com o sangue e suor de homens e mulheres sacrificados para investigar os meios naturais e, com isso, criar maneiras de controlá-los e utilizá-los a nosso proveito, a humanidade pôde ter a seu favor formas de superar as barreiras naturais, percebe-se que, no momento de evidente decadência desta forma de produção social, esta potencialidade serve meramente ao processo de reprodução ampliada do capital. Enquanto se discute a colonização de Marte, a vida de milhões passa por insegurança na Terra; enquanto se discute a mineração de asteroides, não há preocupação com a construção de barragem de rejeitos de mineração – esta, por sua vez, terrestre – que não tenha risco provável de ruptura.

Se uma vez o velho mouro afirmou assertivamente que ao transformar a natureza o homem transforma a sua própria natureza, vê-se como esta transformação em meio às forças destrutivas capitalistas aviltam os homens a ponto de normalizar condições de vida cada vez mais degradadas e ameaçadoras, e a elas se habituar (2) – de forma que um elemento tão básico à existência humana, como é o ciclo de chuvas, é afetado a ponto de ser temido quando o novo ano dá suas não tão boas-vindas.

Os apologetas do fim do mundo não se furtam de espalhar a palavra de seus deuses. Erguem templos ao deus mercado e à sua mão invisível, cultuando secretamente, nas catacumbas da Praça Antonio Prado, o Estado. Está formada a santíssima trindade! Fato é que a tão complexa categoria da “má-sorte” permite ao Sr. Schymura e ao Sr. Bráulio Borges (irmãos de fé e de cátedra) – bem como aos seus pares entorpecidos pela forma-dinheiro – negarem a ação humana em benefício destas forças supostamente autônomas, ora negando, em primeiro plano, a administração política do capital como atividade real que exercem junto ao comitê de negócios da burguesia, ora a afirmando como ação restringida senão por forças externas.

A questão reside, porém, não na má-sorte – tampouco na Nova Matriz Econômica (NME), como afirmam os ditos opositores destes ideólogos nos corredores da FGV – senão nas limitações próprias da administração política e, portanto, na ação de classe dos agente da burguesia, bem como nas determinações próprias deste demiurgo cabisbaixo e renegado, mas cuja onipresença é inegável e reverenciada: o Estado. O comitê gestor dos negócios burgueses é pedra fundamental para a garantia dos lucros; frente às catástrofes a escolha é clara, independente da matiz ideológica que possa apresentar: a efetiva ação administrativa não é evitá-las, a menos que os estilhaços deste explosivo firam a jugular ou a coronária do mercado e de suas veias escorra todo o lucro.

A mão invisível desceu dos céus e aos exímios apóstolos, lhes ensinou a falar em línguas, ordenando: “ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos" (3). O Sr. Schymura não ignora, mas mistifica a relação fundamental entre o capital e as consecutivas tragédias, dentre as quais as que presenciamos. Ora, há de se autonomizar cada aspecto dos processos, visto que nada seriam dos negócios se não houvesse fiador confiável e não pode a administração política do capital dar respostas honestas às mortes causadas por sua atividade mesma. Assim, a negação destes meios se torna sua apologia indireta, reencenando anualmente a série de desgraças que assola, preferencialmente, aos trabalhadores e, coincidentemente, não afeta os lucros senão para ampliá-los no financiamento da reconstrução.

Resta convencer aos mortos de que os sete palmos sob a lama em que foram enterrados se deram em prol de suas próprias vidas. Exumados, no entanto, talvez se lhe cobrem a devolução do dracma de Caronte.


Notas

  1. Sobre a previsibilidade das catástrofes e a capacidade de antecedência, ver: https://brasil.estadao.com.br/blogs/estadao-podcasts/estadao-noticias-as-mortes-evitaveis-nas-tragedias-pelas-chuvas/

  2. Por que nos diz tanto a célebre citação de Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”? Por que viver é tão perigoso? Esta forma de compreender a vida cotidiana de nossos tempos é precisamente oriunda de uma condição de ausência de controle dos meios de produção de nossas próprias vidas. Mas, ainda assim, é uma condição própria de um período histórico, própria de uma sociabilidade fundada no estranhamento do homem frente à seu mundo, frente às suas condições, frente à natureza; condição esta capaz de ser superada, afinal, existe potencialidade de controle do que é tomado, apologética ou resignadamente, como essencialmente incontrolável.

  3. Mt 28, 19

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