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Não existe isso de “civilização ocidental”


Tradução e nota introdutória por Pedro Viana (Mestrando em História Global pela UFSC)

Para os atentos leitores latino-americanos e os demais do chamado Sul Global (aí incluídos africanos e asiáticos) o que se chama de “civilização ocidental” pode ser algo estranho aos olhos, apesar de familiar aos ouvidos. E justifico: o que se chama de civilização ocidental no Sul Global é um caleidoscópio disforme de ideias e práticas trazidas pela expansão europeia, seja pela Conquista da colonização ou seja pelas mais diversas interferências políticas, militares e econômicas promovidas pelas grandes potências do Atlântico Norte. Contudo, isso nos leva a uma enorme questão de fundo para entender como isso foi possível. O que é o ocidente?

Se para alguns tecnicistas a resposta pode ser um simples “tudo que está ao oeste do meridiano de Greenwich”, porém, aí questionamos: não é a Europa continental um dos melhores exemplos de ocidente por excelência? A pura e simples localização geográfica não é o determinante usado por pensadores de diversas áreas. Um exemplo atualíssimo explicita a complexidade do termo ocidente. O atual conflito entre Rússia e Ucrânia em diversos momentos parece ser cada vez mais uma guerra do Ocidente contra a Rússia e da Rússia contra o Ocidente. Mas não é a Rússia parte constituinte do que convencionamos chamar de Europa/Ocidente (inclusive, ocupando 40% do território daquele continente)? Não faz a Rússia parte da grande esfera cristã e branca? Em grande parte sim, mas não no todo.

Para os defensores do que chamamos de Ocidente, o mesmo é um conjunto de valores e práticas, de estética e organização social, de arranjos políticos e comportamentos de sujeitos e grupos. Se formos analisar historicamente a ideia do que hoje chamamos de Ocidente têm raízes mais fortes na religião e na política do que na raça e na geolocalização. Para o intelectual Edward Said (1935 - 2003) o Ocidente seria uma negativa daquilo que se concebe como Oriente. Ainda no mesmo gradiente, o autor argumenta que o Ocidente criou a sua antítese, o Oriente, para definir a si mesmo como a negação de tudo que seria oriental. Um processo inicialmente organizado na brutal reação da cristandade à expansão e consolidação da religião islâmica, que hoje chamamos de Cruzadas (um movimento permanente de assédio militar, político e religioso de forças cristãs europeias contra sociedades islâmicas, entre os séculos XI e XIII. Atualmente historiadores debatem uma radicalização das visões islâmicas após as Cruzadas em grande parte como reação à estas), mas que também têm raízes nas interações entre o mundo greco-romano e suas contrapartes mais ao sul e leste (Pérsia, Egito, China, Índia, etc.), mas também no sentido norte (os diversos povos eslavos, germânicos e túrquicos dentro e fora da esfera imperial).

Se pensarmos na contemporaneidade, existem argumentos que de fato definem o Ocidente muito além da geografia. Aí estaria a Europa (excluindo a Rússia, Turquia e os Balcãs) e a América do Norte (EUA e Canadá) por excelência. Mas também Austrália, Israel, Nova Zelândia, Japão e, quando muito Coréia do Sul. Isso por causa do compartilhamento de valores, estética, organização social (aqui incluídos papéis de gênero, família, etc.) alinhamento geopolítico, religião, cultura, língua, raça e, para Sebastian Conrad (1966 - presente), também o entrelaçamento histórico e o uso da memória social.

Pensando nessa definição mais comum de Ocidente, se faz forte o pensamento de que alguns dos principais valores defendidos pelas bandeiras ocidentais não se configuram regra, existindo exceções em diversos casos. Apenas para fins de exemplo, podemos citar que os ideais ocidentais de liberdade e igualdade ocidental não inibiram o surgimento da escravidão negra, indígena e asiática nos EUA e Israel e seus racismos tão exacerbados que poderiam ser comparados às sociedades de castas às quais buscam se opor (ao menos na arena do discurso). Outro exemplo pode ser conferido às práticas políticas japonesas que historicamente foram diametralmente opostas ao valor democrático do ocidente.

No ano de 2016, quando da saída da Grã-Bretanha da União Europeia no chamado Brexit, uma velha ideia das tradicionais classes políticas de alguns países oriundos do falecido Império Britânico apoiaram a criação de uma confederação de Estados sob o argumento principalmente econômico mas também histórico-cultural de um suposto ocidente anglófono. Quais seriam estes? Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e Nova Zelândia (a sigla proposta para essa confederação é CANZUK). Destes, apenas dois estão na região geográfica ocidental e apenas um na Europa, coração do dito ocidente. Mas por que não foram sugeridos outros países que fizeram parte do Império e apresentam perspectivas ainda melhores de crescimento econômico como Nigéria, Cingapura e Índia? Os críticos dessa proposta argumentaram que os discursos favoráveis a tal confederação apenas maquiavam as verdadeiras intenções de seus proponentes: esconder o declínio econômico e ideológico da Grã-Bretanha, dar fôlego ao saudosismo imperial e unir apenas os países do antigo Império Britânico que são de maioria branca e cristã e se encaixam melhor no conceito de democracia liberal ocidental.

De qual maneira explicar a massificação do conceito de civilização cristã ocidental elaborado pelo intelectual espanhol Miguel de Unamuno (1864 - 1936) sem passar por essa longa percepção do uso de valores como liberdade (para um grupo), propriedade (privada), religião (cristã), raça (branca), economia (auto regulada), sistema político (liberal) e cultura (erudita eurocentrada)? O mesmo Miguel de Unamuno, basco de nascença e defensor cultural das minorias espanholas, não exitou em apoiar o golpe do general Francisco Franco que mergulhou os campos descritos por Miguel de Cervantes (1547 - 1616) em O Dom Quixote com sangue de seus compatriotas. Unamuno, cabe lembrar, faleceu pouco depois do início da Guerra Civil e seus valores de liberdade e racionalidade foram facilmente transplantados pelo fascismo falangista e a brutalidade de Franco. O que talvez Unamuno jamais tenha admitido em vida é que a sua defesa da integridade nacional espanhola, da religião cristã, da raça branca e do imperialismo europeu deram munição para as armas dos teóricos que justificaram regimes fascistas atrozes no Ocidente que, no caso espanhol, foram responsáveis, inclusive, pelo massacre de seu próprio povo basco.

Apesar de não se deter especificamente nas interações das sociedades ditas ocidentais com suas contrapartes, Kwame Anthony Appiah (1954 - presente) em artigo de 2016 para o jornal britânico The Guardian trouxe à cena o uso dos valores ocidentais como uma alternativa para a humanidade tendo em vista um presente e futuro compartilhado em escala global. Appiah é nascido em Gana, sendo filho de um nobre ganês com uma atriz aristocrata britânica, passou grande parte da sua vida entre Accra e Londres e atualmente é presidente da Academia Americana de Artes e Letras dos EUA. Tendo uma biografia que em si mesma demonstra a complexidade das relações humanas contemporâneas, Appiah busca fazer um recuo para compreender a criação do ocidente e um avanço propositivo em direção ao futuro humano. Para ele, a alternativa de futuro humano não passa pela imposição unilateral dos valores ocidentais por meio da dominação ideológica como se fez até hoje. Appiah propõe uma rede capaz de inserir e aprimorar valores do Ocidente tendo em vista uma característica que parece há muito perdida pelos ideólogos ocidentais: o aprendizado e a melhoria de um intercâmbio de ideias com outras formas de pensar de sociedades fora do chamado Ocidente.

Uma verdadeira prática de alteridade que, apesar de, por muito tempo, intencionalmente apagada dos manuais de História do pensamento ocidental, foi o que possibilitou a formulação própria de uma ideia de ocidente. Tendo isso em mente o autor dispara: Não há ocidente exatamente por suas bases históricas não serem ocidentais, exatamente pela interdependência da comunidade humana de modos de se pensar coletivamente em escala planetária e não apenas em um grupo ocidental em detrimento de todo o resto (aqui podemos falar que o “resto” do mundo, isto é, o lado não ocidental, corresponde a cerca de mais de 80% da população e das massas de terra mundiais). O tanto que os intelectuais ocidentais se debruçaram sobre a tentativa de elucidar o que é o ocidente e quais são os seus símbolos definidores é uma pista da própria fragilidade do conceito de ocidente que, longamente reiterado, deve ser repetido para que as pessoas não se esqueçam que ele existe simplesmente para disfarçar a sua não existência.

Segue abaixo o artigo Não existe isso de civilização ocidental, de Kwame Anthony Appiah na íntegra:

"NÃO EXISTE ISSO DE CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL"

Como muitos ingleses que sofriam de tuberculose no século 19, Sir Edward Burnett Tylor viajou para o exterior por indicação médica, em busca do ar mais seco das regiões mais quentes. Tylor veio de uma próspera família de negócios Quaker, então ele tinha recursos para uma longa viagem. Em 1855, com 20 e poucos anos, ele partiu para o Novo Mundo e, depois de fazer amizade com um arqueólogo quaker que conheceu em suas viagens, acabou cavalgando pelo interior do México, visitando ruínas astecas e pueblos empoeirados. Tylor ficou impressionado com o que chamou de “a evidência de uma imensa população antiga”. E sua estada no México despertou nele um entusiasmo pelo estudo de sociedades distantes, antigas e modernas, que durou pelo resto de sua vida. Em 1871, ele publicou sua obra-prima, Primitive Culture, que pode reivindicar ser o primeiro trabalho da antropologia moderna.

Primitive Culture era, em alguns aspectos, uma desavença com outro livro que tinha “cultura” no título: Culture and Anarchy, de Matthew Arnold , uma coletânea lançada apenas dois anos antes. Para Arnold, a cultura era a “busca da nossa perfeição total por meio do conhecimento, em todos os assuntos que mais nos interessam, do que de melhor se pensou e disse no mundo”. Arnold não estava interessado em nada tão restrito quanto o conhecimento de classe: ele tinha em mente um ideal moral e estético, que encontrava expressão na arte, na literatura, na música e na filosofia.

Mas Tylor pensou que a palavra poderia significar algo bem diferente e, em parte por razões institucionais, ele percebeu que sim. Tylor acabou sendo nomeado para dirigir o Museu da Universidade de Oxford e, em 1896, foi nomeado para a primeira cadeira de antropologia de lá. É a Tylor mais do que a qualquer outra pessoa que devemos a ideia de que a antropologia é o estudo de algo chamado “cultura”, que ele definiu como “aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, artes, moral, lei, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. A civilização, como Arnold a entendia, era apenas um dos muitos modos de cultura.

Hoje em dia, quando as pessoas falam sobre cultura, geralmente é a noção de Tylor ou de Arnold que elas têm em mente. Os dois conceitos de cultura são, em alguns aspectos, antagônicos. O ideal de Arnold era “o homem de cultura” e ele teria considerado a “cultura primitiva” um oxímoro. Tylor achou absurdo propor que uma pessoa pudesse carecer de cultura. No entanto, essas noções contrastantes de cultura estão interligadas em nosso conceito de cultura ocidental, que muitas pessoas pensam que define a identidade do povo ocidental moderno. Então, deixe-me tentar desvendar algumas de nossas confusões sobre a cultura, tanto tyloriana quanto arnoldiana, do que passamos a chamar de ocidente.

Alguém perguntou a Mahatma Gandhi o que ele achava da civilização ocidental e ele respondeu: “Acho que seria uma ideia muito boa”. Infelizmente, como muitas das melhores histórias, esta provavelmente é apócrifa; mas também como muitas das melhores histórias, sobreviveu porque tem sabor de verdade. Mas minha própria resposta teria sido muito diferente: acho que você deveria desistir da própria ideia de civilização ocidental. É, na melhor das hipóteses, fonte de muita confusão e, na pior, um obstáculo para enfrentar alguns dos grandes desafios políticos de nosso tempo. Hesito em discordar até mesmo do Gandhi da lenda, mas acredito que a civilização ocidental não é uma boa ideia, e a cultura ocidental não é uma melhoria.

Uma razão para as confusões que a “cultura ocidental” gera, vem das confusões sobre o ocidente. Temos usado a expressão “ocidente” para fazer trabalhos muito diferentes. Rudyard Kipling, o poeta do império da Inglaterra, escreveu: “Oh, o oriente é o oriente e o ocidente é o ocidente, e nunca os dois se encontrarão”, contrastando a Europa e a Ásia, mas ignorando todos os outros lugares. Durante a Guerra Fria, “o ocidente” era um lado da cortina de ferro; “o oriente” era seu oposto e inimigo. Esse uso também efetivamente desconsiderou a maior parte do mundo. Frequentemente, nos últimos anos, “oeste” significa o Atlântico Norte: a Europa e suas ex-colônias na América do Norte. O oposto aqui é um mundo não ocidental na África, Ásia e América Latina – agora apelidado de “sul global” – embora muitas pessoas na América Latina também reivindiquem uma herança ocidental. Esse jeito de falar dá conta do mundo todo.

Claro, muitas vezes também falamos hoje do mundo ocidental para contrastá-lo não com o sul, mas com o mundo muçulmano. E os pensadores muçulmanos às vezes falam de maneira paralela, distinguindo entre Dar al-Islam, o lar do Islã, e Dar al-Kufr , o lar da descrença. Eu gostaria de explorar mais essa oposição. Porque os debates europeus e americanos hoje sobre se a cultura ocidental é fundamentalmente cristã herdam uma genealogia na qual a cristandade é substituída pela Europa e depois pela ideia do Ocidente. Essa identidade civilizacional tem raízes que remontam a quase 1.300 anos. Mas, para contar a história completa, precisamos começar ainda mais cedo.

Para o historiador grego Heródoto, escrevendo no século V aC, o mundo foi dividido em três partes. A leste ficava a Ásia, ao sul um continente que ele chamava de Líbia e o restante era a Europa. Ele sabia que pessoas, bens e ideias podiam viajar facilmente entre os continentes: ele próprio viajou pelo Nilo até Assuã, e em ambos os lados do Helesponto, a fronteira tradicional entre a Europa e a Ásia. Heródoto confessou estar intrigado, de fato, sobre “por que a terra, que é uma, tem três nomes, todos de mulheres”. Ainda assim, apesar de sua perplexidade, esses continentes eram para os gregos e seus herdeiros romanos as maiores divisões geográficas significativas do mundo.

Mas aqui está o ponto importante: não teria ocorrido a Heródoto pensar que esses três nomes correspondiam a três tipos de pessoas: europeus, asiáticos e africanos. Ele nasceu em Halicarnasso - Bodrum na Turquia moderna. No entanto, nascer na Ásia Menor não fazia dele um asiático; isso o tornou um grego. E os celtas, no extremo oeste da Europa, eram muito mais estranhos para ele do que os persas ou os egípcios, sobre os quais ele sabia bastante. Heródoto usa a palavra “europeu” apenas como adjetivo, nunca como substantivo. Por um milênio depois de sua época, ninguém mais falou dos europeus como um povo.

Então, a geografia que Heródoto conhecia foi radicalmente reformulada pela ascensão do Islã, que irrompeu da Arábia no século VII, espalhando-se com espantosa rapidez para o norte, leste e oeste. Após a morte do profeta em 632, os árabes conseguiram em apenas 30 anos derrotar o império persa que se estendia pela Ásia central até a Índia, e arrebatar províncias do resíduo de Roma em Bizâncio.

A dinastia omíada , que começou em 661, avançou para o oeste no norte da África e para o leste na Ásia central. No início de 711, enviou um exército através do estreito de Gibraltar para a Espanha, que os muçulmanos chamavam de al-Andalus, onde atacou os visigodos que haviam governado grande parte da província romana da Hispânia por dois séculos. Em sete anos, a maior parte da Península Ibérica estava sob domínio muçulmano; só em 1492, quase 800 anos depois, toda a península estava novamente sob a soberania cristã.

Os conquistadores muçulmanos da Espanha não planejaram parar nos Pirineus e fizeram tentativas regulares nos primeiros anos de avançar para o norte. Mas perto de Tours, em 732 EC, Charles Martel, avô de Carlos Magno, derrotou as forças de al-Andalus, e esta batalha decisiva acabou efetivamente com as tentativas árabes de conquistar a Europa franca. O historiador do século 18 Edward Gibbon, exagerando um pouco, observou que se os muçulmanos tivessem vencido em Tours, eles poderiam ter navegado pelo Tâmisa. “Talvez”, acrescentou, “a interpretação do Alcorão fosse agora ensinada nas escolas de Oxford, e seus púlpitos pudessem demonstrar a um povo circuncidado a santidade e a verdade da revelação de Maomé.”

O que importa para nossos propósitos é que o primeiro uso registrado de uma palavra para europeus como um tipo de pessoa, até onde eu sei, vem dessa história de conflito. Numa crónica latina, escrita em 754 na Espanha, o autor refere-se aos vencedores da Batalha de Tours como “ europenses”, europeus. Então, simplesmente, a própria ideia de um “europeu” foi usada pela primeira vez para contrastar cristãos e muçulmanos. (Mesmo isso, no entanto, é uma simplificação. Em meados do século VIII, grande parte da Europa ainda não era cristã.)

Agora, ninguém na Europa medieval teria usado a palavra “ocidental” para esse trabalho. Por um lado, a costa do Marrocos, lar dos mouros, se estende a oeste da Irlanda. Por outro lado, houve governantes muçulmanos na Península Ibérica – parte do continente que Heródoto chamou de Europa – até quase o século XVI. O contraste natural não era entre o Islã e o Ocidente, mas entre a cristandade e o Dar al-Islam , cada um dos quais considerava o outro como infiel, definido por sua descrença.

A partir do final do século 14, os turcos que criaram o império otomano gradualmente estenderam seu domínio a partes da Europa: Bulgária, Grécia, Bálcãs e Hungria. Somente em 1529, com a derrota do exército de Solimão, o Magnífico, em Viena, teve início a reconquista da Europa oriental. Foi um processo lento. Não foi até 1699 que os otomanos finalmente perderam suas possessões húngaras; A Grécia tornou-se independente apenas no início do século XIX, a Bulgária ainda mais tarde.

Temos, então, uma noção clara da Europa cristã - a cristandade - definindo-se pela oposição. E, no entanto, a mudança da “cristandade” para a “cultura ocidental” não é direta.

Por um lado, as classes educadas da Europa cristã tiraram muitas de suas ideias das sociedades pagãs que as precederam. No final do século 12, Chrétien de Troyes, nascido a algumas centenas de quilômetros a sudoeste de Paris, comemorou essas raízes passadas: “A Grécia já teve a maior reputação de cavalheirismo e erudição”, escreveu ele. “Então a cavalaria foi para Roma, assim como todo o aprendizado, que agora chegou à França.”

A ideia de que o melhor da cultura da Grécia passou por Roma para a Europa Ocidental tornou-se gradualmente, na Idade Média, um lugar-comum. Na verdade, esse processo tinha um nome. Foi chamado de “ translatio studii ”: a transferência do aprendizado. E foi uma ideia surpreendentemente persistente. Mais de seis séculos depois, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o grande filósofo alemão, disse aos alunos da escola secundária que dirigia em Nuremberg: “A base do estudo superior deve ser e permanecer a literatura grega em primeiro lugar, a romana em segundo. ”

Assim, desde o final da Idade Média até agora, as pessoas pensaram no melhor da cultura da Grécia e de Roma como uma herança civilizacional, transmitida como uma preciosa pepita de ouro, desenterrada da terra pelos gregos, transferida, quando o império romano os conquistou, para Roma. Dividido entre as cortes flamenga e florentina e a República veneziana no Renascimento, seus fragmentos passaram por cidades como Avignon, Paris, Amsterdã, Weimar, Edimburgo e Londres, e finalmente se reuniram – remendados como os cacos quebrados de uma urna grega – nas academias da Europa e dos Estados Unidos.

Existem muitas maneiras de embelezar a história da pepita de ouro. Mas todas elas enfrentam uma dificuldade histórica; isto é, se você quiser fazer da pepita de ouro o núcleo de uma civilização oposta ao Islã. Porque a herança clássica que a identifica foi compartilhada com o aprendizado muçulmano. Na Bagdá do califado abássida do século IX, a biblioteca do palácio apresentava as obras de Platão e Aristóteles, Pitágoras e Euclides, traduzidas para o árabe. Nos séculos que Petrarca chamou de Idade das Trevas, quando a Europa cristã deu pouca contribuição ao estudo da filosofia clássica grega e muitos dos textos foram perdidos, essas obras foram preservadas por estudiosos muçulmanos. Grande parte de nossa compreensão moderna da filosofia clássica entre os gregos antigos só temos porque esses textos foram recuperados dos árabes por estudiosos europeus na Renascença.

Na mente de seu cronista cristão, como vimos, a batalha de Tours colocou os europeus contra o Islã; mas os muçulmanos de al-Andalus, por mais belicosos que fossem, não achavam que lutar por território significava que não se podia compartilhar ideias. No final do primeiro milênio, as cidades do Califado de Córdoba foram marcadas pela coabitação de judeus, cristãos e muçulmanos, de berberes, visigodos, eslavos e inúmeros outros.

Não havia rabinos e estudiosos muçulmanos reconhecidos na corte de Carlos Magno; nas cidades de al-Andalus havia bispos e sinagogas. Recemundus (em árabe Rabi ibn Sid al-Usquf), bispo católico de Elvira, foi o embaixador de Córdoba nas cortes dos impérios bizantino e romano. Hasdai ibn Shaprut, líder da comunidade judaica de Córdoba em meados do século X, não foi apenas um grande estudioso da medicina, foi o presidente do conselho médico do califa; e quando o imperador Constantino em Bizâncio enviou ao califa uma cópia da De Materia Medica de Dioscórides, ele aceitou a sugestão de Ibn Shaprut de traduzi-la para o árabe, e Córdoba tornou-se um dos grandes centros de conhecimento médico da Europa. A tradução para o latim das obras de Ibn Rushd, nascido em Córdoba no século XII, deu início à redescoberta europeia de Aristóteles. Ele era conhecido em latim como Averroes, ou mais comumente apenas como “O Comentarista”, por causa de seus comentários sobre Aristóteles. Portanto, as tradições clássicas destinadas a distinguir a civilização ocidental dos herdeiros dos califados são, na verdade, um ponto de parentesco com eles.

Mas a história da pepita de ouro estava fadada a enfrentar dificuldades. Essa história imagina a cultura ocidental como a expressão de uma essência – um algo – que foi passando de mão em mão em sua jornada histórica. As armadilhas desse tipo de essencialismo são evidentes em uma ampla gama de casos. Se você está discutindo religião, nacionalidade, raça ou cultura, as pessoas supõem que uma identidade que sobrevive através do tempo e do espaço deve ser impulsionada por alguma poderosa essência comum. Mas isso é simplesmente um erro. Como era a Inglaterra na época de Chaucer, pai da literatura inglesa, que morreu há mais de 600 anos? Pegue tudo o que você acha que era característico dela, qualquer combinação de costumes, ideias e coisas materiais que tornavam a Inglaterra caracteristicamente inglesa naquela época. O que quer que você escolha para distinguir o inglês agora, não será isso. Em vez disso, com o passar do tempo, cada geração herda o rótulo da anterior; e, a cada geração, a gravadora vem com um legado. Mas à medida que os legados se perdem ou são trocados por outros tesouros, o rótulo segue em frente. E assim, quando alguns de uma geração se mudam do território ao qual a identidade inglesa já esteve ligada – se mudam, por exemplo, para uma Nova Inglaterra – o rótulo pode até mesmo viajar para além do território. Identidades podem ser mantidas unidas por narrativas, em suma, sem essências. Você não pode ser chamado de “inglês” porque há uma essência que esse rótulo segue; você é inglês porque nossas regras determinam que você tem direito ao rótulo por estar de alguma forma conectado a um lugar chamado Inglaterra.

Então, como as pessoas do Atlântico Norte e alguns de seus parentes ao redor do mundo se conectaram a um reino que chamamos de ocidente e ganharam uma identidade como participantes de algo chamado cultura ocidental?

Isso ajudará a reconhecer que o termo “cultura ocidental” é surpreendentemente moderno – certamente mais recente do que o fonógrafo. Tylor nunca falou sobre isso. E, de fato, não tinha motivos para isso, pois estava profundamente ciente da diversidade cultural interna até mesmo de seu próprio país. Em 1871, ele relatou evidências de bruxaria na zona rural de Somerset. Uma rajada de vento em um pub havia soprado algumas cebolas assadas espetadas com alfinetes para fora da chaminé. “Um”, escreveu Tylor, “tinha o nome de um irmão magistrado meu, a quem o mago, que era o dono da cervejaria, tinha um ódio especial... e de quem aparentemente ele planejava se livrar esfaqueando e assando uma cebola representando-o.” Cultura primitiva, de fato.

Assim, a própria ideia de “ocidente”, para nomear um patrimônio e objeto de estudo, não surge realmente até a década de 1890, durante uma era aquecida do imperialismo, e ganha aceitação mais ampla apenas no século XX. Quando, por volta da época da Primeira Guerra Mundial, Oswald Spengler escreveu o influente livro traduzido como A Decadência do Ocidente – um livro que introduziu muitos leitores ao conceito – ele zombou da noção de que havia continuidades entre a cultura ocidental e a cultura do mundo clássico. Durante uma visita aos Bálcãs no final da década de 1930, a escritora e jornalista Rebecca West relatou a sensação de um visitante de que “é desconfortavelmente recente, o golpe que teria esmagado toda a nossa cultura ocidental”. O “golpe recente” em questão foi o (falido) cerco turco de Viena em 1683.

Se a noção de cristandade foi um artefato de uma luta militar prolongada contra as forças muçulmanas, nosso conceito moderno de cultura ocidental em grande parte tomou sua forma atual durante a Guerra Fria. No frio da batalha, forjamos uma grande narrativa sobre a democracia ateniense, a Magna Carta, a revolução copernicana e assim por diante. De Platão à OTAN. A cultura ocidental seria, em sua essência, individualista, democrática, liberal, tolerante, progressista, racional e científica. Não importa que a Europa pré-moderna não fosse nada disso, e que até o século passado a democracia fosse a exceção na Europa – algo sobre o qual poucos baluartes do pensamento ocidental tinham algo de bom a dizer. A ideia de que a tolerância era constitutiva de algo chamado cultura ocidental teria surpreendido Edward Burnett Tylor, que, como quaker, havia sido impedido de frequentar as grandes universidades da Inglaterra. Para ser franco: se a cultura ocidental fosse real, não gastaríamos tanto tempo falando sobre ela.

É claro que, uma vez que a cultura ocidental pudesse ser um termo elogioso, ela também se tornaria um termo de desaprovação. Os críticos da cultura ocidental, produzindo um fotonegativo enfatizando a escravidão, a subjugação, o racismo, o militarismo e o genocídio, estavam comprometidos com o mesmo essencialismo, mesmo que vissem uma pepita não de ouro, mas de arsênico.

Falar de “cultura ocidental” teve uma implausibilidade maior a ser superada. Ele coloca, no centro da identidade, todos os tipos de realizações artísticas e intelectuais exaltadas – filosofia, literatura, arte, música; as coisas que Arnold prezava e os humanistas estudam. Mas se a cultura ocidental estava presente em Troyes no final do século 12, quando Chrétien estava vivo, tinha pouco a ver com a vida da maioria de seus concidadãos, que não sabiam latim ou grego e nunca tinham ouvido falar de Platão. Hoje, a herança clássica não desempenha um papel maior na vida cotidiana da maioria dos americanos ou britânicos. São essas conquistas arnoldianas que nos mantêm unidos? Claro que não. O que nos une, com certeza, é o amplo senso de cultura de Tylor: nossos modos de vestir e de nos cumprimentar, os hábitos de comportamento que moldam as relações entre homens e mulheres, pais e filhos, policiais e civis, balconistas e consumidores. Intelectuais como eu tendem a supor que as coisas com as quais nos importamos são as mais importantes. Eu não digo que eles não importam. Mas eles importam menos do que sugere a história da pepita de ouro.

Então, como superamos o abismo aqui? Como conseguimos dizer a nós mesmos que somos herdeiros legítimos de Platão, Tomás de Aquino e Kant, quando o material de nossa existência é mais Beyoncé e Burger King? Bem, fundindo a imagem tyloriana e a arnoldiana, o reino do cotidiano e o reino do ideal. E a chave para isso era algo que já estava presente na obra de Tylor. Lembre-se de sua famosa definição: começou com a cultura como “aquele todo complexo”. O que você está ouvindo é algo que podemos chamar de organicismo. Uma visão da cultura não como um conjunto solto de fragmentos díspares, mas como uma unidade orgânica, cada componente, como os órgãos de um corpo, cuidadosamente adaptado para ocupar um lugar particular, cada parte essencial para o funcionamento do todo. O concurso de música Eurovision, os recortes de Matisse, os diálogos de Platão são partes de um todo maior. Como tal, cada um é um acervo de sua biblioteca cultural, por assim dizer, mesmo que você nunca o tenha verificado pessoalmente. Mesmo que não seja sua comida favorita, ainda é sua herança e posse. O organicismo explicava como nossos eus cotidianos podiam ser polvilhados com ouro.

Agora, existem totalidades orgânicas em nossa vida cultural: a música, as palavras, a cenografia e a dança de uma ópera se encaixam e devem se encaixar. É, na palavra inventada por Wagner, uma Gesamtkunstwerk, uma obra de arte total. Mas não existe um grande todo chamado cultura que una organicamente todas essas partes. A Espanha, no coração do “ocidente”, resistiu à democracia liberal por duas gerações depois que ela decolou na Índia e no Japão no “oriente”, lar do despotismo oriental. A herança cultural de Jefferson – liberdade ateniense, liberdade anglo-saxônica – não evitou que os Estados Unidos criassem uma república escravista e, posteriormente, fundamentada no apartheid racial. Ao mesmo tempo, Franz Kafka e Miles Davis podem viver juntos tão facilmente – talvez até mais facilmente – do que Kafka e seu compatriota austro-húngaro Johann Strauss. Você encontrará hip-hop nas ruas de Tóquio. O mesmo se aplica à culinária: os britânicos antes trocavam seu peixe com batatas fritas por frango tikka masala, agora, pelo que entendi, todos estão comendo um cheeky Nando's (rede de restaurantes fast-food britânicos especializada em pratos picantes com frango).

Uma vez que abandonamos o organicismo, podemos adotar uma imagem mais cosmopolita na qual cada elemento da cultura, da filosofia ou culinária ao estilo de movimento corporal, é separável em princípio de todos os outros – você realmente pode andar e falar como um afro-americano e pensar com Matthew Arnold e Immanuel Kant, bem como com Martin Luther King e Miles Davis. Nenhuma essência muçulmana impede os habitantes de Dar al-Islam de assumir qualquer coisa da civilização ocidental, incluindo o cristianismo ou a democracia. Nenhuma essência ocidental existe para impedir que um nova-iorquino de qualquer ascendência aceite o Islã.

As histórias que contamos que conectam Platão, Aristóteles, Cícero ou Santo Agostinho à cultura contemporânea no mundo do Atlântico Norte têm alguma verdade nelas, é claro. Temos tradições autoconscientes de erudição e argumentação. A ilusão é pensar que basta termos acesso a esses valores, como se fossem faixas de uma playlist do Spotify que nunca ouvimos direito. Se esses pensadores fazem parte de nossa cultura arnoldiana, não há garantia de que o que há de melhor neles continuará a significar algo para os filhos daqueles que agora olham para trás, assim como a centralidade de Aristóteles para o pensamento muçulmano por centenas de anos garante a ele um lugar importante nas culturas muçulmanas modernas.

Os valores não são um direito de nascença: você precisa continuar se preocupando com eles. Viver no ocidente, não importa como você o defina, sendo ocidental, não oferece nenhuma garantia de que você se importará com a civilização ocidental. Os valores que os humanistas europeus gostam de defender pertencem tão facilmente a um africano ou a um asiático que os adota com entusiasmo quanto a um europeu. Por essa mesma lógica, é claro, eles não pertencem a um europeu que não se deu ao trabalho de entendê-los e absorvê-los. O mesmo, é claro, é verdade na outra direção. A história da pepita de ouro sugere que não podemos deixar de nos importar com as tradições do “ocidente” porque elas são nossas: na verdade, o oposto é verdadeiro. Eles só são nossos se nos importarmos com eles. Uma cultura de liberdade, tolerância e investigação racional: seria uma boa ideia. Mas esses valores representam escolhas a serem feitas,

No ano da morte de Edward Burnett Tylor, o que aprendemos a chamar de civilização ocidental tropeçou em uma luta mortal consigo mesma: os Aliados e as Grandes Potências Centrais lançaram corpos uns contra os outros, marchando jovens para a morte a fim de “defender civilização". Os campos encharcados de sangue e as trincheiras envenenadas por gás teriam chocado as esperanças evolucionistas e progressistas de Tylor e confirmado os piores temores de Arnold sobre o que a civilização realmente significava. Arnold e Tylor teriam concordado, pelo menos, nisso: a cultura não é uma caixa a ser verificada no questionário da humanidade; é um processo ao qual você se junta, uma vida vivida com os outros.

A cultura – como religião, nação e raça – fornece uma fonte de identidade para os seres humanos contemporâneos. E, como todos os três, pode se tornar uma forma de confinamento, erros conceituais subscrevendo erros morais. Mas todos eles também podem dar contornos à nossa liberdade. As identidades sociais conectam a pequena escala onde vivemos nossas vidas ao lado de nossos amigos e parentes com movimentos, causas e preocupações maiores. Eles podem tornar um mundo mais amplo, inteligente, vivo e urgente. Eles podem expandir nossos horizontes para comunidades maiores do que aquelas que habitamos pessoalmente. Mas nossas vidas também devem fazer sentido, na maior de todas as escalas. Vivemos uma era em que nossas ações, tanto no campo da ideologia quanto no campo da tecnologia, têm cada vez mais efeitos globais. Quando se trata da bússola de nossa preocupação e compaixão, a humanidade como um todo não é um horizonte muito amplo.

Vivemos com sete bilhões de seres humanos em um planeta pequeno e em aquecimento. O impulso cosmopolita que se inspira em nossa humanidade comum não é mais um luxo; tornou-se uma necessidade. E para resumir esse credo posso contar com uma presença frequente em cursos de civilização ocidental, porque não acho que possa melhorar a formulação do dramaturgo Terence: um ex-escravo da África romana, um intérprete latino de comédias gregas, um escritor da Europa clássica que se autodenominava Terêncio, o Africano. Certa vez, ele escreveu: “ Homo sum, humani nihil a me alienum puto ”. “Eu sou humano, não acho nada humano estranho para mim.” Aqui há uma identidade que vale a pena manter.

Esta é uma versão editada da palestra de Kwame Anthony Appiah na BBC Reith, Culture, a quarta parte da série Mistaken Identities, que está disponível no site da Radio 4 e no jornal The Guardian.

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