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Os três discursos de Marx, de Maurice Blanchot


Traduzido do francês por Eduardo Galeno. A publicação original, com o título de Lire Marx, é da revista Comité (nº1, octobre, 1968), lugar em que Blanchot publicou seus panfletos. Foi reeditada em 1971, integrando o livro L’Amité (Gallimard). Todas as notas, com exceção da terceira, são do tradutor.



Em Marx, e sempre provindo de Marx, nós vemos assumir força e forma três tipos de discurso, todos os três necessários, separados e mais do que contrários: justapostos. O diferencial que os mantêm ligados constitui uma pluralidade de requisitos aos quais, após Marx, cada pessoa, falando, escrevendo, não deixa de se sentir obrigada, salvo ao se ver carente do todo.


1. — O primeiro desses discursos é direto, mas amplo. Falando nele, Marx emerge como um «escritor de pensamento», no sentido de que, surgido da tradição, [o discurso] se utiliza do logos filosófico¹, usando nomes maiores emprestados ou não de Hegel (não importa) e se desenvolve no momento da reflexão. Amplo, se toda a história do logos nele se reafirma; mas direto de registro duplo, porque não só ele tem algo a falar, mas o que ele diz é resposta, se inscreve na forma de respostas, essas respostas formalmente decisivas, dadas definitivas e que, introduzidas tais pela história, não podem tomar valor de verdade, a não ser no momento de suspensão ou de ruptura históricas. Dando resposta — a alienação, a primazia da necessidade, a história como processo da prática material, o homem total —, no entanto, ele deixa indeterminadas ou indecisas as questões às quais responde: a depender se o leitor de hoje ou o leitor de ontem formula diferentemente o que deveria acontecer em tal ausência de questão — preenchendo, assim, um vazio que deveria, antes e sempre, ser explícito —, esse discurso de Marx se interpreta tanto como humanismo, pense historicismo, tanto como ateísmo, anti-humanismo, pense niilismo.

2. — O segundo discurso é político: é breve e direto, mais que breve e mais que direto, porque ele colapsa toda fala. Ele não tem mais um sentido, mas um apelo, uma violência, uma decisão de quebramento. Ele não diz nada de modo próprio, ele é a urgência do que anuncia, ligado a uma impaciência e sempre excedente, pois o excesso é sua única medida: chamando, assim, à luta e mesmo (o que nos apressamos a esquecer) rogando o «terror revolucionário»², exigindo «a revolução permanente» e sempre designando a revolução não como uma necessidade a prazo, mas como iminência, porque é característica da revolução não permitir atraso, se ela se abre e atravessa o tempo, se doando à vida como exigência sempre presente³.


3. — O terceiro discurso é o discurso indireto (o mais amplo, portanto) da exposição científica. Em relação a isso, Marx é louvado e reconhecido pelos outros representantes do saber. Ele é, então, homem de ciência, responde à ética do estudioso, aceita se submeter a qualquer revisão crítica. É o Marx que dá como máxima: de omnibus dubitandum⁴, e declara: «Chamo "vil" um homem que procura submeter a ciência a interesses que lhe são estranhos e exteriores». Assim, O capital é uma obra essencialmente subversiva. Ela é mais porque inclui, sem formular muito, uma maneira de pensar teórica que subverte a própria ideia de ciência e menos porque levaria, pelos caminhos da objetividade científica, à necessária consequência da revolução. Nem a ciência nem o pensamento saem, em efeito, intactos do trabalho de Marx, e isso no significado mais forte, na medida em que a ciência se designa aí como transformação radical de si mesma, teoria de uma mutação sempre em jogo na prática, bem como, dentro dessa prática, mutação sempre teórica.


Não desenvolvamos mais aqui essas observações. O exemplo de Marx nos ajuda a compreender que o discurso da escrita, discurso de contestação incessante, deve, constantemente, se desenvolver e explodir em múltiplas formas. O discurso comunista⁵ é sempre tácito e violento, político e científico, direto, indireto, total e fragmentário, amplo e quase instantâneo. Marx não vive comodamente com essa pluralidade de linguagens que sempre se colidem e se disjuntam nele. Mesmo se essas linguagens pareçam convergir ao mesmo fim, elas não poderiam ser retraduzidas uma na outra, e sua heterogeneidade, a separação ou a distância que as descentram, as tornam não coevas e tais que, produzindo um efeito de distorção irredutível, obrigam aqueles que têm que sustentar sua leitura (a prática) a se submeter a uma incessante remodelação.

*


A palavra «ciência» volta a ser palavra-chave. Vamos admitir. Mas lembremos que, se há ciências, ainda não há ciência, porque a cientificidade da ciência permanece sempre dependente da ideologia, uma ideologia que nenhuma ciência particular, mesmo a ciência humana, não poderia reduzir hoje, e, por outro lado, recordemos que nenhum escritor, mesmo marxista, poderia remeter a escrita a um saber, pois a literatura (a exigência de escrever, quando toma a seu cargo todas as forças e formas de dissolução, de transformação) não se torna ciência a não ser pelo mesmo movimento que a ciência se transforma, por sua vez, em literatura, discurso inscrito, aquilo que cai sempre no «le jeu insensé d’écrire»⁶.


NOTAS:

¹ Blanchot parece utilizar, se não o mesmo, uma parecida ideia de logos que existe em Heráclito. "O pensamento é uma qualidade própria da alma, que a si mesma se multiplica".


² O termo "terror" se comporta como excessivo, que se utiliza de uma ação excessivamente para pôr em cheque dada coisa. Um exemplo pode ser dito em Sade, que deslegitimou, através da escrita, a sociedade fundamentada em valores do sistema dominante. "Le refus est absolu, catégorique" [A recusa é absoluta, categórica] (Blanchot, 1958).


³ Isso foi evidente, e de forma notável, no Maio de 68.


⁴ 'Duvidar de tudo'.


Comunismo, para Blanchot, vai além do mero político (apesar de estar imbricado diretamente em quaisquer ações e ideias que sejam referentes ao significante).


⁶ Blanchot se apropria de uma expressão de Stéphane Mallarmé, poeta francês do XIX. Sobre as figurações da escrita, recomendo ver uma nota de Walter Benjamin, Vereidigter Bücherrevisor, feita em 1926. O texto se encontra nas Obras escolhidas II – Rua de mão única, da Brasiliense, e no livro de antologia poética Mallarmé, da Perspectiva.



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