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Tolstói e a luta proletária

por V. I. Lênin


 

Tal qual o texto que abriu a série sobre Tolstói, sua primeira tradução para a língua portuguesa foi feita por Eneida de Morais para compilação de textos e trechos (Trechos escolhidos sobre literatura e arte: Marx, Engels, Lenin e Stalin. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1945) de Jean Fréville. Da mesma forma, uma segunda tradução foi feita pela Editora Avante! em Portugal (que parece ser a versão disponível em Lênin, V. I. Tolstoi, um grande artista, Portal Vermelho).

Tendo por base fundamental as duas versões em português, a partir da comparação entre a versão do texto em espanhol (Lenin, V. I. Obras completas. Tomo XX, Moscou: Progreso, 1983, p. 19-24) e em inglês (Lenin, V. I. Collected Works. Vol. 16, Moscow: Progress Publishers, 1973, p. 321-327), realizamos consultas ao texto no original russo nas Obras Completas. Reforçamos aqui que nossa proficiência no idioma russo é ainda muito débil, sendo essa mais uma tradução provisória, preocupada centralmente em retomar o sentido de alguns elementos, como termos, palavras e ideias, perdidos pelas traduções disponíveis ao público lusófono.

 

Revisão de tradução por Pedro Rocha.

Revisão textual por Wesley Sousa.

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Tolstói fustigava com enorme força e sinceridade as classes dominantes, desmascarou com grande clareza a falsidade inerente a todas as instituições que ajudam a manter sociedade contemporânea: a Igreja, os tribunais, o militarismo, o casamento “legal”, a ciência burguesa. Mas sua doutrina encontrou-se em contradição completa com a vida, o trabalho e a luta do proletariado – o “coveiro” do regime moderno.

Qual o ponto de vista que se refletiu na pregação de Tolstói? Por meio de seus lábios falava-se esta massa do povo russo, os milhões de homens que já detestam os senhores da vida moderna, mas que não tinham ainda atingido à luta consciente e consequente contra estes últimos, luta completa e implacável contra eles.

A história e o rumo da grande revolução russa demonstraram que essa foi precisamente a massa que se encontrava entre o proletariado socialista consciente e os defensores resolutos do antigo regime. Essa massa — principalmente a camponesa — demonstrou, durante a revolução, como era grande seu ódio contra o antigo estado de coisas, como sentia vivamente todo o peso do regime atual, como era vasta sua tendência espontânea para se desvencilhar desse regime e encontrar uma vida melhor.

Ao mesmo tempo, contudo, essa massa demonstrou durante a revolução que era insuficientemente consciente em seu ódio, inconsequente em sua luta, estreitamente limitada em sua procura de uma vida melhor.

 

Este grande oceano humano, agitado até às suas profundezas, com todas as suas fraquezas e todas as suas características fortes, encontrou o seu reflexo na doutrina de Tolstói.


Estudando as obras de Liev Tolstói, a classe operária russa conhecerá melhor seus inimigos, enquanto que examinando a doutrina de Tolstói, todo o povo russo deverá compreender em que consistiu sua própria fraqueza que o impediu de realizar até o fim a obra de sua libertação. Isso precisa ser compreendido para seguir em frente.

O caminho para seguir em frente está atravessado por todos aqueles que decretaram que Tolstoi é a “consciência comum”, o “senhor da vida”. É uma mentira difundida conscientemente pelos liberais desejosos de utilizar o lado contrarrevolucionário [conservador] dos ensinamentos de Tolstói. Essa mentira sobre Tolstói, “senhor da vida”, é repetida, depois dos liberais, por alguns artigos social-democratas.

O povo russo não obterá sua libertação senão quando tiver compreendido que deve aprender a lutar por uma vida melhor, não com Tolstoi, mas com a classe cuja importância Tolstoi não compreendia e que é a única classe capaz de destruir o velho mundo que Tolstoi odiava. Esta classe é o proletariado.

Fonte: LENIN, Tolstoi e a Luta Proletária, “in” Rabotchaia Gazeta (O Jornal Operário) de 18 (31) de dezembro de 1910. Obras, t. XIV, pgs. 407-408, ed. russa).

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