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Entes queridos

Fumiko Hayashi

1977


Tradução: Helena Zica


Cronista, poeta e escritora, Fumiko Hayashi, nascida em 1903, fez o que pode para viver da escrita. Mudou-se de Hiroshima para Tóquio em 1922 com intuito de se integrar ao meio literário, mas pobre e mulher teve de se contentar com a margem. Trabalhou como atendente de loja, babá, garçonete e empregada doméstica. Enquanto sustentava seu namorado homem, na sociedade japonesa em plena década de 30. Com o intuito de ser publicada em jornais e revistas da época, escreveu em grande quantidade e Entes queridos muito possivelmente é fruto desse empreendimento, publicado depois de sua morte, em 1951. Há nesse texto o que permeia toda sua obra, a pobreza, a derrota e a resiliência de uma comunidade à imposição cruel da fome. Fome causada. Pelo curso errôneo e patético do mundo e pelo curso patético da nação, guiada pelo facismo de uma classe dominante deplorável. Aqui, Fumiko retrata a classe dos derrotados lidando com a maior das derrotas, em 1945. Não à toa, abre-se o texto com as palavras de Sakutaro, “não há esperança, não há honra e não há futuro”, o que sobra será?




Mesmo se eu ficar em um campo vertiginoso e assobiar,

as garotas do eterno devaneio não virão.

Vesti a calça suja de lágrimas e

ando como um hiyojin.[1]

Não há esperança, não há honra e não há futuro;

E tudo que não consigo me livrar é do arrependimento, mas,

eu fujo dele como um rato.




O poeta Hagiwara Sakutaro[2] já não existe mais neste mundo, mas sua poesia permanece. Senzo virou a página do livro “Destino”, desse poeta, enquanto caminhava calmamente sob a fileira de ginkgo bilobas no interior da faculdade. Já se passaram dez minutos do horário combinado, mas Goro não está em lugar algum.


As grossas árvores de ginkgo parecem formar um túnel verde. Os galhos cobrem uns aos outros, dos dois lados, e há uma brisa fresca e refrescante.


De tão pouco que comia, nada sabia sobre a forma de seu estômago. A taxa de hospedagem está vencida. – Um, dois, três, também uns amigos cuja profissão foi atingida, todos de lá. “Desligamento”, consta no relatório. Além disso, assumiu Goro uma criança problemática como um pequeno barco abandonado na água. No entanto, dentro de um mundo como o de hoje, esses dois ou três amigos pensam apenas no que será de seus próprios corpos, despedaçam a vesícula, mas é o melhor que se pode fazer[3].


– Patrão!


Senzo se afastou abruptamente. Porque um humano fedendo a suor veio se aconchegar. No campus da faculdade, que está de férias, durante o dia, por não haver tráfego de pedestres é silencioso.


– Patrão!


– Está falando comigo?


– Quer um cigarro?


Fechou apressado o botão do peito. Havia duas caixas com brilho laranja diante de seus olhos. Senzo ficou vermelho, “quanto custa?”, perguntou.


– Treze ienes.


– Não tenho dinheiro nem para uma caixa.


– Que tal cinco picados?

De repente, abriu a caixa. A unha do dedo mindinho do homem era ridiculamente longa. Ao alinhar as cabeças carecas como cascalho, Senzo era desagradavelmente baixo. Procurou o bolso, e, após Senzo juntar e entregar seis ienes e cinquenta centavos em notas gastas, cinco cigarros com brilho de giz de cera fofo, o homem foi andando pelo portão principal.


O que estava deixando Goro hesitante? Olhou novamente para o relógio. Gotejou seiva de ginkgo no vidro sujo do relógio. Será que ele voltou a ficar deprimido? Ah, a dor de viver… Senzo pensou em sua barriga, que sempre chora agitada, como um sujeito irritante.


– Senzo!


Goro, correndo como um homem do riquixá, veio com ambas as mãos oscilantes.


– O que foi?


– Acabei de voltar.


– É mesmo? O que trouxe?


– Trouxe uma carta


Tirou um envelope sujo de papel kraft áspero de debaixo do quepi. Como uvas, os olhos brilhantes do garoto moveram-se redondos. Ao cortar o selo, vieram cinco notas de dez ienes.


– Bom, você não precisa mais vender esse livro, não acha?


– Fica para próxima.


– Por hora, peço que tire uma folga do ensino – Escrito brevemente na carta.


– Você disse que estava doente?


– É… falei. Ele sempre se preocupou comigo, não tinha como não falar.


– Vamos em direção a mother[4]?


– Sim


“Idiota, idiota. Você é um tutor fraco”, pensou. Senzo levou a carta ao bolso que aliciava.


– Vamos para Asakusa[5]?


– Sim.

– Consegue ir andando?


– Sem problemas.


Goro sorria abertamente e se exibiu levantando a perna bem alto. Senzo pegou um cigarro e o segurou com os lábios. Não tinha fósforos.

– Incrível…


– Acabei de comprar cinco cigarros aqui.


– Vendem cigarros neste lugar?


– Claro.


Embora satisfeitos sem comer, a juventude dos dois, pelo menos um pouco dela, não almeja o luto.


Bridge Well Sanks… Nós estamos na classe alta.


– É o que?


Já não se imaginava dentro de um mundo impiedoso, afinal, pôs a mão em cinquenta ienes. Para uma pessoa pobre, é uma situação para sorrir. Senzo ficou bem num instante.Contudo, se dessa quantia ele pagar uma pequena parte do aluguel e comer algo em Asakusa… Quantia de cinquenta ienes, com uma quantia efêmera similar, não dá para fazer mais do que isso. Senzo ficou deprimido, pensando que isso era como um pãozinho cozido no vapor para um atendente.


– Depois de virmos aqui, como esperado, vamos vender esse livro.

– Por quê?


– Você não precisa se preocupar. Até porque, você disse que o livro seria o próximo.


Primeiro, os dois saíram pelo portão principal, e andaram para a frente de uma livraria numa fileira de casas. A música da rádio, que o lembra do fluxo das águas no interior da montanha, trouxe a cor das águas brilhantes como lembrança vívida. O interior da cabeça de Goro começou a doer de tanto andar. Além disso, ficou com sede por causa do calor.

Entraram em uma pequena livraria, e trocaram o Destino de Sakutaro por algum dinheiro. Realmente, sentiu uma dor no peito quando deixou de segurar o livro, vendendo-o por alguma quantia que lhe parecia digna.


– Senzo…


– O que foi?


– Eu… Meus olhos parecem paralisados.


– Oi? Ei! Está tudo bem?!


Senzo, apressado, segurou Goro nos braços e entrou numa tenda de gelo no beco da livraria.


– Um copo de água, por favor!


Uma moça vestindo kimono com padrões azul escuro veio carregando dois copos cheios de água até a borda. Inesperadamente gentil. Com o rosto azulado, Goro tomou essa água num instante.


Quatro e meia já está acordada e abre a janela. O sul está soprando, visto que está ridiculamente quente. E ainda está ensolarado pelos arredores. Foi acender o gás e um sopro fedorento começou a apitar. A empresa de gás está reduzindo as despesas também essa manhã… Sadako colocou o antigo espelho de mão manchado de vermelho na janela treliçada pouco iluminada e arrumou o cabelo. “Agora, como estará o pequeno Goro? Me pergunto se Fujisaki está me amando.”

– Tóquio é como um depósito de lixo humano – a avó de Sakata havia dito, mas Sadako, no fim das contas, tinha mais fé em Tóquio que no interior. Como Tóquio é um lugar onde as pessoas do interior podem se reunir, é possível relaxar livremente como em Xangai.

Sadako nunca pensou que fosse doloroso vir para esta casa. Quando anoitece, os bêbados andam na entrada do beco da casa, uma casa estranha e há também pessoas à espreita. Essa cidade, movimentada o dia todo, de alguma forma é interessante para ela.


– O chá ainda está fervendo?


Voz da avó, vinda da cama.


– O gás ainda não está saindo.


–A pequena Sadako está com nariz entupido, então tente enfiar bem o nariz na saída do gás.


– Já coloquei o nariz.


Disse resmungando e a avó ficou em silêncio. Sadako levou a roupa que havia lavado na noite anterior para o varal no segundo andar. O varal, a briza do mar em todas as direções, as amplas ruínas se tornam campos com as ervas que crescem desenfreadas, a montanha de sucata, tudo e qualquer coisa, isso é, à sua maneira, serpenteia pela cidade. A vista ampla de Hinohara[6]. No meio disso, prédios de cor deprimida e uma floresta de chaminés sem fumaça.(Sempre que sobe ao varal, Sadako canta alguma música, A canção da maçã, o blues da chuva, e, por fim, uma música militar de Ineko que já não pode ser mais cantada.)



Desceu apressada ao andar de baixo, a cozinha escura fedia muito a gás. Rapidamente acendeu o fogo e colocou a chaleira. Colocou o chá, levou para o quarto da avó e:


– Às oito há distribuição da ração de farinha, você sabe, não é? Um pacote sete ienes e cinquenta centavos.


– Sim, eu sei.

– Você vai fazer suiton[7] hoje?


– Sim, vou fazer.


– Se parecer que o gás vai durar, seria bom já fazer a porção da tarde.


Sem fermento, pão duro como mochi[8] é a realidade cotidiana. Ryokichi do Sr. Chikahito foi numa viagem a trabalho para Fukushima e estará ausente por apenas dois dias. Ao dar seis horas, fez-se o som de uma janela de chuva sendo aberta. Masako acordou.


– Ontem à noite tive um sonho muito agradável. Estava lambendo as tetas de uma grande vaca sem pernas que vinham do céu. No meio da escada, Masako desceu enquanto dizia algo assim. – Meus olhos estão brilhantes, isso porque consegui dormir bem. Internamente, Masako devia estar muito confiante na beleza de seus próprios olhos. Eram oito horas quando sentou-se à mesa do café. Estava quente nos arredores, como se ela estivesse próxima de um desmaio.


– Afinal, o que será que comem as pessoas da sociedade? – De repente, Masako disse isso.


– Estou fazendo o que posso…


Masako não gosta de suiton, então coloca a frigideira no fogão elétrico, e frita a farinha.


– Sadako, o que sente mais falta do passado?



– Do passado? Da minha mãe é claro, porque será que ela morreu? Sempre fico pensando nisso.



– Não estou falando da mãe. Eu digo, onde morava, o que comia. Por exemplo, o sushi de Shintomi[9], as costeletas de porco empanadas de Shitaya[10]… “Ah não! De novo falando de comida logo de manhã. Rápido, coma sua comida, vá logo para Okubo* e pare de falar.” Como uma estudante, a velha enfiou as mangas de seu yukata sobre os ombros enquanto fumava um longo cachimbo.


– Ei, Sadako, os bolinhos de gyoza em Xangai também são deliciosos. Eu também comi muitos bolinhos de gyoza fritos. Por que havia tantas coisas deliciosas em Xangai?... Eu deveria ter comido até me cansar... Ah, que tédio. Tédio não ter nada. Tive um amor não correspondido na China. Fico pensando, como será que ele está hoje em dia? Que tédio – Masako esticou as pernas sob a mesa, e abanou o leque desesperadamente.


O gás ainda estava saindo, Sadako se levantou para esquentar a sopa da noite anterior mas, de repente, ficou com vontade de ver Mineko. As três irmãs estão separadas, agora estava solitária. Se tivesse um pouco de renda, gostaria de alugar mesmo que um quarto para as três e gostaria de viver, ainda que sem água…


Masako ainda estava falando sobre algo na sala.


– Sadako, hoje é que dia da semana? Você não iria para Okubo[11] comigo? É chato ir sozinha. – Em pouco tempo, o som do guarda-roupa. Sadako, agora, estava a um suspiro de chorar, então fez um bico e sussurrou a canção da maçã.


– Sadako também pode ir. – veio a permissão da tia.


Sadako se lembrava de Xangai, da pimenta e dos temperos que teriam na sopa.


– Mãe me dê apenas cem ienes.


– Você diz isso, mas ontem trouxe várias coisas da rua. Você não é normal.


– É por lembrar de Xangai, nada demais.


– Aqui é o Japão.


– Sem dinheiro fico desamparada e não posso sair.


– Seria bom se você trouxesse um pouco de Okubo


Sadako se calou e encarou sua mãe.


– Sadako, deixe isso para depois, vá logo se arrumar. – Masako disse, com voz gentil.


Assim que a sopa começou a ferver, o gás parou abruptamente. Masako, que parecia estar se arrumando, usava um vestido de linho amarelo limpo e polia as unhas com flanela.


– Quantos anos tem a irmã de Goro?


– Dezoito.


– É bonita?


– É, sim


– Isso é ótimo, qual o nome dela?


Kunimune, estou começando a consultar o registro da família, que é um dos meus sete hábitos. Senzo foi ao mercado em Nakano para comprar alguns vegetais.

No braseiro os miúdos estão fervendo na panela. Gradualmente, está começando a cheirar bem.


– Xangai é um bom lugar?


– É bom.


A maioria dos livros nas prateleiras foi vendido, e havia uma fina camada de poeira sobre elas.


Kunimune estava no último ano do ensino médio, senpai[12] de Fujisaki Senzo e, imediatamente após deixar a Escola de Política e Economia de Waseda, foi para o exército. Quando voltou depois de desmobilizada, descobriu que alguns de seus amigos já haviam morrido na guerra, alguns ainda não haviam retornado, outros haviam fugido do país e não tinham notícias de seu paradeiro. Depois da derrota na guerra, os assuntos pessoais eram realmente sombrios e, embora Kunimune conseguisse encontrar um emprego por conta própria, ela não tinha amigos além de Senzo Fujisaki para reclamar de sua solidão.


Ah, está ficando tarde.

Senzo voltou secando o suor.

Cortou um pedaço de repolho em pedaços grandes com a faca da marinha, e colocou na panela. Adicionou sal e um pouco de margarina, e , “ah, com isso não há nada a temer”, limpou as mãos em plena satisfação.


– Ei, tem alguma boa notícia.


– Nenhuma.


– Nenhuma forma de ganhar uma quantidade terrível de dinheiro?


– Será que eu e kunimune nos tornaremos um casal?



– Casal? Bom, isso não vai durar muito. A irmã mais velha de Goro é linda.



– Ela ainda é uma adolescente.”


– Adolescente que é bom. As adolescentes são a jóia desta geração. No mundo todo, os adolescentes e as adolescentes são o que há de melhor.


Goro é um aluno da sexta série em uma escola nacional. Está morando com Senzo há um mês e tem sido uma vida muito mais alegre do que em Kagoshima.


Dois anos atrás, perdeu seu pai em Xangai. Logo voltou para Kagoshima com a mãe, a irmã mais velha Sadako e a irmã mais nova Mineko. Mas sua mãe morreu de pneumonia logo depois da viagem.


Imaturos, parece que os três possuíam alguma propriedade mas a avó de Sakata não larga dela. Sadako fugiu para Tóquio no final do ano passado com Goro. Contou com a casa de Masako, uma conhecida da época em que morava em Xangai. Os dois imaturos tiraram da paixão do desespero um amor genuíno pela terra de Tóquio.




Flutuando na lua, por que as nuvens

o mundo é impensável

A destruição parece um sonho

Assim que nos separamos, nos separamos.



– Caligrafia habilmente desenhada na parte de trás do leque rasgado.


– Não é você?


– O que?


– Essas palavras são de partir o coração, não importa como leia.


Depois de colocar os ingredientes, de comer, jogar água quente e enrolar o pó da ração. Os três sentiram-se em paz como os pepinos do mar. Se pensar que os cigarros da faculdade foram três a um e trinta cada, não se deve fumar nem com mágoa nem com negligência. Kokumune enquanto também fumava com carinho, logo começou a praticar um dos sete hábitos.


– Cigarros sendo vendidos às escuras, sem distribuição, é vantajoso para o governo. Não há nada de científico no que o governo está fazendo. O mesmo que visitar o santuário, é princípio cheirar como graça divina, mas se as pessoas se agitam, logo jogam inseticida sobre elas. Fique sem racionar a comida por alguns dias, vá a cidade e verá montanhas de batatas sendo vendidas.


A humanidade deveria ser amada na natureza, mesmo assim, depois da derrota na guerra, as pessoas comuns não tiveram nenhum benefício. Kunimune descarta vigorosamente o kage benkei[13], dizendo que um bom negócio é apenas viver uma vida boa por cinquenta anos.


– Não está dando certo


– Vai dar, se você comprar um pouco de koodo


– Ótimo, vamos comprar. Mas fermento em pó é caro.


– Vou pegar com a irmã mais velha.

– Ouvi dela que a família Natsukawa é sovina.


– Afinal, eles tem fermento.


– Quero comer alguma coisa doce.O que aconteceu com a existência de açúcar. Essa coisa chamada açúcar…


Kunimune encostou as costas na janela da sacada, de repente começou a se lembrar de doces. Goro se lembrou da branquidão do açúcar na garrafa. Que roubaram para lamber, ele e mineko, o açúcar branco tão valioso, na casa da avó de Sakata. Não consegue se esquecer da doçura que se espalhou pela boca. A textura do torrão enrolado numa crosta grossa macia.

Embrulhou um pouco em papel e provou na cama com Mineko. Visto sob a luz, o brilho intenso, pareciam pedaços de vidro.


– Sem lugar para trabalhar, não importa o que fizermos, isso é melancólico. A terra natal também não é opção..."

Senzo puxou seu cabelo como se estivesse fraco.


– Não acredito que um estudante universitário possa abrir uma loja deixando cair a mochila na beira da estrada.


– Sim.


– Por que você não larga a escola e começa a procurar emprego com seriedade...


– Viver é antes uma coisa difícil.


– Se eu disse para você morrer, você não vai imediatamente...


– Absolutamente. O mundo não se importa nem um pouco com estudantes como nós. Se você diz que há problemas demais, há mais do que isso. Não tenho quinhentos ienes e não posso estudar, de qualquer maneira.


– Sei…


– Quanto você recebe de salário, afinal?


– Recebo como um antigo chefe de seção, provavelmente.


– Então não é grande coisa.


– Em primeiro lugar, não é isso. Uma vida sem comida perde resiliência, antes de tudo, e aquele que a vive perde seus sonhos.Você não consegue claramente discernir se é um jovem ou um velho. Uma década passa nebulosa e,se continuar assim, não será muito diferente da vida de um mendigo. É a mesma vida que viajar para o reino dos mortos ainda vivo. Por isso otimismo é otimismo.Sem ambição humana de ascensão e sucesso é muito fácil.Todo dia eu levo minha bolsa e trabalho, à noite eu compro berinjelas e tomates e vou para casa. Os livros são caros, por isso não os compro, mas fico com sono ao ler os anúncios do jornal da manhã. Quando acordo, pego minha bolsa novamente e vou para o trabalho. Não há nada de errado, nada que de contrário ao ser. Nesta vida ondulante como as persianas de uma barraca de gelo


A Ferrovia Shosen atravessa os campos queimados.


No estreito terreno baldio sob meus olhos há um monte de palha e espigas de milho.Segundo andar de quatro tatames e meio, mas ainda assim, um lugar paradisíaco.Embora os tatamis estejam avermelhados e o miolo esteja vazando, o aluguel é extremamente caro. Apenas dormir em tatames rasgados, vender todos os livros, as estantes estão sendo absorvidas pelo tatami, dia após dia. O fardo de um quarto em ruínas é estranho e frustrante para Senzo. O pobre destino, embora invisível a olho nu, soa baixinho ao vento como sinos de vento nos beirais.


Assim, se não fosse por Goro, estaria caindo num abismo sem fundo. Ocasionalmente, como a via láctea, Goro e Sadako vinham vê-lo.


– Desta forma, é muito solitário...


– E se arranjasse uma esposa?


– Eu não posso comer, Mulher que já desistiu do amor é patético.


Kunimune sentou-se em atitude terrivelmente ameaçadora


– Fujisaki, o racionamento.


– O deus do andar debaixo está chamando.


– O que é agora? – Senzo perguntou.


– Konbu[14]* ralado


– Que?


Kunimune e Goro começam a rir com a resposta distraída de Senzo. Parece haver uma dúvida se Konbu ralado é importante.


– Eu vou e volto."


– Eu me pergunto se vai ser tão caro quanto no outro dia. Pergunte para o deus, se for muito caro, volte sem comprar. Não entendo porque as rações são tão caras, é estranho. “


– Já comeu uma farinha substituta baseada em farinha de konnyaku[15]? Dizem que custa oitenta ienes o kanme[16], como será que é…


– Eu não estou com fome...


Goro pegou a panela e desceu as escadas.


[1] 日傭人 - Pessoa que vive de bicos (um trabalho diferente por dia) [2] Autor nascido em 1886 [3] 肝胆を砕いてゐるのがせいいつぱいである - no sentido de sobreviver mesmo que custe a humanidade do sujeito. [4] マザー - palavra em inglês. [5] 浅草 - bairro de Tóquio [6] 檜原村 - bairro de Tóquio [7] 水団 - bolinhos de farinha para comer na sopa [8] 餅 - bolinho ou massa de arroz batido no pilão [9] 下谷 - Bairro de Taito, cidade em Tóquio [10] 新富 - Cidade em Miyazaki [11] 大久保 - Bairro de Tóquio [12] 先輩 - aluno mais velho que serve de referência. [13] Ditame que prega a honra de ser forte enquanto ninguém está por perto, e de não se envergonhar quando há. [14] Alga marinha de mais difícil cozimento [15] 蒟蒻 - gelatinha a base de batata. [16] 貫目 - 3.75 kg

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