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 Notas sobre a formação da subjetividade na sociedade burguesa


Imagem: 1975: ARTAUD AT RODEZ, part of Charles Marowit'z Theatre of Cruelty season at the Open Space Theatre, London


 Lucas Rodrigues Coelho.

Sem dúvida, ser negociado não é, para um sujeito humano, uma situação rara,  contrariamente à falação que diz respeito à dignidade humana, senão aos Direitos do Homem.  Qualquer um, a todo instante e em todos os níveis, é negociável, pois o que nos dá qualquer  apreensão um pouco mais séria da estrutura social é a troca. A troca de que se trata é a troca  de indivíduos, isto é, de suportes sociais, que são ademais o que chamamos de sujeitos, com o  que eles comportem de direitos sagrados, diz-se, à autonomia. Todos sabem que a política  consiste em negociar e, desta vez, por atacado, aos pacotes, os mesmos sujeitos, ditos cidadãos  por centenas de milhares” (Jacques Lacan- Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise,  1964).

Mais de cem anos após a descoberta da divisão subjetiva em termos freudianos, e da  criação da Psicanálise, vivemos em um mundo devastado pelo capitalismo em crise estrutural  que, em seu processo de acumulação, engendra níveis de miséria material e psíquica sem  precedentes. À gigantesca massa de trabalhadores mundial se apresenta como necessidade  imediata, para sua sobrevivência, dois cotidianos e repetitivos atos:

1) A venda de sua força de trabalho. 2) A compra de mercadorias com seu salário, para a satisfação de suas necessidades,  compra esta que cumpre a função de realização do valor.

Temos, a partir desses dois atos, o engendramento de uma relação na qual o indivíduo precisa se colocar como coisa, como mercadoria, para manter-se vivo. Os impactos para a subjetividade só podem ser o de identificação não só com a forma mercadoria, como também com o próprio capital. Tal processo identificatório parece ser decisivo para a constituição da subjetividade humana em nossa forma de organização social. Tendo em vista o processo de reprodução social, tal como Georg Lukács apresentou em sua monumental obra “Para a Ontologia do Ser Social” publicada em 1970, o processo de reprodução social garante a manutenção de uma forma de organização social específica através da reprodução de suas relações fundamentais:

1) As relações de produção da vida social que ocorrem através de formas de organização do trabalho e de distribuição dos produtos deste.

2) As relações de reprodução da vida social que garantem as condições para a  manutenção das relações de produção,incluindo o ordenamento jurídico no caso  da forma social capitalista.

O processo de reprodução social representado por Lukács (1970/2018) é fundamental  para entendermos como ocorre a formação da subjetividade individual, uma vez que a  reprodução filogenética e ontogenética estão suprassumidos ao processo de reprodução social.  Lukács (1970/2018)

Em A Ideologia Alemã (2007), Marx já teoriza acerca das relações de produção e  reprodução da vida social: 

“O primeiro ato histórico é, pois, a produção dos meios para a   satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e   este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição fundamental de toda   história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser cumprida  diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos” (MARX; ENGELS, 2007). 

Portanto, se a dependencialidade da vida humana, tanto no nível filogenético quanto no  nível ontogenético, à uma dada forma de organização social historicamente estabelecida  constitui o ser humano enquanto ser social e a subjetividade humana vai se constituir enquanto  subjetivação do conjunto de objetivações possíveis e necessárias para a manutenção da vida  humana no interior daquela forma de organização social, como abordado detalhadamente por  Gilmaisa Macedo em Indivíduo e sociedade sobre a teoria de personalidade em Georg Lukács  de 2012, o processo de individuação de cada novo humano está marcada por uma identificação  primária e inconsciente com a forma de organização social vigente, pois a sua vida depende da  manutenção de certas relações ainda que o ser do indivíduo nunca se reduza completamente ao  ser de sua época. Essa irredutibilidade ocorre, pois, sendo o indivíduo exemplar do gênero  humano e diferenciado qualitativamente do restante da natureza pela socialidade humana, há  sempre nele a potencialidade de transformar o mundo segundo uma finalidade, um telos, para  satisfazer suas necessidades através de escolhas entre alternativas concretas, factíveis, como  aponta Lukács (2018). Portanto, ele se identifica com as ideias derivadas das relações sociais  fundamentais de sua época, porém nunca é idêntico a elas. No entanto, se a reprodução da vida humana enquanto espécie e a manutenção da vida individual, são subssumidos pela reprodução do modo de produção capitalista, a consequência desse processo objetivo na constituição subjetiva será uma identificação primária e inconsciente - inconsciente no sentido de imperceptível ao indivíduo identificado - do ser humano com o ser do capital, através da qual o indivíduo age, mesmo nas suas relações pessoais, - fora das relações sociais, de produção, nas quais ocorrem os processos de fetichização - como se ele fosse uma coisa abstrata, que precisa estar em constante processo de valoração da sua personalidade enquanto coisa em si, através de trocas interpessoais.

Desse modo, a personalidade se forma de maneira reificada, onde o indivíduo vê a si como objeto, como coisa, às vezes como objeto para o outro, às vezes como coisa possuidora de outras pessoas coisificadas, mas a diferenciação entre essas duas posições gerais será assunto para outro texto[1]. 

O processo de formação do indivíduo ocorre sempre no interior de uma dada forma de organização social específica, tendo o complexo familiar como principal complexo mediador no processo de gênese e desenvolvimento individual. É no interior da família que o processo  orgânico-biológico de gestação da prole se dá. Aqui, temos mais uma vez um processo no qual a socialidade humana tem a dimensão biológica e orgânica subsumidos a primeira: As condições nas quais cada gestação ocorre - aparentemente um processo puramente natural e até, como alguns autores da Psicologia e da Psicanálise já equivocadamente abordaram, instintivo[2]- depende das condições dadas no interior da vida social, para cada camada da hierarquia social. A gestação de uma mulher das classe burguesa tende a ter condições nutricionais, emocionais e físicas muito distintas daquelas observadas entre as mulheres proletárias. Não é objetivo deste texto aprofundar nessas diferenças, mas sinalizar como a suprassunção do ser biológico pelo social, apontado por Lukács (2008), em especial no capítulo da Reprodução Social, se faz presente na vida de um indivíduo desde a sua concepção[3] 

A família enquanto complexo social mediador entre o indivíduo singular e a vida social geral visa a reprodução vital dos membros de um dado modo de organização social, de tal forma que os indivíduos possam manter um determinado modo de organização social simultaneamente à manutenção de suas próprias vidas individuais.

No clássico A Origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884) Friedrich Engels apresenta com pormenores antropológicos a complexa e diversa inter-relação histórica entre os diversos modos de produção e os variados tipos de família. No entanto, no posfácio da primeira edição, o velho general faz a seguinte síntese:

“ [...] o fator determinante, em última instância, na história é a produção e a reprodução da vida imediata que, no entanto, se apresentam sob duas formas. De um lado a produção dos meios de subsistência, de produtos alimentícios, habitação e instrumentos necessários para isso. De outro lado, a produção de mesmo homem, a reprodução da espécie. A ordem social em que vivem os homens de determinada época histórica e de determinado país está condicionada por esses dois tipos  de produção: de um lado, pelo grau de desenvolvimento do trabalho e, de outro, pela família. Quanto menos desenvolvido estiver o trabalho, quanto mais reduzida for a quantidade de seus produtos e, em decorrência, a riqueza da sociedade, tanto mais fortemente a ordem  social é determinada pelos laços de parentesco” (ENGELS;2017)

Aqui cabe destacar que quaisquer visões a-históricas, romantizadas e sacralizadas de família estão descartadas como factíveis historicamente, sendo a família um complexo social que reflete em um microcosmos as relações de dominação vigentes de um dado tempo histórico. Assim, Engels (2017) citando Marx, se refere à família em sua obra clássica:

“A família moderna contém em germe não apenas a escravidão (servitus) como também a servidão, pois desde o começo, está relacionada aos serviços da agricultura. Ela contém em si, em miniatura, todos os antagonismos que se desenvolverão mais tarde na sociedade e em seu Estado” (ENGELS, 2017)

A obra engelsiana faz um enorme recorrido entre as diversas formas familiares históricas, com base em dados etnográficos de diversos autores, principalmente de Lewis Morgan (1818-1881) e de J.J Bachofen (1815-1887), até abordar a forma familiar atual, caracterizada pela submissão dos laços de parentesco à propriedade privada, submissão esta, mediada pelo Estado com o estabelecimento dos marcos jurídicos para a unidade familiar:

“A velha sociedade, baseada nos laços de parentesco, é destruída em decorrência do choque entre as classes sociais recém-formadas. Em seu lugar surge uma nova sociedade, organizada em Estado, cujas unidades  inferiores já não são agrupamentos segmentados em laços de parentesco, mas unidades territoriais, uma sociedade em que o regime familiar está totalmente submetido às relações de propriedade e na qual se desenvolvem livremente as oposições de classe as lutas de classes que constituem o conteúdo de toda história escrita até os nossos dias.” (ENGELS; 2017)

O trabalho de Engels foi estudado criticamente por diversas autoras, principalmente aquelas ligadas ao movimento feminista e de estudos de gênero, considerada a importância que a obra Engelsiana teve no debate em relação ao patriarcado, como podemos notar nessa passagem em que o autor  faz o seguinte balanço histórico:

“ A derrocada do direito materno foi a derrota do sexo feminino na  história universal. O homem tomou posse também da direção da casa,  ao passo que a mulher foi degradada, convertida em servidora, em escrava do prazer do homem e em mero instrumento de reprodução. Esse rebaixamento da condição da mulher, tal como aparece abertamente sobretudo entre os gregos dos tempos heróicos e mais ainda dos tempos clássicos, tem sido gradualmente retocado, dissimulado e, em alguns lugares, até revisado de formas mais suaves,  mas de modo algum eliminado” (ENGELS,2017).

Autoras como Alexandra Kollontai (1872-1952) e mais recentemente Silvia Federici (1942-) e a brasileira Marília Moschkovich continuaram no Século XX e XXI a teorização de corte marxista acerca da família contemporânea para além do clássico de Engels. Por outro lado, o trabalho etnográfico de Eleanor Leacock (1922-1987) reunidos na esplêndida coletânea: Mitos da dominação masculina (1981) atualizaram, também, as formulações marxistas sobre as sociedades do chamado comunismo primitivo. Outra contribuição importante sobre o tema, desta vez focada na origem e desenvolvimento do amor sexuado individual, foi dada por Sérgio Lessa em Abaixo a família monogâmica (2012) e Amor em tempos de crise estrutural (2021).

Todos os autores supracitados fizeram contribuições no sentido de desnaturalizar as relações familiares e sentimentos, dentre eles o suposto amor que permeia tais relações, sem perder de vista a articulação do complexo social familiar com a totalidade das relações do modo de produção capitalista[4]. Podemos dizer que, conscientemente ou não, a tradição teórica de estudos sobre o complexo social familiar que vai de Engels até Lessa (2012; 2021) contribui para o desvelamento ontológico do conjunto de relações no interior do complexo familiar e, assim, seus desdobramentos subjetivos, necessários para o funcionamento deste, que pressupõe a procriação dos membros adultos constituintes de núcleo familiar, formado a partir do matrimônio.

Portanto, o processo de individuação e formação subjetiva se dá no interior da vida social que tem como base tal articulação: O indivíduo, que só pode nascer e se desenvolver no interior deste complexo familiar[5], vai necessariamente expressar no interior do seu desenvolvimento subjetivo as contradições que estão expressas no interior da família inevitavelmente, independentemente da vontade dos indivíduos envolvidos no processo. Portanto, todos os fenômenos subjetivos, mesmos aqueles aparentemente mais individuais, mais privativos, e mais únicos, só podem ser explicados corretamente enquanto expressão subjetiva de tais relações sociais, o que não exclui, obviamente, o fato de que tais fenômenos  tenham significação particular-singular para o próprio indivíduo que as vive[6]. Parece que ainda estamos longe de uma compreensão total do processo de determinação geral da subjetividade[7], mas algumas bases já podem ser apresentadas como alicerces para desenvolvimentos ulteriores:

A família moderna, aqui chamada genericamente de família burguesa está assentada na submissão da mulher pelo homem[8], sendo a essência dessa submissão, por um lado, o trabalho doméstico[9], e por outro, a monogamia: que nada mais é do que a servidão sexual da  mulher ao marido, visto que o exercício da vida sexual masculina fora do casamento é moralmente tolerado desde a época do livro de Engels:

“Surge, conforme foi demonstrado, da família pré-monogâmica, no período de transição entre a fase média e a fase superior da barbárie.Seu triunfo definitivo é uma das características da civilização nascente. Baseia-se no domínio do homem com a finalidade expressa de procriar filhos cuja paternidade fosse indiscutível e essa paternidade é exigida  porque os filhos deverão tomar posse dos bens paternos, na qualidade de herdeiros diretos. A família monogâmica se diferencia do casamento pré-monogâmico por uma solidez muito maior dos laços conjugais que  já não podem ser rompidos por vontade de qualquer uma das partes. Agora, como regra, só o homem pode rompê-lo e repudiar sua mulher.  Ao homem, igualmente, é concedido o direito à infidelidade conjugal, sancionado ao menos pelo costume (o código de Napoleão outorga-o expressamente ao homem, desde que ele não traga a concubina ao domicílio conjugal), e esse direito se exerce cada vez mais amplamente, à medida que se processa o desenvolvimento social. Quando a mulher, por acaso, recorda as antigas práticas sexuais e tenta renová-las, é  punida mais rigorosamente do que nunca.” (ENGELS; 2017).

 

 Em seu estudo, Lessa (2021) se valendo dos estudos de Leacock (2019) e do próprio  Engels (2010) sintetiza a relação necessária entre a família monogâmica, a propriedade privada - e consequentemente as sociedades de classes que subjazem desta - e a opressão de gênero:  

“[...] O que nos é decisivo é que a monogamia entrou na história da humanidade como relação essencialmente desigual, de opressão. Correspondente, sempre e em todos os lugares, à dominação da família pelo proprietário privado (o sexo do porpietário privado é pouco importante, ainda que na maior parte das vezes seja o homem o proprietário e a mulher a parte oprimida). Esse modo de organização  familiar não existia antes das sociedades de classe. Por outro lado, não há sociedade de classe que não tenha nesse modo de organização familiar um dos seus fundamentos mais importantes, ao lado do Estado e da propriedade privada.” (LESSA; 2021)

Embora, Lessa (2021) diga que o sexo do proprietário seja pouco importante - afirmação da qual discordo[10]- algumas páginas seguintes, ao descrever a gênese histórica da família monogâmica na sua articulação com a propriedade privada, o próprio autor, recorrendo  a Engels (2010) e Leacock (2019), descreve o cenário de dominação no interior da família a  partir de seus atores sexuados:

“Que por milênios e mesmo ainda hoje o dominante da família seja o homem, é apenas um indício de que a propriedade privada entrou na história como um atributo masculino. Este atributo masculino se funda no fato de que o número de mulheres é o que determina a taxa de natalidade das sociedades primitivas. A vida da mulher era mais  importante que a vida do homem, e por isso, coube a este exercer a  forma originária de violência sem a qual não há exploração do ser  humano pelo ser humano: a guerra. Os homens fazem a guerra, é por ela que originalmente se obtém a propriedade privada Mais cedo do que tarde, a propriedade privada passou a ser dos homens e as  mulheres, para terem lugar na sociedade, tiveram de aceitar, como esposas ou prostitutas, o novo poder econômico concentrado nos homens.” (LESSA;2021).

A divisão sexual do trabalho, impôs aos indivíduos a partir daí, condições para a formação da personalidade mediada pela uma identidade de gênero determinada de acordo com  os papéis e ideais masculinos e femininos[11], com Lessa (2021) narra: 

“Ao longo de milênios, esta dominação moldou um padrão de masculinidade e de feminilidade que é, para todos nós, uma vivência  cotidiana. A mulher dócil, abnegada, dedicada à família, obediente e que se deixa conduzir. Na vida, bem como na cama. O homem é um conquistador, capaz de prover a família. Também, na vida como na cama. Deve estar claro: isso nada tem de biológico, é puramente social. Não é menos verdade é que, se a alienação do homem e da mulher é essencialmente a mesma, ela não é idêntica para o dominante e o dominado. O primeiro, por ser proprietário privado, precisa cuidar da propriedade privada familiar [...]. A mulher, ao contrário, serve à propriedade privada cumprindo tarefas locais e privadas: arrumar casa, cozinhar, cuidar dos filhos, arrumar-se para receber o dominante e assim por diante [...]. Esta situação de dominação abre aos homens um espaço de desenvolvimento pessoal muito mais amplo do que às mulheres, pois o polo dominante tem de se conectar cotidianamente à  totalidade social, enquanto o polo dominado vive uma vida cotidiana limitada ao lar e à reprodução da família, apartada da totalidade social”  (LESSA; 2021).

As diferenças na formação da personalidade entre homens e mulheres serão melhor explicitadas em outro texto devido à complexidade do tema. Por hora basta dizer que é nesse  complexo familiar - sem descartar as variações particulares existentes entre culturas, nações e camadas sociais distintas - que a subjetividade individual se forma. Notem que tal estado objetivo e concreto de coisas, pressupõe que o indivíduo já nasce no interior de uma coletividade que tem como base a submissão da sexualidade humana à propriedade privada: O próprio ato de nascimento de um bebê, o próprio surgimento da prole, já ocorre tendo como seu pressuposto uma forma de alienação da sexualidade humana. É lícito dizer, com base em todo o cenário formulado pelos autores até agora, que tal alienação sexual é mais forte entre as  mulheres do que aos homens, mas ela parece estar generalizada à ambos os sexos na medida que as formas de exercício da sexualidade estão, necessariamente, mediadas pela propriedade privada através da família monogâmica. 

A submissão da sexualidade humana em geral à propriedade privada, e em nosso caso  particular à ordem do Capital, pode explicar a força que a sexualidade ganhou na formulação freudiana através de sua teoria da libido: a sexualidade no modo de produção capitalista aparece como uma força abstrata, ingovernável, incontrolável, que pode ser manejada com investimentos e contrainvestimentos, refletindo no interior da subjetividade, a incontrolabilidade do Capital no mundo externo. Daí vem a genialidade da formulação de Michael Schneider em Neurose e Classes Sociais: Uma Síntese Freudiano-Marxista (1977), ao afirmar que a Psicanálise desvelou a pseudonatureza humana, ainda que seus teóricos acreditaram, e ainda acreditam, que tenham desvelado a natureza humana em si.

Mais importante do que o status da Psicanálise é o conjunto de implicações para o entendimento da subjetividade que a suprassunção da vida humana à reprodução do Capital  tem: se a vida individual depende da reprodução da ordem burguesa, isso leva a uma identificação primária e inconsciente, desde o nascimento, dos indivíduos ao próprio ser do capital, ainda que ela seja relativa e não absoluta, como ocorre na maior parte dos processos identificatórios. Tal identificação se dá porque, invariavelmente, no interior da família monogâmica patriarcal - que é a forma familiar necessária à sociedade burguesa - o indivíduo, ainda recém-nascido, é posicionado no interior das relações familiares como objeto para o outro, ainda que os cuidadores dessa criança o façam sem perceber, como ocorre na maioria  das vezes. Na constituição familiar própria da ordem social burguesa, toda criança é coisa, objeto, para a satisfação das necessidades afetivas de seus cuidadores, em especial das  necessidades afetivas dos pais. Essa posição, com que a criança é colocada no interior da  dinâmica familiar, já foi largamente demonstrada pela Psicanálise. Psicanalistas referentes em  clínica infantil como a pediatra francesa Françoise Dolto, no prefácio da obra de Maud  Mannoni: A Primeira Entrevista em Psicanálise (1923) sintetiza claramente tal posição: 

“Voltemos à situação trinitária pai-mãe-filho e ao seu papel determinante na evolução psicológica. Cada ser humano é marcado pela relação real que tem com seu pai e com sua mãe, do a priori  simbólico que herda no instante do seu nascimento, antes mesmo de ter aberto seus olhos. Dessa maneira, tal criança é esperada como devendo eliminar os sentimentos de inferioridade do pai, que permaneceu como menininho inconformado de não ter nascido num corpo de menina, produtor de algo que vive nela, tal como viveu em sua mãe. Tal filha é esperada como devendo ajudar sua mãe a reencontrar a situação geminada de dependência para com sua própria mãe, da qual ela se libertou com muitas dificuldades, e a eliminar a sensação de abandono que ela experimenta com um marido que lhe permanece alheio. Essa criança necessária a seu pai, necessária a sua mãe, já está encentada, se  me é lícita a expressão, do ponto de vista simbólico, na sua força de  desenvolvimento”. (DOLTO in: MANONNI; 1923-1980). 

Obviamente, psicanalistas como Dolto e Manonni se debruçaram no estudo das  situações mais graves, do ponto de vista desta alienação do desenvolvimento humano, já que  sua base de pesquisa eram os casos que lhes chegavam ao consultório ou em instituições. No  entanto, isso não impediu que essas autoras encontrassem no interior do sintoma infantil uma  dinâmica que reflete nas relações familiares às relações sociais reificadas, mais evidenciada  nos casos graves, como nos conta Monnoni: 

“A reflexão psicanalítica permite-nos esclarecer o significado dos  distúrbios espaço-temporais junto a certa categoria de crianças. (Esses  distúrbios acompanham em geral graves desordens no domínio da  leitura, da ortografia, do cálculo. Impõe-se então uma psicanálise, antes de qualquer forma de reeducação: a manutenção da criança no estabelecimento frequentado é pedida para evitar que se acentue, para ela, a face impressionante dos casos especiais que vivem entre eles.) 1) Os distúrbios acompanham uma dificuldade do sujeito em situar-se em  relação ao seus próprio corpo (esse corpo muitas vezes não lhe pertence, não lhe diz respeito, é de fato propriedade [grifo meu] da  mãe, trata-se de uma relacionamento muito particular com a mãe, como voltamos a encontrar em casos de debilidade mental e psicose)” (MANNONI; 1923-1980).

No entanto, a maior parte dos psicanalistas, concebendo o complexo familiar burguês como a família em si, naturalizaram a formação triádica: Pai, mãe e filho[12].  Apesar de grandes nomes da Psicanálise terem apreendido os efeitos subjetivos da dinâmica familiar burguesa, como a maior parte deles não levavam em consideração a função do complexo familiar no interior da vida social burguesa, foram incapazes de perceber que os efeitos subjetivos verificáveis fenomenicamente em consultório são causados pela subsunção da reprodução filogenética à reprodução do capital. Tal dependencialidade leva a subjetivação dos filhos como se fossem propriedade dos pais. Isso implica em dizer que a posição coisificada do infante ante aos pais é necessária, nessa forma de organização social, tanto para a reprodução social em sua integralidade, quanto para a sobrevivência da criança. 

Ao longo da socialização do infante, os valores, as ideias da classe dominante, a  ideologia enquanto falsa consciência, estabelecem uma identificação inconsciente secundária  da criança com a vida espiritual da ordem burguesa, que substancializa, concretiza, a  identificação primária, abstrata, anteriormente estabelecida com o ser do capital. Mauro Iasi na conferência: Educação Consciência de Classe e Estratégia  Revolucionária - V EBEM, em 2011 (disponível no youtube) explica brilhantemente como a  Ideologia, falsa consciência, opera na consciência individual:

"As ideias dominantes em cada época são as ideias da classe dominante; são as relações sociais dominantes expressa em ideias; as ideias de sua dominação. As ideias que expressam as relações que fazem dessa classe; a classe dominante. Veja que ai a dialética tomou conta do raciocínio de Marx. Não se trata apenas de um conjunto de ideias que se impõe como dominantes; elas são dominantes porque são da classe dominante; mas a classe só é dominante porque é a expressão de relações sociais de produção historicamente determinadas que as coloca em um papel de dominação[13]. (...) A consciência só pode se desenvolver como expressão dessas relações. (...) Marx analisou como fenômeno da alienação; na sua submissão à ideologia que são dois fenômenos diferentes mas profundamente associados. (...) A consciência imediata é a consciência do ser metido na divisão social do trabalho; quer um trabalho; quer viver; quer pagar as contas..." (lASl; 2011; 55 a 57 min).

O que faz a mediação entre o indivíduo submetido a essa ordem  reificada e a sua consciência imediata é a ideologia. A ideologia tem uma incrível funcionalidade de manutenção da ordem; por quê? Porque ela não produz isso (esse é um equívoco comum); a ideologia não produz essa submissão, mas uma vez dada a inversão real da vida; da ordem da mercadoria; do estado; do capital; as pessoas subssumidas à essa ordem procuram compreender essa ordem e isso expressa uma certa subjetividade; uma formulação ideal dessa realidade. A expressão dessas relações na sua forma ideal. Nesse ponto que a ideologia como mediação funciona e funciona bem: lnvertendo o real; obscurecendo  suas determinações; naturalizando esse real; apresentando o interesse particular como se fosse universal e essa funcionalidade da ideologia se explica por uma cisão muito mais profunda que é aquela que se expressa no capital; interesses de classe. A ideologia tem a incrível funcionalidade de apresentar o particular interesse de classe como se fosse universal; daí sua força; sua eficiência.” (lasi; 2013; dos 37 a 39 min).

Portanto, a consciência do indivíduo que nasce e se desenvolve no interior das relações de dominação que explicitamos até agora - tanto as relações de produção quanto as de reprodução da vida social - só pode expressar o conteúdo dessa dominação na forma de ideias. É dessa consciência que vai, necessariamente, derivar nossa organização subjetiva: tanto no sentido das funções mentais[14], quanto no sentido da formação de uma personalidade. Esse indivíduo, dotado de uma consciência, precisará exercer na vida cotidiana uma série de tarefas para satisfazer suas necessidades gerais, das mais básicas às mais elevadas. Ele vai usar dos elementos de sua organização mental e personal - no sentido de sua personalidade - para agir sob a cotidianidade com fim de suprir as necessidades postas contingêncialmente. É daí que surge sua consciência imediata, ou seja: sua percepção imediata da realidade. Tal percepção imediata, que tem sua organização perceptual baseada na ideologia, entra em choque constante  com as vivências da realidade social contraditória, na qual os indivíduos fazem parte. Portanto, o próprio conjunto de ideias que constituem as diversas ideologias - se estamos falando de ideologia estamos falando de ideias falsas, necessariamente - são mobilizadas pela consciência imediata dos indivíduos, através dos signos[15] que a compõe. Assim temos um conflito entre a vivência real, contraditória, e a idealidade presente na consciência que funciona mediada pela  ideologia. É provável que esse conflito tenha uma determinação predominante na constituição cognitivo-afetiva: As ideologias são mobilizadas, cognitivamente mobilizadas ainda que não voluntariamente mobilizadas, para recobrir as contradições da realidade, e nesse processo, os afetos - que são expressão do conflito entre os ideais da classe dominante postos na consciência  e realidade- são escamoteados da percepção imediata dos indivíduos.

Desde os trabalhos da Psicologia da Gestalt de Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka[16], sabemos que a percepção humana funciona apreendendo totalidades organizadas, que se autonomizam em relação aos dados sensoriais mais básicos que constituem o objeto percebido[17]. Muito se modificou no campo da teoria da percepção, e principalmente  na relação entre percepção-cognição-crença desde os pioneiros Gestaltistas. Uma boa síntese  das principais querelas em torno da percepção humana pode ser encontrada no excelente artigo  de Plínio Junqueira Smith: A percepção como uma relação: uma análise do conceito comum  de percepção (2014). Nele, o autor contrapõe várias posições em torno do que é e de como se  forma a percepção. A maior parte das querelas, apresentadas no artigo, giram em torno da  relação entre percepção e objeto percebido, entre percepção e sensação, e entre evento externo  e causalidade perceptiva. Podemos abstrair como síntese do artigo (que em si já é uma síntese  do vasto campo teórico dos últimos anos sobre o assunto) que nossa percepção da realidade é  mediada por nossas crenças, mas que dependem dos objetos percebidos (externos a nossa  subjetividade) para se concretizar como tal. Dessa forma, uma determinada crença pode definir  a qualidade do objeto percebido no interior da relação que se estabelece com dado objeto, mas  para que haja a percepção autêntica, verdadeira, de tal objeto, este precisa estar presente em  nosso campo perceptivo;ou seja, o objeto precisa nos impor a qualidade de sua presença[18] .

O valioso trabalho de Smith (2014), ao se centrar na noção comum de percepção,  apreende como a percepção humana, enquanto atividade cognitiva relacional com o mundo,  funciona na cotidianidade da vida social do indivíduo comum[19], em uma complexidade mister  que rompe os tecidos das camisas-de-força das teorias gnosiológicas modernas. Consciente de  que trabalhos posteriores sobre o tema precisarão ser desenvolvidos para explicar os meandros  de tal processo, podemos afirmar que há uma série de relações que vão desde a ideologia mais  socialmente difundida, expressa em formas concretas de práticas humanas como o trabalho, a  arte, a religião, etc, até o fenômeno perceptual mais cotidiano: Por exemplo, uma criança branca que entre uma boneca de pele branca e a outra de pele negra qualifica a primeira como bonita, e a segunda como feia[20] 

No exemplo acima, onde o racismo opera na percepção imediata que uma criança tem  da sua realidade cotidiana, a dimensão perceptual e cognitiva (já que a qualificação feita por  uma criança exige um trabalho de apreensão do dado sensível e de uma elaboração deste com  base em ideias pré-existentes oriundas de uma dada história de vida), produzem um certo tipo  de relação afetiva com o objeto percebido, relação essa que vai interagir com o conjunto de  afetos sentidos por aquela criança, determinando uma certa vida afetiva, que só pode ser bem  entendida na sua relação de unidade sem identidade com sua vida cognitiva[21]. 

No campo afetivo, as ideologias, na forma individual de pressupostos inconscientes - aquilo que a psicanálise denominou fantasia - , operam papel decisivo no reconhecimento (ou  déficit dele) dos afetos que incidem sobre os indivíduos. Para além do reconhecimento em si  de determinado afeto, a prática clínica nos permite observar que a relação que se estabelece  entre as fantasias e crenças de um indivíduo e suas vivências cotidianas estão na própria gênese e, diferenciação qualitativa, de cada afeto. Podemos chamar os afetos que são produto da contradição entre a consciência imediata - moldada pela ideologia - e a realidade contraditória  - experimentada pelo indivíduo através de determinadas vivências - , de afetos aviltadores, na  medida em que eles constrangem o desenvolvimento da personalidade humana já que são expressão de relações sociais alienadas que aviltam o gênero humano e sua potencialidade de  um desenvolvimento omnilateral. 

Portanto, pode-se dizer que as formas particulares de adoecimento subjetivo são  expressão do conflito mais geral entre gênero humano humano e sociabilidade alienada, onde  afetos comuns a outras épocas históricas como medo, raiva, vergonha, tristeza, etc, assumem  formas específicas na sociedade burguesa, sendo talvez, a forma clinicamente mais comum, a  da angústia, que é reflexo afetivo da divisão subjetiva que nos é constitutiva a partir de formas de organização social onde a vida espiritual e a vida material estão marcadas pelo antagonismo de classe.

Assim podemos dizer que, na imediaticidade da vida cotidiana, o indivíduo inserido  nas relações sociais de dominação burguesas, age como uma unidade: Ele precisa responder às  demandas sociais, na busca pela satisfação de suas necessidades, de maneira unificada,  inequívoca -ainda que isso custe o rebaixamento de sua humanidade - e para isso ele age com  a mediação de sua consciência imediata, ou seja, com a mediação de sua falsa consciência. No  entanto, para além da imediaticidade cotidiana, no conjunto de sua vida, esse indivíduo se  encontra cindido, dividido, uma vez que para satisfazer suas necessidades ele precisa se  submeter à uma vida social que tem por base a cisão da produção material e espiritual[22], como  na página 47, de A Ideologia Alemã, afirma Marx: 

“As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias  dominantes, isto é, a classe dominante que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe  também dos meios de produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual. As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são a expressão das relações que fazem de uma classe dominante, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem entre outras coisas, também consciência, e por isso pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles os fazem também como pensadores, como produtores de ideias que regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo; e por conseguinte, que suas ideias são as ideias dominantes da época”(MARX, ENGELS; 2007).

No trecho, podemos ver como Marx apreendeu como as ideias da classe dominante  dominam a cabeça, a vida espiritual da classe dominada: o indivíduo, da classe trabalhadora  tem sua vida espiritual identificada com as ideias da classe antagônica dela, formando assim  uma cisão interna entre sua vida concreta, material e sua vida espiritual que se desdobra, por  sua vez, em uma contradição entre suas necessidades materiais e suas necessidades espirituais, marcando uma série de antagonismos subjetivos na qual a constituição de uma personalidade cumpre a função de dar coerência, unidade, e integralidade à subjetividade. Processo parecido  ocorre com a formação subjetiva dos membros da classe dominante, pois sua vida material ainda depende das relações sociais que na totalidade social ainda a ligam a classe trabalhadora, mas com a diferença significativa, de que por ser a classe dominante, a detentora tanto da força  material quanto da força espiritual de sua época, o indivíduo desta classe terá um conjunto de alternativas concretas para o desenvolvimento da sua personalidade muito mais amplo do que os membros da classe trabalhadora. Assim, tendencialmente, os membros da classe dominante teriam muito mais possibilidades de organizar seus antagonismos subjetivos através de uma personalidade mais rica, que consegue se realizar através da satisfação das necessidades espirituais do indivíduo, do que os membros da classe proletária, mas de forma alguma eles conseguem escapar dos antagonismos subjetivos, dos quais o adoecimento subjetivo é  expressão.

Ou seja, sob o domínio de formas de organização social submetida à propriedade  privada, o indivíduo tem a sua subjetividade cindida, dividida, clivada: Suas necessidades  espirituais e materiais expressam o antagonismo de classe externo, ainda que esse antagonismo apareça como interno na relação cotidiana que o indivíduo tem consigo mesmo. Um indivíduo dividido é um indivíduo que não pode reconhecer por um ato de vontade a real natureza da sua divisão subjetiva, muito menos dominar o conflito que está posto no interior de sua subjetividade, sendo sua dinâmica cognitivo-afetiva, bem como seus processos identificatórios, imperceptíveis para em seu cotidiano. Ao contrário, o mundo antagônico e coisificado, dominado pela propriedade privada e pelo capital, parece natural à vida cotidiana, até que vivências específicas entram em choque com tal naturalidade. 

A Psicanálise e algumas outras teorizações no campo da Psicologia cognitivista e da  aprendizagem já apreenderam a fenomenologia cotidiana destes processos, embora tenham  sido poucos, proporcionalmente à quantidade de pesquisadores que tais tradições teóricas  produzem, os que buscaram os nexos causais constitutivos entre as relações de produção e  reprodução da vida material, seu conteúdo ideal - tais relações na forma de idéia - e os fenômenos psicológicos mais recorrentes na interior desta mesma sociedade, como esse texto  se propõe agora a iniciar.

Erich Fromm (1971)[23] e Michel Schneider (1977) já demonstraram em belíssimos  trabalhos, como os psicanalistas, em especial o próprio Freud, não se deram conta do  significado histórico de suas descobertas acerca da subjetividade humana: A maior parte dos  psicanalistas e psicólogos, como bons teóricos burgueses, foram ideólogos que obliteraram o  caráter histórico-relativo de suas descobertas porque acreditavam na universalidade abstrata de  suas teorizações. Tanto Fromm (1971), quanto Schneider (1977) criticaram Reich e a Escola  de Frankfurt pela combinação eclética entre Psicanálise e Marxismo. Schneider (1977),  especificamente, demonstra estar consciente da tarefa de suprassumir a Psicanálise.

Por outro lado, Eduardo Mourão em seu: Karl Marx e a subjetividade Humana (2014),  dividido em três tomos, demonstrou, de maneira muito mais minuciosa do que o também  importante trabalho de Fromm (1971), como as apreensões que Marx fez acerca da  subjetividade humana, em muitos sentidos adiantaram “descobertas” que seriam feitas  posteriormente pela Psicanálise, e, arriscaria a dizer, pela psicologia como um todo. Resta  agora reunir as teorizações mais coerentes com a realidade concreta para uma explicatio mundi, que dê conta de suprassumir as diversas tradições teóricas do campo Psi, superando  aquilo que Vigotsky em seu tão esquecido ensaio: O significado histórico da crise na  Psicologia [tradução livre] (1927) chamou de crise da Psicologia!

 

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Notas:

 

[1] Os detalhes do processo da constituição da personalidade merecem um texto específico, que  não será esse.

[2] Com destaque para o instintivismo materno que permeia toda a obra de um dos Psicanalistas mais  importantes: o inglês Donald Winnicott (1896-1971). Outros autores e tendências do campo Psi também reproduziram em maior ou menor grau a visão ideologizada das relações familiares presentes, por exemplo, na obra de Winnicott. No entanto, a menção nominal se deve tanto pelo impacto da obra deste autor, quanto pela pertinência de uma série de formulações do autor sobre a vida afetiva da prole no interior das famílias patriarcais burguesas. Ainda que, na maior parte do tempo, o pediatra e psicanalista pensasse estar desvelando o processo de desenvolvimento e maturação afetiva da criança em si, - e por isso ele atribui vários estados afetivos dos membros familiares à uma suposta instintualidade-,  ele desvela, sem saber, o desenvolvimento afetivo possível no interior da contraditória família burguesa. Sua teorização terá lacunas - no que tange à relação entre o processo de individuação e a constituição familiar - que  serão aproveitadas pela tradição psicanalítica francesa de corte estruturalista, na qual Jacques Lacan  (1901-1981) seria seu maior expoente. O institualisto natural de Winnicott e o estruturalismo linguístico de Lacan vão constituir na tradição Psicanalítica pós-Freud os dois lados de uma só moeda, que só poderão ter seus problemas teórico-práticos superados - principalmente os observados no âmbito clínico  - com o uso da lógica dialética. Tarefa essa que exige outro texto, visto que mestres como Winnicott e  Lacan produziram formulações riquíssimas, por mais que tenham sido vítimas, e por vezes cúmplices,  da decadência ideológica burguesa que arrebatou o Século XX. No caso de Lacan, ele parece ter também  sido vítima do marxismo vulgar e mecanicista de Louis Althusser (1918-1990), com o seu chamado marxismo estrutural.

[3] Ainda que a socialidade humana possa parecer algo óbvio, autores importantes do campo Psi como  Sigmund Freud (1856-1939) e B.F Skinner (1904-1990) não tinham claro em suas formulações tal  dimensão do ser, sendo a relação entre a vida social, o fenômenos Psíquicos/comportamentais, e o que  esses autores entendiam como sendo a dimensão natural e filogenética do ser humano, um ponto de  tensão constante na obra deles. É possível que muitas revisões e considerações feitas por psicanalistas  e behavioristas posteriores, no sentido de dar à concepção de ser humano dessas tradições uma caráter  mais social, seja resultado direto ou indireto da incidência de críticas feitas por autores marxistas à essas  tradições. Um cenário ligeiramente diferente encontramos em relação às psicologias chamadas  Humanistas, talvez pela influência de um grande autor que, se não pode ser considerado marxista,  parece ter sido um leitor importante de Marx: Jean Paul Sartre (1905-1980).

[4]O destaque para o amor enquanto sentimento e, ao mesmo tempo, ideologia que justifica os vínculos familiares como necessários e naturais é importante já que ele será decisivo na vida afetiva daqueles sujeitos que organizam sua subjetividade a partir de uma certa lógica chamada de neurótica pela  tradição psicoanalítica.

[5]  Mesmo indivíduos que nascem e se desenvolvem em grupos que não são necessariamente  correspondentes ao da família hegemônica, tem a noção de família presente na sua consciência como ideal de referência, ainda que seja uma referência na qual o indivíduo, na sua vida cotidiana, se contraponha. Evidência disso é o uso cotidiano e ampliado do termo família para se referir a um grupo de pessoas pelas quais o indivíduo nutre algum tipo de estima que ele sente como recíproca. Cotidianamente podemos escutar de alguns indivíduos: “Família é quem cuida” em uma tentativa de dissociar a noção de família aos genitores. No entanto, o uso histórico do termo - que etimologicamente, segundo Cirne-lima (2016) é derivado da família patriarcal greco-latina - sendo associado ao complexo social em questão, revela o modelo de família historicamente hegemônica como referência, ainda que  negativada pelo uso que um indivíduo pode tentar fazer dela.

[6] É na maneira como o indivíduo reconhece e narra a sua própria história de desenvolvimento no interior  de certas relações que, cotidianamente, podem ter a aparência de relações puramente pessoais mas, como estamos vendo, na realidade são sociais - no sentido de que elas cumprem um papel na reprodução da vida social sob pena de ruína dos indivíduos envolvidos que passam, portanto, a ter tais relações como necessárias para sua sobrevivência passando, portanto, a sentir tais relações como necessidades  pessoais - que vai se dar a posição subjetiva do indivíduo diante de sua própria história.

[7] Aqui é válido aclarar que a compreensão total do processo de determinação geral da subjetividade não implica de maneira alguma em um esgotamento das variadas formas de expressão particular singular que um indivíduo pode desenvolver ao longo de sua vida, como pode pensar o lacaniano  progressista e bem intencionado. Antes, na realidade, se trata de entender corretamente as determinações universais para distinguir como os momentos singulares se articulam na universalidade:  Sem universalidade concreta, toda e qualquer singularidade se torna abstrata na cabeça do psicólogo ou  do psicanalista clínico, ainda que este esteja bem intencionado em prover uma boa condução para os  tratamentos dos quais se encarrega! 

[8] Os casos de famílias homoafetivas precisam ser posteriormente estudados. Entendemos aqui, que a  família hegemôncia, e necessária ao capital, é a familia heteronormativa. Ainda que seja possível a  adequação do modo de produção capitalista às conquistas históricas da classe trabalhadora LGBT, as  famílias homoafetivas ainda são, infelizmente, exceção à regra.

[9]  Por mais que as mulheres de camadas médias possam afastar o trabalho doméstico do seu cotidiano  imediato através da contratação de empregadas domésticas - que são mulheres da classe trabalhadora,  e em sociedades como a brasileira, majoritariamente mulheres negras - para a maior parte das mulheres  proletárias o trabalho doméstico enquanto responsabilidade implícita ao casamento e a relação  genitores-filhos é uma realidade.

[10] Em um texto futuro sobre a formação da personalidade poderá ser explicado devidamente como  divisão sexual do trabalho subjetiva a própria identidade de gênero em uma articulação integral com a  lógica pela qual se orienta o processo de formação da personalidade individual.

[11] A ausência da compreensão da opressão patriarcal na base do complexo social familiar pode ter sido  um dos motivos pelos quais, desde Freud, as noções de feminilidade enquanto passividade, e  masculinidade enquanto atividade, foram assimiladas como dado elementar no processo de formação  da subjetividade para a Psicanálise, ou seja, no processo chamado de sexuação. De tal forma que um  campo de pesquisa se abre ao nos indagarmos: Quais são os impactos dessa noção reificada da divisão  sexual do trabalho, no interior da teoria psicanalítica, para a condução clínica dos tratamentos de nossos  analisandos?

[12] Naturalização esta que ocorre mesmo na Psicanálise de influência estruturalista onde os papéis sociais  de pai e mãe, empiricamente dados, deixam de coincidir com as funções estruturais para a constituição  subjetiva, e passamos a ter: função paterna e função materna. Veja que mesmo nesta última versão, a  referência a pater e a mater continuam postos enquanto elementos operadores do processo de  constituição do sujeito. Inicialmente, os teóricos burgueses da psicanálise, acreditando ser a formação  familiar monogâmica patriarcal uma formação genérica, natural e universal - via complexo de édipo - só podiam explicar o conjunto de alienações que ocorrem no interior do complexo familiar burguês  através de um realismo ingênuo, extremamente dependente da contingência relacional entre os membros  da unidade familiar e de cenas empiricamente localizáveis para a justificação das experiências  traumáticas verificadas posteriormente no relato clínico. Tal postura, levou de um lado, à culpabilização  da conduta dos pais, principalmente das mães, pela gênese dos adoecimentos infantis, e de outro, ao  completo ceticismo em relação à realidade factual de relatos de violências parentais quando estes  ultrapassavam o limite daquilo que o psicanalista considerava razoável: basta ver a hesitação de Freud  em atribuir o caráter de realidade factual aos relatos de suas pacientes histéricas sobre abusos ocorridos  no interior da vida familiar ( no contexto de abandono da teoria da sedução). Esse quadro histórico foi  ligeiramente modificado com o projeto lacaniano. Todavia, a não coincidência entre a família empírica  e as funções estruturais familiares conservou a naturalização da família burguesa no interior da teoria  Psicanalítica na medida em que a formação triádica se tornou estrutural e a-histórica, sendo ela -a  formação triádica - uma conformação evidentemente histórica.

[13] As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força  material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. (...). As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal (a) das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação. (a) ideológica (Marx;Engels;  1932-2007; p. 47 )

[14] O soviético Alexander Luria (1902-1977) foi pioneiro neste campo. No entanto, os psicólogos  alemães que desenvolveram a tradição da Gestalt, munidos de um contexto filosófico que valoriza o  momento da totalidade, tem contribuição mister no sentido de sustentar a tese que a percepção - elemento básico da consciência psicológica - se organiza através de totalidades que não podem ser  reduzidas a soma mecânica das partes. (Koffka; 1935

[15] Um debate mais detalhado sobre a relação entre o signo e a consciência pode ser encontrado em Marxismo e Teoria da Linguagem (1927) de Bakhtin/Volóchinov, com a advertência de que, tal como ocorre com Lukács (2012), a noção de ideologia enquanto falsa consciência não está clara, ao contrário do que pretendemos neste presente texto.

[16] Aqui vale a menção dos clássicos: The mentality of the apes (1917) e Princípios da Psicologia da Gestalt (1935) de Kohler e Koffka, respectivamente.

[17]  De tal forma que temos fortes razões para hipotetizar que nossas crenças modelam nossa percepção,  organizando processos perceptuais onde alguns elementos são figura, outros são fundo. Se tal hipótese  estiver correta, estamos perto de explicar como as ideologias sociais organizam o funcionamento mental  dos indivíduos.

[18] É de suma importância ressaltar que o artigo resgata as distinções e gradações entre o que seria uma  percepção verdadeira e uma percepção falsa, como no caso das alucinações, por exemplo.

[19] Tal coisa só é possível - ainda que Smith não saiba - pois o sujeito gnosiológico e o sujeito psicológico  são o mesmo: O ser humano enquanto sujeito ontologicamente existente.

[20]  A relação da Ideologia com o campo da Estética é nítida, embora não seja o foco do presente texto.

[21] A relação da Ideologia com o campo da Estética é nítida, embora não seja o foco do presente texto. Vale mencionar as contribuições, no conjunto da obra, de Henri Wallon e Lev Vigotsky para o tema  da unidade sem identidade entre cognição e afeto, mas não somente: Sem a sofisticação da dialética  apreendida por Wallon, Sigmund Freud e Donald Winnicott fizeram importantes contribuições nesse  sentido, sendo muitas delas de ordem prática, tornando a clínica psicanalítica uma clínica eficiente para  a cura de sofrimentos psíquicos, como a necessidade indicada por Freud em vários de seus escritos  clínicos, bem reunidos pela editora Autêntica em: Fundamentos da clínica Psicanalítica (2017), de  fazer aparecer no relato de seus pacientes moções afetivas anteriormente recalcadas para que  determinado sintoma compulsivo (que diante do recalque ganhara função de substituição da experiência  traumática) perdesse força. Há aqui, implicitamente, o entendimento de que a expressão afetiva através  da fala (expressão do afeto suprassumida pela cognição) permite uma modificação na vida afetiva do  doente de tamanha ordem que modifica a função de determinados atos repetitivos, ininterruptos de outra  forma.

[22] Ora, se para satisfazer suas necessidades imediatas, o indivíduo precisa rebaixar sua humanidade,  suas necessidades imediatas estão desprovidas de qualidade humana. Assim, podemos dizer que a cisão que denunciamos no interior da subjetividade também ocorre no conjunto total de necessidades de um  indivíduo: Temos portanto, necessidades autênticas e falsas. O que deriva daí é também uma outra  divisão entre a persona (personalidade) autêntica: que reconhece e busca suprir necessidades autênticas  e persona (personalidade) falsa: que toma para si necessidades que não são suas, no sentido de que não  fazem parte do processo de reconhecimento do indivíduo singular-abstrato de sua genericidade humana.

[23] Me refiro à importantíssima obra: A Crise da Psicanálise: ensaios sobre Freud, Marx e psicologia  social de 1971.

 

 


  

  

 

 

 

  

  

  

    

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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